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40ª Mostra Internacional de SP: Invasão Zumbi
CINÉFILOS
27 out 2016 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Nas últimas décadas, o gênero zumbi vem ganhando terreno na televisão – The Walking Dead (2008-16) –, em paródias de comédia – Zumbilândia (Zombieland, 2009) e Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, 2004) –, em romances – Meu Namorado é um Zumbi (Warm Bodies, 2013) –, em franquias de ação – Resident Evil (Resident Evil, 2002-16) e Guerra Mundial Z (World War Z, 2013-17) – e no cinema trash – Zombeavers – Terror no Lago (Zombeavers, 2014). Assim, fica difícil encontrar novas obras que não sejam apenas colagens do já produzido antes. Alguns desses respiros ocasionalmente despontam fora de Hollywood, sendo muito mais criteriosos na composição de uma tensão genuína regada a psicologismo, como o britânico Extermínio (28 Days Later, 2002) e o espanhol [REC] ([REC], 2007). Seguindo essa linha, temos agora um exemplar da Coreia do Sul: Invasão Zumbi (Busanhaeng, 2016).

Tendo postergado diversas vezes uma viagem a Busan por conta do trabalho, Seok-Woo (Yoo Gong) finalmente decide acompanhar sua filha, Soo-an (Soo-an Kim), para uma visita à ex-mulher. O que nenhum deles esperava era por uma irrupção de bem-maquiados e retorcidos zumbis dentro do trem que os levaria à cidade.

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Gestor de fundos numa grande empresa, Seok-Woo quase não tem tempo para a filha. Logo no começo do filme, ele perde o recital e quase esquece o aniversário dela. Além de também não se dar ao trabalho de escolher o presente, pedindo uma sugestão a um de seus funcionários, ele ainda acaba comprando algo que ele já havia dado a ela numa outra ocasião. Yoo Gong ainda acentuará a arrogância de sua personagem através do olhar de desdém que dá a todos à sua volta e pelo porte altivo com que anda. Nas próprias palavras da filha, “você só se preocupa com você mesmo, por isso a mamãe foi embora”. Muito mais então do que apenas um filme de zumbis, a trama ganhará força e emotividade do despertar de amor de pai e filha, e pelo arco de redenção do primeiro.

Para isso, o filme acompanhará também os dramas de personagens periféricas que serão na verdade pedaços do próprio amor que o protagonista começará a nutrir. Temos então o amor fraternal de duas senhoras, o primeiro amor de um casal de jovens e o amor de pai e mãe pelo filho ainda na barriga. Mais do que a sobrevivência, o que os motiva a continuar é justamente o amor que cada um deles leva consigo; e, mais bonito ainda, o amor que se fortalece exatamente nas circunstâncias mais adversas. Uma cena muito comovente, por exemplo, é aquela em que um dos jovens não consegue golpear seus amigos infectados pela ligação afetiva que tem. Não à toa, as pessoas somente preocupadas em salvar a própria pele serão vistas como certas antagonistas no filme, como é o caso do próprio protagonista. Quando ele então começa a perceber o valor das relações, o contraste de caráter fará com que nos simpatizemos mais fortemente por ele.

Além dessa humanidade, a obra é também um eficaz exercício de ação e suspense. Em filmes de zumbi, é sempre interessante se atentar à composição do primeiro ataque, uma vez que ele ditará o tom de todas as demais cenas futuras. Aqui, a montagem alterna entre a ferocidade dos ataques nos últimos vagões, e a expectativa dos passageiros dos primeiros. Assim, enquanto muita violência e sangue escorrem de uma sequência, a seguinte conterá apenas gritos de fundo e pessoas passando com pressa pelos corredores. A partir dessa construção entreposta, ficamos muito mais apreensivos com o tamanho da coisa que estaria vindo. Junto a isso, o espaço apertado dentro dos vagões e a inércia das pessoas, assustadas com a situação, torna as cenas bastante claustrofóbicas.

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Uma vez superada, a cada novo ataque o roteiro se reinventará, permitindo que as personagens descubram novas fraquezas dos zumbis e utilizem estratégias nunca repetitivas, mas sempre bastante tensas em sua aplicação. E por mais que o final se estenda um pouco mais do que o necessário e algumas cenas sejam exageradas, com zumbis e mais zumbis se amontoando ou com um único personagem dando cabo de vários deles para morrer mais à frente de maneira tosca, o sentimentalismo que as envolve é verídico. Verídico porque as personagens despertam e são empáticas. Empáticas porque amam e são amadas. E amam porque estão vivas, diferentes daqueles, zumbis ou “pessoas”, que só conseguem se preocupar consigo mesmas.

Confira o trailer de Invasão Zumbi:

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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