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41ª Mostra Internacional de SP: Niñato
CINÉFILOS
24 out 2017 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Dirigido pelo espanhol Adrían Orr, Niñato (2017) já conquistou o prêmio “Regard Neuf” no festival suíço Visions du Réel e o prêmio de Melhor Filme no Festival Internacional de Cine Independiente de Buenos Aires (BAFICI).

Inscrito no gênero documental, o longa promove a imersão do público em um cenário essencialmente doméstico. David – apelidado de Niñato pelo hip-hop – é um homem branco de 32 anos, desempregado e com três filhos pequenos para criar, Oro, Mia e Luna. Morando no apartamento em frente ao dos seus pais, ele tenta conjugar a paternidade com a produção musical. A sensibilidade do cotidiano familiar é cuidadosamente explorada, com a sobreposição das expressões faciais e gestuais sobre a linguagem falada.

O desenrolar da rotina matinal da família compreende as cenas mais extensas da obra. Despir-se dos pijamas para vestir trajes casuais revela-se como um verdadeiro desafio às crianças – o som dos bocejos, os semblantes de sonolência e a troca de roupas integram a exposição cuidadosa da intimidade das personagens. David estimula a autonomia dos filhos enfatizando com voz imperativa que o ato de vestir-se sozinho é uma responsabilidade pertinente a eles, caracterizando a família como um “time” com responsabilidades individuais e coletivas. O café da manhã traduz uma série de vínculos familiares, que vão desde o preparo do leite para as crianças, até Oro – o mais novo – cantarolando trechos das músicas do pai que estão tocando ao fundo.

David leva os filhos até a escola todos os dias e o caminho, percorrido a pé, é enriquecido por sons habituais, como o da chuva e o das rodinhas das mochilas sendo arrastadas no chão. O ambiente interno da escola não é explorado, o que parece extensão do foco majoritário da narrativa sobre o cotidiano doméstico das personagens. As crianças realizam as tarefas escolares com a ajuda do pai ou da avó. Dentre os pequeninos, Oro parece apresentar maior dificuldade com a habilidade da concentração.

Em determinada cena, Luna – filha mais velha, inteligente e de cabelos ruivos encaracolados – realiza o dever escolar na sala, junto a Oro e a avó das crianças. Sendo provocado pela menina, Oro – pequenino, de cabelos lisos e ruivos –, aparentemente indefeso e frágil, se enraivece e expressa indignação com o contexto. A avó, por sua vez, decide separar as crianças, colocando-as em cômodos distintos. Ao final do filme, encontramos os pequenos obtendo êxito com a realização das tarefas escolares, um em cada canto da casa. Nesse ponto, o longa, que valoriza sobretudo a união familiar,  parece expressar a relevância do singelo isolamento familiar em contextos específicos, como este no qual o afastamento das crianças acaba sendo positivo para ambas e instiga a realização autônoma das tarefas pelas mesmas.

A incorporação das letras e batidas de rap criadas por Niñato no cotidiano dos pequenos é um tema marcante, caracterizado pela espontaneidade. Eles tomam o café da manhã ao som de rap, Oro e Mia – filha do meio, de cabelos lisos pretos e a que mais demora em levantar da cama pela manhã – cantarolam juntos e, durante o banho, Oro entona com doçura as rimas do pai. Os vestígios da cultura underground são expressos também nas paredes da casa, preenchidas por ilustrações, rabiscos, cartazes com desenhos das crianças e tintas de cores diferentes. O espanhol, quase sempre com um cigarro em mãos, deixa traços de sua paixão pelo rap nos pequenos e parece sustentar o sonho aparentemente inviável de sobreviver da música.

Em nenhum momento são reveladas informações ou pistas sobre a mãe dos pequenos, o que não prejudica o desenvolvimento da obra. Da mesma forma, não ficam evidenciadas as possíveis relações entre as letras das músicas compostas por David e a sua vida pessoal.

Uma marca importante do longa é que Adrían Orr gravou a maior parte das cenas com a câmera em mãos, favorecendo o estreitamento da relação entre o espectador e a narrativa exibida. Nas ocasiões de diálogo, nota-se o predomínio do foco da fotografia em uma das personagens, com as reações da outra sendo deixadas em aberto e à disposição da capacidade imaginativa do público, como na cena em que David chama a atenção de Mia –  que insiste em permanecer dormindo enquanto as outras crianças trocam as vestes – e a câmera foca nas expressões gestuais do menino Oro.

Veja o trailer:

Por Camila Mazzotto
camila.mazzotto@usp.br

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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