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40ª Mostra Internacional de SP: Arlette. A coragem é um músculo.
CINÉFILOS
27 out 2016 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

arlette-1Há cinco anos estreava Carte Blanche (Alemanha e Suiça, 2011), produção documental da única equipe cinematográfica que pode acompanhar a missão da Corte Penal Internacional na República Centro-Africana, país afundado em genocídio e barbárie motivados por conflitos entre grupos religiosos locais. Dentre as muitas cenas que testemunham a violação de direitos humanos no país, uma específica chamou a atenção de uma abastada família suíça: uma menina, Arlette, jogada ao chão, urrando de dor após levar um tiro de raspão no joelho.

Cinco anos se passaram e essa mesma cena dá início ao documentário Arlette. A coragem é um músculo. (Arlette. Mut ist ein muskel., 2016), dirigido pelo estreante Florian Hoffmann, que concorre na Competição Novos Diretores. O alemão foi incumbido a voltar à República Centro-Africana e propor à família de Arlette que a garota passasse uma temporada na Europa, bancada pela família suíça, para tratar o ferimento no joelho, que estava se agravando e poderia causar a amputação de sua perna.

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Cena de Arlette que comoveu a família suiça. A menina acabara de levar um tiro de raspão no joelho.

A proposta foi aceita pela família como quem alcança um milagre, mas a decisão também veio envolta do medo, daqueles que impedem de olhar nos olhos de quem ama ao dizer adeus.

Na Europa, mesmo que permanecesse em hospitais na maioria do tempo, a garota passa a desfrutar de condições materiais incomparavelmente melhores do que as de sua aldeia em Bangui, capital da República Centro-Africana. Onde mais se pode comer peixe em qualquer época do ano e tomar banho quantas vezes quiser? No mesmo lugar que, ao mesmo tempo, parece não haver qualquer outro cidadão negro além do tradutor que viaja entre os continentes e leva notícias à Arlette.

Ainda sim, o “espírito incansável” da menina, como descreve uma das pessoas encarregadas pelo tratamento de sua saúde, abranda aos poucos os modos rígidos germânicos. Apesar das diferenças étnico-culturais, vínculos fortes se formam, especialmente entre a documentada e o documentarista, que ocasionalmente aparece em frente das câmeras confortando a garota.

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Das cento e cinquenta horas de material bruto filmado, o público conviveu com Arlette por menos de noventa minutos, tempo suficiente para deixá-lo com vontade de acompanhá-la além do que o documentário conseguiu reproduzir. A trilha sonora que marca o documentário é a seleção de músicas africanas que Arlette escuta com o fone de ouvido no mais alto volume e que a faz dançar eletricamente quando não há ninguém por perto. Outra marca da garota é a incrível destreza e sensibilidade com que maneja a câmera polaroid que ganhou da equipe e que ajuda a contar a história aos olhos de Arlette.

Após a sessão, o diretor explicou que o contato com a garota se tornou muito difícil após o final do tratamento e o consequente retorno para Bangui, mas ele sabe que Arlette está sobrevivendo ao conflito em seu país, pois, há poucos meses, recebeu um diploma da escola francesa local que comprova que a adolescente tem frequentado as aulas, seu maior sonho. A instituição se localiza à duas horas de caminhada da aldeia de Arlette, que precisa atravessar três fronteiras de milícias distintas para chegar na sala de aula e, ainda sim, só possui uma única falta no boletim. A coragem é mesmo um músculo.

por Larissa Lopes
larissaflopesjor@gmail.com

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