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“As Cavernas de Aço”: quando o mistério encontra a ficção científica
SCI-FI
26 nov 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por Maria Eduarda Nogueira (mariaeduardanogueira@usp.br)

 

Foto: Wender Starlles/Audiovisual – Jornalismo Júnior

Isaac Asimov é um nome célebre na literatura de ficção científica. Responsável pelas obras que inspiraram os filmes “Eu, Robô” e “O homem bicentenário”, Asimov é inovador e sagaz. E é justamente essa sagacidade e ânsia pela inovação que fazem de “As cavernas de aço” (Aleph, 2013) um livro tão intrigante e atraente.

Escrever um cenário futurístico nem sempre é uma tarefa fácil. É preciso levar o leitor para um mundo desconhecido, fazendo-o imaginar os lugares em sua cabeça. Na obra, a Terra está em um estado de superpopulação e as pessoas vivem nas Cidades ― estruturas hiper-mecanizadas, programadas para suprir as necessidades básicas do maior número de habitantes possível. As áreas rurais são inabitadas e hostis à vida humana por não possuírem todos os artifícios da urbanidade.

Paralelamente, os Mundos Siderais, ex-colônias da Terra, são consideravelmente menos populosos. Obcecados por limpeza e germofóbicos, os Siderais são tidos como esnobes. Sua relação ruim com os terráqueos é um dos princípios que move o livro desde a sua sinopse.

E é nesse contexto de inimizades que se encaixa o personagem principal: Elijah “Lije” Bailey. Investigador policial, pertencente ao que seria a classe média de nossa realidade, o protagonista é avesso aos robôs, que, aos poucos, tomam os postos de emprego e passam a exercer cargos antes ocupados por humanos. Considerando o contexto do livro, originalmente publicado em 1953, pode-se considerar uma crítica à mecanização que, ainda hoje, é alvo de discussões.

A vida de Bailey muda completamente quando é chamado por seu chefe e também amigo, o Comissário Julius Enderby, para discutir um “assunto confidencial”. Um importante cientista Sideral havia sido assassinado e as suspeitas recaem sob terráqueos. Lije é responsável por investigar e resolver o caso, possibilitando uma grande ascensão em sua carreira. Mas, para isso, precisa lidar com um parceiro Sideral um tanto quanto inusitado: o robô Daneel Olivaw.

Um ponto a ser destacado é a aparência de Olivaw. O robô é quase um humano perfeito em sua fisionomia. Até mesmo certas funções fisiológicas, como o ato de mastigar, foram incorporados ao seu funcionamento. Esses atributos tão humanos fazem com que Daneel seja considerado um humano comum pela maior parte dos personagens, fomentando a antipatia do parceiro. Ao longo do livro, o leitor descobre que o objetivo dos Siderais ao criar um robô humanoide não era apenas explorar a tecnologia. Essa descoberta, inclusive, é essencial para o desenrolar dos acontecimentos.

Ao misturar dois gêneros da Literatura ― mistério e ficção científica ―, Asimov consegue prender a atenção do leitor ao mesmo tempo que o introduz a um universo completamente diferente. Durante os dias que seguem a investigação, Lije e Daneel percorrem diferentes áreas da Cidade de Nova Iorque. As cozinhas coletivas, as faixas de transporte, as seções e outras estruturas enfatizam a nova configuração dos ambientes urbanos, necessária para lidar com a superpopulação.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é a personalidade do próprio Elijah. Ao longo da narrativa, conhecemos um pouco de sua história, que explica o porquê ele preza tanto por sua classificação ― uma espécie de mensuração de classe social. Seu caráter leal e compromissado é também bastante explorado, sendo essencial para o desfecho da história.

Essa imagem de homem justo e correto contrasta diretamente com suas atitudes em relação a seu parceiro Daneel e aos robôs em geral. A todo momento, Bailey se mostra hostil e desconfiado. Isso nos remete novamente à questão da mecanização e robotização tão exploradas na obra: Lije tenta se provar superior por temer que as habilidades do robô o tornem obsoleto para o Departamento de Polícia. Por isso, ele procura se provar exacerbando suas características humanas, seu ponto diferencial e inalcançável para o parceiro.

Por vezes, o excesso de desconfiança e a hostilidade de Bailey enfurecem o leitor. A linha entre ser um investigador e ter aversão a robôs é cruzada algumas vezes, fazendo com que tenhamos simpatia por Daneel, constantemente atacado. Por outro lado, essas mesmas características tornam o protagonista um exímio investigador, cumprindo seu trabalho com maestria ― mesmo quando há a possibilidade de ostracismo e, consequentemente, de rebaixamento de sua classificação.

As reviravoltas são uma constante em “As cavernas de aço”. A cada descoberta de Lije, o leitor é levado a uma nova linha de pensamento, que logo é refutada nos capítulos seguintes. Seguindo um padrão de cliffhangers ― recurso utilizado em produções audiovisuais e literárias para deixar um final aberto e gancho para continuação ―, Asimov faz com que seja impossível parar a leitura.

Os títulos dados a cada capítulo são simples e diretos. Eles revelam o que acontecerá no capítulo, mas de forma breve e sem spoilers. Esse recurso parece contradizer com a técnica de cliffhangers, já que o leitor pode ter uma ideia do que o espera na parte seguinte do livro. No entanto, o autor é sutil e consegue atiçar ainda mais a curiosidade quem lê. Em uma alusão simples: Asimov dá corda, mas rapidamente a puxa.

“As cavernas de aço” é um livro instigante. A combinação perfeita entre mistério e ficção científica torna a obra chamativa tanto para os fãs de Agatha Christie quanto para os fãs de Philip K. Dick. O raciocínio do protagonista em contraposição com o tecnicismo de seu parceiro robô fazem com que a obra seja recheada de contrastes, mas que acabam se complementando bem, principalmente na conclusão do enredo.

Em suma, Isaac Asimov acerta em cheio quando nos oferece uma narrativa de robôs extremamente humanizada.

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