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40ª Mostra Internacional de SP: Depois da Tempestade
CINÉFILOS
26 out 2016 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

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“Como é que a minha vida foi virar esse inferno?”, anota Ryota (Hiroshi Abe) num post-it e pendura na parede de seu quarto. O escritor, que chegou a ser premiado pelo seu primeiro – e único – livro, leva uma vida que nunca imaginou viver, mas ao longo do filme percebe-se que o único responsável por isso foi ele mesmo.

Depois da Tempestade (Umi Yori Mo Mada Fukaku, 2016), a nova crônica familiar do consagrado diretor japonês Koreeda Hirokazu, aposta na sutileza da vida cotidiana para contar dramas que essa mesma vida cotidiana pode abarcar. Com tomadas simples, trilha sonora instrumental, cenas com longos diálogos e belas atuações, Koreeda entrega um filme que consegue marejar os olhos do espectador simplesmente pela aceitação dos inesperados caminhos da vida, como ela pode acabar não sendo o que você imagina e como você próprio contribui para que ela não seja. É a realidade sendo mostrada sem nenhum filtro cinematográfico que a torne melhor, mais agitada ou mais significativa.

Ryota trabalha como detetive particular sob o pretexto de estar fazendo uma pesquisa para o seu mais novo livro, que na verdade está parado – ou melhor, ele nem começou – há quinze anos. Separado, só podendo ver o filho Shingo (Yoshizawa Taiyo) uma vez ao mês, ele tenta tardiamente ser o pai presente que não foi quando era casado, mesmo nunca tendo o dinheiro da pensão. Ao mesmo tempo, precisa cuidar da mãe (Kirin Kiki, ÓTIMA), que a pouco ficou viúva com a morte de seu pai. Dividido e confuso, ele mesmo se assume como um fracasso, mas está se esforçando para mudar.

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Vendo assim, até parece que Ryota é o típico herói bonzinho que errou e se arrependeu, mas os personagens de Koreeda não são tão simples. O pouco dinheiro que ganha como detetive, ele gasta com corridas de cavalo e bilhetes de loteria, sempre com a certeza de que vai dobrar aquela grana – e porque “é o que o faz se sentir vivo” -, enquanto o aluguel e a pensão de seu filho ficam há meses pendentes. Ao fazer as visitas para a mãe, ele se aproveita para pegar alguma bugiganga velha de seu pai e tentar vender para conseguir dinheiro a mais – Ryota chega ao ponto de pegar o esconderijo de dinheiro de sua mãe, uma meia velha que fica em cima de um móvel, entretanto se depara com nenhum tostão e um aviso não muito amigável de alguém que já esperava que ele fosse fazer aquilo. Aparentemente, ele sempre foi muito preocupado com o filho e a ex-mulher, mas vemos seu jovem colega da agência de detetives (Sōsuke Ikematsu) lhe perguntando “Você os ama tanto assim? Antes do divórcio você não falava sobre eles”. Ryota perdeu a família, o pai, não está feliz no trabalho nem consegue avançar como escritor, mas isso não o motiva a mudar radicalmente de vida. Ele só vai aceitando o que vem e vai vivendo um dia após o outro.

Um interessante e significativo personagem do longa, mas que nem chega a aparecer presencialmente, é o pai de Ryota. Vemos sua mãe reclamando de seu antigo marido, chegando a afirmar que está muito melhor sem ele, e vemos também Ryota o negando completamente, dizendo que jamais seria igual ao pai. Porém, o que se observa ao longo do filme é que Ryota é um arquétipo do falecido – e que da mãe herdou só a feia caligrafia, como ela mesma diz – com todos os defeitos, fraquezas e fracassos inclusos. Nota-se no filme como Ryota repete com seu filho todas as brincadeiras e manias que seu pai fez com ele. Ele conta ao filho que não se dava bem com o pai porque decidiu ser escritor, mas logo acabamos descobrindo que seu pai deixou um exemplar do livro que Ryota escreveu em todas as bibliotecas perto de casa e até mesmo numa loja de antiguidades/raridades, afirmando que dali a uns anos valeria uma fortuna. O pai de Ryota tinha orgulho dele, eles nunca se deram bem porque eram completamente iguais. A grande diferença entre eles, foi que Ryota não teve tanta sorte com a esposa, enquanto sua mãe diz que aguentou muito para viver toda uma vida com aquele homem, sua ex-mulher, Kyoko (Yoko Maki), não fez o mesmo “Ryota-san não nasceu para ter uma família”, disse ela para sua ex-sogra, que concorda.

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Devido à “tempestade” do título (o 24º tufão que vai atingir a cidade naquele ano), o filho e a ex-mulher de Ryota acabam ilhados na casa de sua mãe, e ele tenta aproveitar aquele momento para unir sua família. Porém, os problemas são muito maiores e muito mais profundo para serem resolvidos numa noite, e Kyoko não cede, afirma que ela e seu filho vão seguir em frente. Koreeda nos entrega um filme que mescla melancolia e comédia cotidiana para provar que depois da tempestade só há um novo caminho se, antes dela, a mudança não se configurar somente em desejos e pensamentos, mas em ações.

Confira o trailer de Depois da Tempestade:

por Ingrid Luisa
ingridluisas@gmail.com

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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