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41ª Mostra Internacional de SP: 1945
CINÉFILOS
29 out 2017 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

1945. Um ano icônico para os desdobramentos dos efeitos causados pela Segunda Guerra Mundial. Em agosto, na Hungria, um vilarejo se prepara para o casamento de Arpad (Bence Tasnádi), filho do escrivão da cidade – István (Péter Rudolf), o antagonista e dono da farmácia, que exerce claro poder na região. Muito de sua influência se explica por um fator sensível às pessoas que o cercam: a posse de terras. As casas, garantidas por meio de uma escritura sem origem estabelecida, antes pertenciam aos judeus capturados pelo Holocausto.

À primeira vista, o conflito de 1945 (2017) parece nebuloso. Um pai e um filho desembarcam malas no terminal ferroviário, sob os olhares desconfiados dos fiscais e zombeteiros de soldados do exército russo, ocupantes do território húngaro  e não muito bem vindos por nacionalistas como István. Ao mesmo tempo, acompanhamos a tensão em torno do matrimônio que ocorreria no mesmo dia, para o qual nenhum dos personagens parece muito animado. A noiva, Kisrózsi (Dóra Sztarenki), ainda está engajada em um antigo relacionamento, com um homem que vai contra os ideais de soberania húngara por cooperar com a Rússia. Já Arpad, de personalidade flexível e condescendente, está apenas tendo  sua vontade sufocada pela figura autoritária do pai.

1945

Imagem: reprodução

Dessas tramas que transcorrem em paralelo e acabam por convergir, o foco na relação do vilarejo com a chegada dos judeus é a mais interessante, por abalar sua constância pacata. Mas não oferece substância narrativa que preencha um longa metragem, o que desmotiva o destaque à percepção de culpa daqueles que se omitiram diante da caça aos religiosos, questionamento que torna o mal mais amplo e cotidiano. O domínio fica por conta da trama novelesca entre o casal de namorados, com as personagens femininas principais, a mãe e a futura esposa do jovem, vilanizadas ou enfraquecidas.

O ineditismo do ponto de vista, abordando um cenário micro da Segunda Guerra, esbarra na superficialidade do roteiro, que não constrói empatia do público nem mesmo pelas partes vulneráveis. As imagens estarem em preto e branco também parece recurso meramente ilustrativo, sem efeito cinematográfico algum na reconstrução da época. Porém, se 1945  peca pela visão maniqueísta e os arquétipos simplórios, a olhares mais bondosos, a delicadeza é um de seus maiores méritos. A forma de indicar a chegada de judeus, por exemplo, não recorre a palavras. O medo pelos novos visitantes se demonstra até na opção por gestos, como se as palavras materializassem a ameaça.

1945

Imagem: reprodução

1945 não é um filme didático ao se referir ao Holocausto e, se o desenrolar dos enredos pessoais opta pelas obviedades, a sutileza da saga do pai e filho judeus, e o contraste de sua parceria com a hierarquia entre o pai e o filho húngaros, são indicativo de um ponto de vista que valoriza a união e fortalecimento dos judeus como povo e a importância de um propósito coletivo e comum: o de manter sua memória viva, sem precisar perpetuar os ideais de vingança para tal. O longa parece imprimir uma moral que valoriza uma desconexão entre a visão de mundo belicista ainda existente entre os húngaros, que continuam se  sentindo humilhados pelas resoluções da guerra, e a pacifista judaica, de certa forma afirmando uma superioridade do segundo grupo. As referências também podem ser captadas através da percepção particular do espectador sobre o filme e sobre a guerra.

Em sua conclusão, a união de húngaros e judeus na mesma câmara sobre trilhos, um trem, enquanto uma espessa fumaça preta marca a partida e a tela. Pode ser uma forte metáfora a olhos mais poéticos, de tempos em que um desses povos, na posição de oprimido, também deixava aquelas terras para conviver com a realidade dos gases mais tóxicos que o da chaminé ferroviária. Uma das surpresas narrativas dentro de um grande clichê.

Trailer:

 por Pietra Carvalho
pietra.carpin@hotmail.com

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