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41ª Mostra Internacional de SP: O Incidente do Nile Hilton
CINÉFILOS
27 out 2017 | Por Jornalismo Júnior

Este filme faz parte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Um detetive sai do carro. Acende um cigarro. Entra no prédio mostrando sua credencial, e em um dos quartos, já isolado, encontra o corpo de uma mulher morta. Quantos filmes você conhece que começam exatamente assim? Muitos provavelmente. Mas, apesar de seguir a fórmula, O Incidente de Nile Hilton (The Nile Hilton Incident, 2017) de Talik Saleh, vencedor do Grande Prêmio do Júri em Sundance, conta com um cenário e contextos diferentes para fugir desse clichê.

Noredin (Fares Fares) é um policial que trabalha em uma delegacia no Cairo ao qual seu tio chefia. Na cidade, a corrupção está em todos os setores, e a polícia não fica de fora. No início da Primavera Árabe, ele começa a trabalhar no caso de uma famosa cantora que foi encontrada morta em um quarto do hotel de luxo Nile Hilton. E para piorar a única testemunha, a camareira Salwa (Mari Malek), desapareceu. Dessa forma, ele começa a investigar e perceber que pessoas de grande importância estão envolvidas nessa morte, desde grandes empresários até membros do alto escalão do governo.

O processo de Noredin descobrindo que o sistema em que se encontra é muito mais sujo do que ele pensava, lembra, de certa forma, o Capitão Nascimento em Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (2011). A diferença aqui, e talvez o ponto fraco do filme, é que os motivos do protagonista não estão claros. Enquanto o personagem de Wagner Moura só percebe e confronta o sistema quando adentra a ele, o policial egípcio já pertencia a esse sistema, não ficando claro desse modo, sua obsessão pelo caso. Afinal, se já era corrupto como o filme mostra, por quê brigar tanto pela verdade e ética logo nesse caso, que envolve grandes personalidades do governo e no qual o suborno seria maior? Essa é uma pergunta que flutua no filme sem ser respondida. Acostumados com os filmes de Hollywood, esperamos os já batidos motivos pessoais e/ou questões do passado para solucionar essa questão que, no entanto, não existem.

As atuações são todas sólidas, mas sem nenhum destaque especial. Fares Fares vai bem, e aproveita com propriedade seu tempo de tela assim como Mari Malek. Os coadjuvantes vão bem e seus personagens são interessantes e abordam outras questões como a política imigratória, porém tudo de forma muito rasa. Através dos eventos de janeiro de 2011, o diretor busca dar explicações para a revolta. Muito mais que o desejo de retirar um presidente autoritário do poder, o povo lutava contra todo um sistema, e isso fica muito claro no filme. Todas as esferas de poder são corruptas e ineficazes. De certa forma, Saleh mostra a terrível situação das instituições e do próprio povo egípcio que levaram àquele momento.

O roteiro bem conectado, ganha sustância por não dar nada de graça ao espectador. O crime e o caos na cidade, sempre conectados e não paralelos são o grande trunfo do longa, porque fora desse contexto de Primavera Árabe, o roteiro não se sustentaria sozinho, por se tornar comum e sem nada de especial. O humor é um ponto surpreendente do filme. Sempre sutil, e sem exageros, torna o filme muito inteligente tratando de questões sérias e interessantes com suavidade, além de servir como alívio ao drama. A fotografia em tons mais escuros, ganha força e uma beleza única nas cenas de protestos, momento em que a trilha sonora também se destaca.

Portanto, o longa ganha força quando é político, mas tem seus deslizes como suspense. No fim, ainda ocorre uma daquelas ironias ao estilo de Poderoso Chefão II (The Godfather: Part II, 1974). Da mesma forma que Fulgêncio Batista disse aos empresários de cassino, em Havana, que garantiria que os rebeldes não tivessem sucesso, no que viria a ser o início da Revolução Cubana, o tio de Noredin diz a ele que Mubarak (Presidente) colocará o exército na rua, e tudo voltará ao normal….

 

Assista ao trailer:

 

por André Romani
andreromani@usp.br

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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