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41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: As boas intenções
CINÉFILOS
26 out 2017 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Beatrice Segolini teve uma infância conturbada. Ela apresenta sua família por meio de um teatro infantil, onde seus irmãos são representados por bonecos de animais da fazenda e seus pais por dinossauros. É assim que se inicia o documentário italiano As boas intenções (The good intentions, 2016). Após sair de casa para estudar fora, Beatrice volta para sua cidade natal com o intuito de rever a família e tocar em assuntos delicados que marcaram profundamente sua infância e adolescência.

Enquanto estudava sociologia na cidade de Trento, Beatrice organizava workshops ensinando os cidadãos a filmar pequenos documentários sobre temas sociais. Em 2016, ela decide dirigir, em conjunto com Maximilian Schlehuber, o documentário sobre tema mais delicado de seu passado: a violência doméstica.

O filme de 85 minutos procura entender o ponto de vista tanto da mãe e dos irmãos quanto do já divorciado pai, o qual tinha episódios de violência frequentemente contra a família. Vídeos caseiros da infância e adolescência dos filhos alternam-se na tela com as situações vividas durante a estadia da diretora na cidade.

A forma como o tema é abordado tem capacidade de sensibilizar e mostrar o choque de gerações. Muito ouvimos sobre como as figuras paternas costumavam ser mais rígidas, inflexíveis e violentas dentro da família, em contraste com a atual crítica que se faz à postura violenta. O filme mostra muito bem esse aspecto quando são mostradas as declarações da mãe, a qual procura defender seu ex-marido afirmando que ele tinha seus motivos e que se sente incapaz de julga-lo. Tanto as falas dos filhos quanto a própria motivação de Beatrice para filmar o documentário, encarando a situação como um problema social, já mostram como a visão de uma geração mais nova é diferente, se recusando a aceitar tais atitudes e compreendendo os problemas psicológicos que elas poderão acarretar.

Apesar da gravidade do problema, em nenhum momento o pai é demonizado. Essa abordagem transmite veracidade ao documentário e mostra como a situação pode existir de maneira mais recorrente e ser considerada comum. Ao invés de torná-lo um vilão, é dada a oportunidade de conversa e defesa, onde ele explicita porque agia daquela forma, fato que é reforçado por um dos irmãos quando diz que haviam boas intenções em seus atos.

Outra reflexão trazida pelo filme trata de métodos educacionais. Aos poucos vem sendo quebrada a ideia de que cada pai deve educar seus filhos da maneira que lhe convém, sem estar de fato preocupado com o sofrimento ou com os impactos psicológicos que o método pode causar. O documentário explicita essas consequências e traz esse debate de forma muito natural.

Ao longo das conversas fica claro que esse é um assunto não superado pela família e de difícil abordagem. Na cena em que conversa com o pai, Beatrice mostra dificuldade em chegar no assunto, formular perguntas e conduzir a conversa, deixando transparecer que ela ainda não adquiriu a maturidade necessária para tocar nesse ponto. Por esse motivo, a cena com maior potencial deixou de ser mais aprofundada. Por outro lado, essa mesma cena mostra a vulnerabilidade da diretora, evidenciando que não há como planejar com detalhes um trabalho que tratará de um assunto tão pessoal e íntimo. Esse e outros momentos são os que trazem o aspecto realístico do filme e fazem valer a ida ao cinema.

Por Maria Clara Rossini
mariaclararossini@usp.br

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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