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43ª Mostra Internacional de SP: O Desejo de Ana
CINÉFILOS
24 out 2019 | Por Edson Júnior (edsonjuniormcz@usp.br)

Este filme faz parte da 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto. 

Ana (Laura Agorreca) é uma mulher que tem uma vida comum com seu filho pequeno, Matteo (Ian García Monterrubio) num apartamento de classe média no México. Sua vida era calma e monótona, até que um conhecido de anos atrás, Juan (David Calderón León), vê o menino na porta da residência e acaba por reencontrar Ana. Ela deixa o homem passar uns dias na casa, o que permite uma relação mais intimista, tanto entre Juan e Ana quanto entre Juan e Matteo. A partir disso que se desenvolve a trama de O Desejo de Ana (El Deseo De Ana, 2019).

A narrativa se divide em algumas partes. Durante o início, ela é parada, sem muitos acontecimentos relevantes. Mas, mais para o final, o drama torna-se mais visível e até momentos de tensão com o espectador são estabelecidos. A chegada de Juan, que acontece ainda nos primeiros minutos do longa, é o único grande acontecimento em tela durante um longo tempo, e é só depois de muitas cenas e diálogos que o enredo ganha forma.

A trama se constrói com poucas personagens. No arco principal, são apenas três, contando com poucas agregadas ao longo do filme. Isso permite uma visão mais aproximada das relações sociais que se estabelecem. Juan, desde que se torna visitante da família, ensina “maus modos” para o garoto pequeno, como furtar doces ou comer chocolate indiscriminadamente, retratando uma clara dualidade entre a mãe certa, dos bons modos e o adulto errado e engraçado. Mesmo assim, Ana não pensa em retirá-lo de casa ou até mesmo brigar com ele.  

Definitivamente, o grande pilar e propósito do drama é a relação entre Ana e Juan. Essa construção se dá de uma forma inteligente, pois instiga diversas dúvidas. Não se sabe muito sobre o passado que eles tiveram, ou o que ele representa exatamente para a família, ou até porque ela se mostra tão amena em relação a ele. A narrativa dá essas respostas aos poucos e é justamente em seu fim, quando se esclarecem os questionamentos, que se exibem cenas mais instigantes. É um filme que exige paciência, pois tem um ritmo lento e parece, à primeira vista, que não há uma perspectiva definida do futuro dos acontecimentos.

Ana e Juan na moradia interiorana de Juan [Imagem: Reprodução/Divulgação]

Na questão visual, uma estratégia de câmera é muito utilizada: o foco é realizado em objetos ou locais específicos, sempre com a câmera parada. Assim, os atores realizam as ações com aquele objeto ou cenário estabelecido. Em algumas cenas, o local se inicia vazio, até que alguém entra nele. O foco central nas personagens, comumente utilizado, é renegado. É uma estratégia que funciona de forma articulada à proposta do filme. Além disso, destacam-se os cenários. Fora o apartamento de Ana, também há momentos num campo, moradia de Juan. O cenário é visualmente bonito no campo e há a representação da diferença do modo de vida nos dois locais.

O Desejo de Ana demora para ganhar forma, mas as dúvidas sobre o passado e o futuro das personagens podem se apresentar como o chamativo do filme. Além das situações citadas, uma tensa relação amorosa se desenvolve entre Ana e Juan, na qual há indícios de que os dois se desejam, mas não há concretude em suas ações. É uma espécie de amor renegado ou proibido. Assim, a trama não apresenta aspectos técnicos ou visuais muito relevantes, mas o desenvolver psicológico e narrativo do enredo são recursos que podem garantir uma experiência inovadora para o espectador.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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