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41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Feio
CINÉFILOS
25 out 2017 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Quando se lê o título de Feio (Ugly, 2017), pode-se imaginar que o filme trata de algum assunto quanto à estética. O termo, na verdade, é utilizado quase como uma metonímia – apesar de tão associado à aspectos físicos, aqui não assume nenhum significado de beleza visual, podendo em vez disso ser lido como vergonhoso. Na beira do humilhante, o longa procura abordar as personagens em seus estágios mais degradados. O feio é aquilo que não é dito, que é escondido, que não se pensa: o Alzheimer, as expectativas que destroem os relacionamentos e a impossibilidade de amor intrafamiliar.

Em certa medida incômodo para quem assiste, o longa não diminui ou oculta a dor por trás desses problemas – aliás, essa é a força regente dos personagens. Contado em várias frentes, o filme versa inicialmente sobre o relacionamento de Hanna (Angela Gregovic) e Jura (Dmitriy Bogdan) após sofrerem um acidente de carro. Atrás do volante, Jura foi pouco atingido, mas o mesmo não acontece com Hanna, que se encontra hospitalizada na Ucrânia em graves condições. O desenrolar desse caso se dá a partir do desgaste causado em ambos pela dor de Hanna, da culpabilidade que aplicam em Jura e da expectativa de que ele cumpra o que lhe é esperado – cuide e dê amor incondicional à enferma.

A partir desse momento inicial em que o casal é apresentado, a história se ramifica para suas respectivas famílias. Da parte de Hanna, vemos uma família austríaca muito rica. A mãe, Martha (Maria Hofstätter), está nos primeiros estágios de Alzheimer. Sua condição é captada de forma muito sensível – em uma de suas primeiras cenas, sentimos a agonia da personagem ao tentar lembrar a sequência dos meses do ano -, de forma a comover o espectador.

A família de Jura, de condição financeira menor, tem conflitos existenciais que prejudicam a dinâmica interna. Numa conversa, Jura questiona a não existência de amor, tanto entre a família como em geral. A situação, que se torna até um pouco tóxica para eles, se expande e passam a contestar um grande valor social – o amor entre familiares. E se ele não existir?

Ironicamente, Feio é bonito – visualmente bonito e bem produzido. Além das captações em ângulos inteligentes, visando compreender a subjetividade de cada um dos personagens, e assim também nos tornando mais próximos dos seus sentimentos, o filme se destaca pela paleta de cores muito bem pensada. Um capricho que está longe de ser o maior mérito do longa, mas definitivamente um ponto alto – o cuidado com que tudo é posicionado em cena para que as cores coordenem entre si deve ser enfatizado.


Feio é uma cutucada, nos personagens e em nós mesmos. É um alerta, quase uma denúncia, como se ressoasse ao fundo uma ordem para pararmos com o escapismo. Além de muito bem produzido, visualmente satisfatório, e de ter roteiro coeso e inteligente, o filme é bem atuado. De fato, um dos destaques da 41ª Mostra Internacional de Cinema, que (com o perdão do trocadilho) não faz feio.

Por Giovanna Jarandilha
giovannajarandilha@gmail.com

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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