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40ª Mostra Internacional de SP: Eu, Olga Hepnarová
CINÉFILOS
22 out 2016 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Até que ponto os paradigmas sociais podem impactar a vida de alguém? A resposta a essa pergunta é levada ao extremo em Eu, Olga Hepnarová ― filme da República Tcheca, Polônia e França, a ser exibido na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O longa é a ficcionalização da história real de Olga Hepnarová, a última mulher executada na República Socialista da Tchecoslováquia (CSSR), pela autoria de um assassinato em massa cometido em 10 de julho de 1973, em Praga. Com uma vida repleta de humilhações e maus tratos, Olga enxerga sua postura perante o mundo como um produto direto da sociedade que a oprimiu e rejeitou.

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Logo no início do longa o espectador se depara com um comportamento bastante sintomático de Olga. A menina, ainda morando com os pais, se recusa a ir à escola. Pouco depois, descobre-se que ela havia ingerido dez comprimidos de um remédio para “descobrir seu efeito”. Por mais que seja uma situação perigosa e estressante, Olga não expressa emoção alguma indiferença essa que é mantida por Michalina Olszanska com maestria durante quase todo o filme. “É preciso muita força de vontade para se suicidar, e você não tem. Trate de aceitar isso”, diz a mãe na volta do hospital. Essa é uma prévia da avalanche de humilhações às quais Olga foi exposta durante a infância e a adolescência.

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A personagem foi violentamente agredida pelo pai, chutada por meninas na escola e rejeitada por uma delas quando finalmente deixa fluir seus desejos. “Eu já fujo há muito tempo”, ela diz. No entanto, o filme não deixa explícito que a má relação com a família está relacionada a sua orientação sexual. Se estiver, o filme falha em não evidenciar o ponto a que a crueldade fruto da homofobia pode chegar. Ainda assim, Olga diz reconhecer que não faz parte de mais nenhuma minoria: ela é branca, fala tcheco e segue os padrões de beleza, de modo geral. A brutalidade gratuita com a qual foi tratada ao longo da vida é, assim, seu principal objeto de reflexão.

Quando Olga se muda da casa dos pais para uma cabana e adquire certa independência, ela se vê livre sexualmente, mas ainda presa em sua indiferença perante o mundo ao seu redor. Frases como “eu não entendo ninguém e ninguém me entende” e “eu não sinto nada por ninguém” são narradas enquanto Olga escreve uma carta. Porém, ao mesmo tempo, imagens passam na tela e fazem parecer que ela está narrando o filme em si – uma técnica interessante para ajudar o espectador a compreender a trama. Isso é intensificado em determinado momento quando Olga olha para a tela, como se falasse com a sociedade que lhe assiste, dizendo: “Um dia vocês vão pagar pelas minhas lágrimas”.

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Os diretores Tomás Weinreb e Petr Kazda acertaram ao fazer o longa em preto e branco, ideia essencial para transmitir a atmosfera densa e melancólica que é característica da história de Olga Hepnarová. O desenrolar da narrativa prende o espectador e choca com frases bem estruturadas e inteligentes proclamadas pela moça ― tanto antes quanto depois do assassinato que comete. A sua justificativa para seus atos é ainda mais impactante. Para ela, se suicidar manteria sua história no anonimato, enquanto cometer um homicídio em massa atentaria as pessoas a casos como o seu, evitando que eles se repetissem. Assim,  Eu, Olga Hepnarová é um filme pesado, mas que proporciona profundas reflexões acerca das estruturas sociais vigentes e suas consequências.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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