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22º Festival É Tudo Verdade – Cidade de Fantasmas
CINÉFILOS
21 abr 2017 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte do 22º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Quando a Primavera Árabe estourou em 2011, ainda pouco se noticiava sobre a Síria e o complexo emaranhado de interesses que movia os atuantes do conflito. Mesmo com a ascensão do Estado Islâmico (EI) e sua violência tão arbitrária e ditatorial à população, os olhos da comunidade internacional ainda não encaravam a crise com a urgência que se deveria. A partir de 2015, essa realidade passa a mudar conforme dois fenômenos recorrentes começam a assolar diretamente o território europeu: as migrações em massa e os ataques terroristas. Nos anos seguintes, não só seremos bombardeados quase que diariamente com notícias do evento, como veremos também uma produção crescente de documentários na região, como Salam Neighbor (2015) e o vencedor de melhor curta-documentário do último Oscar, Os Capacetes Brancos (The White Helmets, 2016). Neste ano, três são os filmes em burburinho sobre o tema: Cries from Syria (2017), Last Men in Aleppo (2017, ganhador de inúmeros festivais, como Sundance e CPH:DOX – importante festival de documentários de Copenhague) e Cidade de Fantasmas (City of Ghosts, 2017).

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Dirigido por Matthew Heineman, do maravilhoso Cartel Land (2015), Cidade de Fantasmas – que abriu ontem (20 de abril) o 22º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade – segue os esforços de estudantes sírios que, por anos vendo as injustiças contra seu povo, decidem criar o site Raqqa is Being Slaughtered Silently (RBSS) para divulgar ao mundo a violência do EI em textos, fotos e vídeos. E por mais pomposos que seus integrantes recebam, no início da projeção, o Prêmio Internacional de Liberdade Jornalística do Comitê para Proteção dos Jornalistas (CPJ), em 2015, a realidade é muito mais incerta e perigosa, frente a coleção de ameaças de morte que cada um deles recebe semanalmente (mesmo quando fogem para Berlim).

Narrando brevemente os acontecimentos-chave que levaram à conjuntura do país, vemos a forma com que a promessa de oposição do EI ao governo de Bashar-al Assad se cumpre em partes, mas acaba gerando uma brutalidade ainda maior, que não poupa nem as crianças – cooptadas desde cedo a lutar e atirar como visto nos vídeos divulgados. Inclusive, é sintomático que quando um dos integrantes de RBSS, referindo-se ao trabalho de denúncia deles, comenta que a câmera é uma arma maior do que os fuzis, não pensemos também em equivalência, no poder que as produções propagandísticas tem de atrair novos combatentes. E a cena em que constatamos a qualidade quase que hollywoodiana desses vídeos, conseguimos compreender o fascínio que eles suscitam – “na rua, eles [crianças e jovens] ganham balas e outras coisas que não ganham dos pais”.

Ao utilizar várias das imagens do grupo sem pudor (e por mais chocantes que sejam os corpos decapitados, um dos vídeos mais fortes mostra uma criança em trajes do EI, degolando um ursinho de pelúcia, enquanto os cinegrafistas o incentivam), Heineman encorpa o apelo de que as imigrações devem ser vistas humanitária e solidariamente. Ainda mais frente a volumosos protestos a favor da deportação, que vemos, por exemplo, em Berlim. A verdade é que “nunca quis sair de Raqqa, mas não tive escolha”, como Mohammed, fundador do RBSS explica.

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Da esquerda à direita, Mohamad Almusari, Hamoud Almousa, o diretor Matthew Heineman e Abdalaziz Alhamza

Mas se o trabalho de Heineman e dos demais documentaristas é preciso no que tange a reunião de argumentos e imagens, o mesmo não se pode dizer com toda certeza do fazer documentário. Como jornalistas estudando jornalistas, passamos toda a projeção nos perguntando se algumas das cenas com os integrantes da RBSS não passam de reencenações de momentos já vividos. Em certo ponto, por exemplo, um deles revê o vídeo de assassinato do seu pai, naturalmente se comovendo. Mesmo assim, não parece que a atitude foi espontânea, mas sim uma requisição dos realizadores do documentário. E é claro que o jornalista tem o dever de procurar e extrair a informação, mas contanto que deixe claro estar fazendo isso, pois de outra forma o que fica é um estranhamento. Assim, o problema não é reencenar uma ação, mas um sentimento, e isso é delicado, uma vez que ambos estão intimamente relacionados.

E tratando de sentimentos, a obra é levemente manipulativa ao empregar uma trilha sonora um tanto contemplativa e vários efeitos sonoros, como tiros e falas em eco ou efeitos de estática de TV, a fim de engajar mais o público; quando bastasse o conteúdo de forma bruta, que o assunto por si só seria poderoso. Além disso, mesmo tratando de diversos aspectos, o filme abusa, principalmente no final, da quantidade de vezes que volvemos ao drama pessoal dos jornalistas da RBSS, perdendo a relevância para um melodrama exagerado. Mesmo assim, Cidade de Fantasmas abre caminho para que obras vindouras ganhem cada vez mais espaço no cenário mainstream, provando que por mais que sírios tenham de avançar sobre terras internacionais, o que eles mais querem de fato é retornar a seus países de origem, pacificados…

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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