Home Festivais 44ª Mostra Internacional de SP: ‘Bem-vindo à Chechênia’
44ª Mostra Internacional de SP: ‘Bem-vindo à Chechênia’
CINÉFILOS
19 out 2020 | Por Thiago Gelli (thiago.gelli@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto. 

 

Em maio de 2017, diversos portais jornalísticos reportaram a execução de um adolescente checheno e homossexual por seu tio, jogado de uma varanda para “purificar a vergonha” da família. O menino, sem nome e sem rosto, definido apenas pela idade e pela morte, gerou uma revolta internacional. Ele não era, afinal, o primeiro. Tampouco seria o último. Um mês antes, as autoridades da nação haviam sido denunciadas por capturar cem homens gays em um campo de concentração para tortura

Anunciava-se, contrariamente aos interesses do líder da república, Ramzan Kadyrov, a perseguição e genocídio contra a comunidade LGBT+ no país. Rapidamente, uma petição com dois milhões de assinaturas foi feita, exigindo resposta da procuradoria russa. O abaixo-assinado, no entanto, nunca chegou ao escritório das autoridades, já que a polícia deteve seus organizadores com base em protesto não autorizado. 

Com o tempo, a reação esfriou, ao passo que novas tragédias surgiam, mas a caça não. Três anos depois, o diretor David France, de A Morte e Vida de Marsha P. Johnson (The Death and Life of Marsha P. Johnson, 2017), estreia seu documentário sobre o tópico e desafia a paralisia induzida de seus espectadores. 

Bem-vindo à Chechênia (Welcome to Chechnya, 2020), produção da HBO Documentary Films, é doloroso, agressivo e explícito. Com a junção de seu material original e gravações obtidas por ativistas, o longa despedaça quem o assiste. Os 107 minutos que ocupa parecem muito mais, assim como as rápidas gravações de ataques parecem se estender por horas, e não segundos. 

Não há, de qualquer modo, um jeito leve e rápido para a empreitada de transmitir tal carga emocional para a tela. Enquanto o filme pode ser sensível demais para aqueles cujas experiências atingem similaridade às descritas, é um choque essencial para os capazes de enfrentá-lo. A latente brutalidade exposta agride a audiência, que é desolada e provocada para além da mera duração.

  

“Anya” (pseudônimo) é uma jovem lésbica forçada a fugir de casa para escapar do pai, que a assassinaria, e do tio, que a estupraria. [Imagem: Reprodução/HBO Films]

“Anya” (pseudônimo) é uma jovem lésbica forçada a fugir de casa para escapar do pai, que a assassinaria, e do tio, que a estupraria. [Imagem: Reprodução/HBO Films]

O longa é permeado por uma clara desesperança. A vida real não tem sentido narrativo e o clímax está longe de acontecer. Não há quem seja retaliado no final, assim como não há celebração. Paradoxalmente, no entanto, em sua imponente dor, Bem-vindo à Chechênia compõe um cenário que implora pela esperança e ação, que grita de dor tanto quanto de luta. 

Sobretudo, em seu trunfo tecnológico, o filme aponta para novas potencialidades cinematográficas em conjunção com a ação política e o retrato de histórias ameaçadas. As faces dos refugiados chechenos são cobertas por dublês de rosto digitalmente colocados, assim como as vozes, que são dubladas. 

Longe de ter um grande orçamento, o documentário não faz com que a troca digital passe despercebida, mas o desconforto de um rosto coberto, aliado ao semblante emocional das expressões que ainda são transmitidas, tem seu próprio efeito. Por conta disso, a transição entre anonimato e figura pública de Maxim Lapunov, central ao longa e primeiro a denunciar à mídia e ao Estado russo o sequestro e tortura sofridos no país, se torna muito mais fascinante.

 

David Isteev, coordenador de resposta a crises da Rede Russa LGBT. Cena do filme Bem-vindo à Chechênia. [Imagem: Reprodução/HBO Films]

David Isteev, coordenador de resposta a crises da Rede Russa LGBT. [Imagem: Reprodução/HBO Films]

O documentário é um longa de franqueza e voracidade ímpar, em recusa a eufemismos e falsas construções. Na representação do conflito entre amores inabaláveis e desumanidade, encontra a resiliência que perpassa por todos envolvidos na experiência de assistir-lhe. A última fala dita no filme é “se não te matam já é uma vitória”, mas cada um dos ativistas e sobreviventes em tela indicam querer muito mais. 

Esse desejo, afinal, é extremamente importante em face do precedente aberto pela impunidade chechena. O “expurgo gay”, como é chamado, é apoiado por Vladimir Putin, assim como pela complacência de Donald Trump (que nunca aceitou qualquer refugiado checheno LGBT+), enquanto Kadyrov nega sequer a existência de qualquer pessoa homossexual em seu país. 

Bem-vindo à Chechênia é um bom susto para aqueles que ignoram satisfeitos a opressão sistêmica às populações LGBT+ pelo mundo, ou para aqueles facilmente persuadidos pela própria noção de liberdade. Em um mundo globalizado, é crucial lembrar que são também compartilhadas as dores, mesmo que fronteiras tentem tanto ocultá-las. 

Os rostos não vistos, nomes não ditos e vozes não ouvidas expressam isso agonizantemente bem, em uma demonstração de coragem que aterrorizaria, em troca, quem os considera sub-humanos.  

Confira o trailer

 

*Imagem de capa: Reprodução/HBO Films

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*