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40ª Mostra Internacional de SP: David Lynch: A Vida de um Artista
CINÉFILOS
30 out 2016 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

“Aproximando-se da escuridão profunda, ele se encontrou” é uma das inúmeras frases impactantes presentes no documentário David Lynch: A Vida de um Artista (David Lynch: The Art Life, 2016). No entanto, ela é particularmente sintomática no que se refere à vida e obra de Lynch, ambas repletas de obscuridades. Essa característica é cuidadosamente construída ao longo do filme, cuja proposta é evidenciar a relação do cineasta com a pintura – o cerne de sua produção artística como um todo.

O documentário é narrado pelo próprio David Lynch, que conta a sua história de forma densa e poética. Para além da simples narração de fatos, Lynch preenche o texto com impressões e bizarrices que já viveu, tecendo as influências que o formaram como pessoa e artista. O longa prende o espectador visual e mentalmente ao promover o diálogo entre o que está sendo narrado e as obras de arte exibidas. Mais do que uma estratégia para obter a atenção da sala de cinema, essa sincronia texto-imagem é um constante estímulo à imaginação de quem assiste ao documentário – ainda mais no caso de trabalhos tão enigmáticos quanto os de Lynch.
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Do início ao fim, são apresentadas inúmeras cenas do artista em seu belíssimo estúdio, todo de vidro, com vista para uma paisagem repleta de árvores. Ainda que assuntos sombrios e angustiantes sejam tratados durante toda a extensão do filme, essas imagens passam a impressão de que Lynch está em uma fase mais leve da vida. Essa não é a única das sutilezas do documentário: é possível perceber características do cineasta nos mínimos detalhes. Não foi necessário afirmar que Lynch tem o hábito de consumir açúcar enquanto trabalha, por exemplo; vez ou outra garrafas de Coca-Cola aparecem em segundo plano, junto ao material de seu ateliê. O mesmo vale para o constante uso de cigarros e a forma como esfrega os dedos uns nos outros – por mais que a vida pareça mais leve, fica claro que a complexidade do seu ser é indissociável do seu fazer artístico.
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Por outro lado, David Lynch: A Vida de um Artista pode decepcionar aqueles que buscam um filme que destrincha a vida do cineasta. Filmes famosos de sua trajetória como Veludo Azul (Blue Velvet, 1986) ou Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001) não são sequer citados. Ainda assim, sua introdução na cena cinematográfica não fica de fora: O Alfabeto (The Alphabet, 1968) e Eraserhead (Eraserhead, 1977) estão presentes nos relatos de Lynch. E até mesmo quando fala de cinema ele faz referência às artes plásticas: a sétima arte seria a oportunidade de dar movimento e som às suas pinturas, mesmo que estas já sejam bastante expressivas por si só.

É nessa perspectiva que está a sensibilidade do longa e a sua importância no legado biográfico de Lynch. Não é necessário falar diretamente de suas mais famosas produções para transmitir o que as influenciou. Seu apreço por texturas, por exemplo, é evidenciado quando fala sobre seu fascínio pela consistência da carcaça e do interior dos insetos. Com isso, já seria possível fazer um paralelo com uma cena no início de Veludo Azul, na qual vários insetos têm seus sons amplificados ao aparecerem em close no gramado, por exemplo.

Ao mesmo tempo em que é sutil ao permitir que relações menos óbvias entre autor e obra sejam feitas, David Lynch: A Vida de um Artista é instigante àqueles que não conhecem muito sobre o cineasta. Em meio a animações, obras enigmáticas, frases marcantes e cenas contemplativas de Lynch em seu estúdio, o espectador se vê preso a sua complexidade enquanto artista e personalidade. Quando finalmente se dá conta, a sala de cinema está por longos minutos imersa em temas surrealistas e densos – os quais perpassam qualquer referência.

Confira o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=BVgQ8yAdLbI

por Laila Mouallem
lailaelmouallem@gmail.com

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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