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40ª Mostra Internacional de Cinema de SP: Cameraperson
CINÉFILOS
30 out 2016 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Em determinado momento do filme, a diretora Kirsten Johnson decide voltar cinco anos após a primeira visita à casa de uma família rural da Bósnia. Comovida pelas lembranças que tinha do local, ela projeta as imagens que havia feito anteriormente, capturando as reações tímidas deles. Terminado, ela comenta como a felicidade espontânea deles era bela, e então vai embora. Como aqui, Cameraperson (2016) é repleto de momentos de muito potencial, que não são explorados nem temática nem emocionalmente, apresentando então um filme vazio de muitas camadas, e de nenhuma também.

Diretora de fotografia de muitos documentários de sucesso da última década, como Cidadãoquatro (Citizenfour, 2014) e A Guerra Invisível (The Invisible War, 2011), Johnson reúne diversas de suas imagens na tentativa de capturar a realidade de pessoas ao redor do mundo e o poder da câmera nessa função. Promissor na teoria, o que se vê na prática é na verdade uma série de colagens sem propósito algum. Viajamos por tantos locais diferentes, que quando finalmente estamos conhecendo melhor uma personagem ou situação, o filme corta e vamos para o ponto diametralmente oposto do globo; e assim, o processo então se repete até o próximo corte.

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Com isso, além de não conseguirmos nos envolver empaticamente, as várias investidas de se fazer um comentário político ou religioso também se esvaem, uma vez que todos eles beiram apenas o superficial, se preocupando mais em apresentar o maior número de localidades do que de fato tentar entender o problema em si que ocorre em cada um. Em um momento em que enumera os múltiplos massacres da história, o filme tenta remontar ao célebre curta-documentário de Alain Resnais, Noite e Neblina (Nuit et brouillard, 1956), capturando as fachadas de construções enquanto expõe algumas informações. Diferente deste que se atentava não só em apresentar dados brutos, mas também em construir um mal-estar e psicologismo somente com as imagens das edificações, o trabalho de Johnson só se preocupará em jogar números, que mais uma vez segundos depois, se sucederão em um corte para nunca mais voltarem a ser comentados.

O filme é tão desconexo que de repente adentramos nos dramas e memórias da própria família da diretora, que também não levam a consideração nenhuma. A impressão que se tem é a de que Johnson simplesmente ligou a câmera na expectativa de que algo interessante ocorresse, e que assim o espectador pudesse criar relações que revelassem a multiplicidade da vida. O problema é que com exceção de cenas pontuais, como uma que se passa numa maternidade na Nigéria, quase nada acontece, tornando o filme excessivamente enfadonho. E para isso, ela se utiliza vez em outra de uma trilha sonora evocativa ou de um enquadramento mais estilizado a fim de pontuar um tom mais sublime, que em última análise somente revela o quão auto-indulgente a obra é.

Auto-indulgência está também presente em alguns momentos em que a diretora “acidentalmente” – uma vez que nada é acidental após o crivo da edição – filma a si mesma ou deixa o microfone aparecer, como se também fizesse um comentário sobre o fazer cinematográfico, para uma vez mais (adivinhem!) cortar e ignorar que isso aconteceu. Mas isso tudo se evidencia ainda pior se analisarmos moralmente as escolhas de sua montagem. Em suas diversas viagens pelo mundo, o tom sublime que Johnson propõe parece sugerir que nos resignemos ou admiremos o excêntrico de países periféricos. Em outras palavras, o vazio de sua câmera é na verdade o reflexo do olhar do conquistador sobre o conquistado.

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Partindo de uma premissa instigante, Cameraperson é aquém de suas potencialidades, vazio em seu propósito emocional-temático, frio em sua exposição de conteúdo, desviado pela sua auto-indulgência e condenável em sua moral. Gratuito por excelência, o filme faria então mais sentido se chamasse Camerawhere?.

 

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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