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41ª Mostra Internacional de SP: Human Flow
CINÉFILOS
28 out 2017 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Nos últimos tempos, a discussão sobre lugar de fala ascendeu na mídia e as pessoas começaram a ser questionadas se elas tinham direito de falar sobre algo que não pertencia à suas próprias vivências. Nas produções artísticas não foi diferente. É necessário que um artista tenha vivido para produzir sobre um tema? As respostas divergem. O fato é que discutir sobre o que vivemos e sentimos não é necessariamente mais fácil, mas torna a obra uma materialização do sensível. É muito mais real escrever sobre problemas familiares se você viveu isso. É muito mais real performar sobre preconceito racial se você passou por isso. É muito mais real falar sobre as pegadas apagadas de refugiados pelo mundo se você foi uma criança refugiada. Com a sensibilidade de quem carrega as memórias de um refugiado que o cineasta Ai Weiwei dirigiu o documentário escolhido para abrir a 41º Mostra de Internacional de Cinema, Human Flow – Não Existe Lar Se Não Há Para Onde Ir (2017). As experiências de Ai Weiwei e dos atuais migrantes nunca serão as mesmas, mas o diretor consegue estender a mão num gesto de identificação sentida com sua produção.

Em meados de 2016, o diretor enviou suas equipes na missão de percorrer 23 países e registrar a maior crise migratória que a humanidade já viu: neste mesmo ano, 65,6 milhões foram o número de refugiados em torno do globo. Ai Weiwei embarca junto nessa viagem de um ano num mergulho em suas realidades. Em coletiva de imprensa da abertura da Mostra, ele nos conta que seu trabalho resultou em 9 horas de material bruto, decupados num documentário de 140 minutos.

Human Flow constrói seu roteiro com dois discursos diferentes, somados ao confronto entre imagem e fala. Em caráter sociológico, a cada novo país que adentra, ele explica com dados oficiais a visão histórica e atual do conflito. Usando entrevistas com políticos, representantes da ACNUR, sociólogos e assim por diante, nos deparamos com as pessoas que controlam da situação. Por outro lado, o chinês dá espaço para que o refugiado fale sobre si mesmo. Também em coletiva, o diretor contou que as pessoas eram muito receptivas e gostavam de ser ouvidas.

Esses discursos entram em conflito. De um lado, um líder político fala sobre a importância de receber refugiados no país, e de outro vemos esses refugiados impedidos de circular devido a muros e deportações. Sem incitar nenhuma fala polêmica, Human Flow tece sua crítica. As cenas nos mostram muros sendo levantados, pessoas sem direitos essenciais à sobrevivência, caminhantes em um deserto inabitado. As falas e cenas não se encaixam, com um propósito simples: nem tudo que é dito oficialmente é real.

Nessa profusão de histórias e discursos é que Ai comete os poucos erros do longa: por possuir um ritmo pesado e sem acrescentar algo novo em seu discurso, depois do vigésimo país, a estratégia torna-se um pouco cansativa. Poderia ter minutos a menos que o roteiro não seria prejudicado.

Os drones fazem imagens espetaculares da Síria, Myanmar, Afeganistão, Iêmen, Sudão do Sul, Jordânia, México, Faixa de Gaza e 15 outras nações. Os quadros que vão do macroespaço para o micro são a representação visual dos discursos que possuem a fala no longa, uma visão geral e sociológica e os relatos pessoais dos refugiados. Além de tudo, geram belíssimas fotos. Mais cativante que as imagens de drone, as cenas em terra são poéticas. Sem usar cenas de corpos destroçados, mortos ou apelar para sentimentalismo, Ai Weiwei filma a tragédia e consegue extrair o belo da tristeza. Num tom melancólico e dolorido, a fotografia é muito, muito bonita. Nesses quadros que representam a catástrofe e a personificam, a distância física e cultural entre público e os protagonistas da produção desaparecem, sendo possível se conectar com eles.

Da graça exprimida da aflição, os elementos em quadro nos dizem mensagens ocultas. As repetidas panorâmicas de paisagens, focando em aves que voam sobre as cabeças dos emigrantes ao solo – mas que não possuem um vínculo nessa terra em que são apenas itinerantes num lugar desconhecido. O movimento circular – que surge em diversas imagens durante a projeção, como no tigre que anda incessantemente em círculos e nas crianças que correm em círculos no quarto – faz sutil referência à caminhada ininterrupta desses povos.

Pouco a pouco, o filme documental tece sua forte crítica quanto ao fenômeno migratório. Por mais que se fixe a momentos mais leves e humorados, ele não tem a pretensão de resolver a questão. Muito pelo contrário, desde o início seu tom é pessimista e termina nos deixando um gosto amargo na boca. A solução não é óbvia e os conflitos não acabarão de um dia para o outro. Em seus minutos finais, sentimos que ainda há muito para vir, e o que acabamos de ver é apenas uma fração do nosso globo.

 

 

Trailer com legendas em inglês:

por Larissa Santos
larissasantos.c@usp.br

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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