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41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Um judeu deve morrer
CINÉFILOS
25 out 2017 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Cena em que os colegas treinam tiro para cometer o assassinato. Foto: Divulgação

Tendo como plano de fundo o contexto da Segunda Guerra Mundial, Um judeu deve morrer (Un Juif Pour L’Exemple, 2016) é um representante suíço que participa da 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Retratando histórias desse período, o filme aposta em muitas cenas chocantes e é fiel ao mostrar o comportamento cruel de apoiadores do nazismo alemão.

O filme é uma adaptação do romance do escritor suíço Jacques Chessex, Un Juif pour l’exemple (2008). A história é baseada em acontecimentos durante a infância do autor e que marcaram sua vida. O cenário é a pacata cidade de Payerne, Suíça, no ano 1942. Um grupo de mecânicos de uma oficina, juntamente ao seu chefe, são devotos das ideologias de Adolf Hitler. Os homens sonham e aguardam ansiosamente que um dia o Führer tome o poder de seu país e assim, tenham ele como líder oficial.

Nessa completa obsessão, são vários os momentos em que glorificam o chefe de estado alemão com várias saudações “Heil Hitler”. Essa adoração, literalmente, é levada ao extremo em um momento específico do filme, em que todos se reúnem à noite ao redor de uma fogueira (como em um ritual, ou um culto) para ouvir atentamente um dos discursos de seu mestre. Por conta dessa devoção, o grupo começa a planejar um assassinato de um judeu qualquer para que, dessa forma, consigam agradar Hitler.

Como em um culto, grupo pró-nazismo reunido para ouvir discurso de Hitler. Foto: Divulgação

Assim como a temática do filme choca, suas cenas também não passam despercebidas nesse quesito. São muitos os momentos em que o filme provoca expressões de agonia no espectador. Corpos de animais sendo jogados em valas, humanos sendo tratados de forma grotesca e sanguinolenta. São tantos os choques expostos, que a cena em que personagens praticam BDSM (bondage, disciplina, dominação, submissão e sadomasoquismo) – uma prática que pode ser considerada desconfortável aos olhos de alguns – acabam tornando-se neutras. A organização das cenas foi feita para mostrar um contraste das cenas perturbadoras com outras de campos tranquilos e silenciosos.

Além da história do passado, o filme é interrompido diversas vezes por flashes do presente, com o autor Chessex dando entrevistas, e ouvindo inúmeras críticas sobre o seu trabalho e seu livro em questão. Em alguns momentos, essa mistura acaba causando confusão na linha do tempo, e até mesmo a extrapola, quando vemos o autor na sua velhice presente em uma cena do período de sua infância.

Autor Jacques Chessex, interpretado pelo ator André Wilms. Foto: Divulgação

Apesar da proposta interessante, Um judeu deve morrer peca por conta da monotonia de seus 73 minutos. O tom só é quebrado nos pequenos momentos, como cenas de ação, ou mesmo, as cenas que chocam. Vale ressaltar também a falta de aprofundamento nos personagens. Não fica muito claro o papel do autor como personagem na narrativa, aparecendo em raros momentos quando criança, e depois, quando já é idoso. Quanto aos personagens envolvidos no homicídio, estes são, no mínimo, superficiais. A motivação comum de todos é explícita e clara, mas apenas podemos vê-los como um grupo, sem individualidades.

Entretanto, nem tudo está perdido. O filme ganha um aspecto positivo em sua fotografia. Alguns enquadramentos e cenas ficam bem bonitos quando colocados em prática. O trabalho cenográfico dá um brilho – mesmo que opaco – à história, construído em cenas com tons cinzentos e frios, ou em nuances de verde em meio a natureza, quebrado apenas pelo escarlate vibrante do sangue fresco ao escorrer pela tela.

Aos fãs de filmes mais lineares, concisos e não tão complexos, o filme será tempo perdido. Mas para os que gostam de se aprofundar no tema das grandes guerras e para os entusiastas dos filmes de contexto histórico, Um judeu deve morrer é uma excelente escolha. É mais um na lista de filmes sobre a Segunda Guerra, porém, com uma outra ótica, voltada ao comportamento dos apoiadores do nazismo fora da Alemanha. Em todos os casos, vale a pena a oportunidade de permitir-se abismar com as poucas cenas que deixam o espectador boquiaberto.

por Gabriel Bastos
gabriel.bastos@usp.br

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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