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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Exílio’
CINÉFILOS
02 dez 2020 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

A xenofobia é sempre visível, direta, agressiva? Ou ela também é uma violação psicológica?  

Segundo filme do diretor kosovar Visar Morina, Exílio (Exil, 2020) é um suspense com pitadas de thriller psicológico sobre os conflitos e horrores de ser sempre considerado e, mais ainda, considerar-se como estrangeiro. 

O engenheiro químico kosovar Xhafer Kryeziu (Mišel Matičević) vive na Alemanha e trabalha para uma indústria farmacêutica. Casado com Nora (Sandra Hüller) e pai de três filhos pequenos, após o surgimento de um rato morto amarrado no portão de sua casa o homem se vê no centro de uma série de estranhas ocorrências em seu ambiente de trabalho que começam a afetar todas as estruturas de sua vida.

O longa é sufocante. Ele brinca com as dimensões da realidade e da paranoia de modo ao espectador se questionar sobre a veracidade do que testemunha. Há um compasso agressivo, realizado de forma muito especial pela sonoplastia, responsável pela contínua sensação de estar no limite por meio da repetição de sons agudos, como de alarmes e relógios. 

Xhafer sente-se isolado. Incompreendido pela mulher, maltratado por colegas de trabalho, o filme apresenta a solitária jornada de um homem que sente que toda uma nação o rejeita. O que no começo é uma passivo-agressividade que esconde a ameaça do animal morto toma proporções desmedidas, sendo a deterioração psicológica do protagonista a mais catastrófica evidência do poder da coerção social.

 

Na imagem, Xhafer (Mišel Matičević), personagem de Exílio, em frente a sua casa no subúrbio. [Imagem: Divulgação/Komplizen Film] 

Na imagem, Xhafer (Mišel Matičević) em frente a sua casa no subúrbio. [Imagem: Divulgação/Komplizen Film]

Entre corredores de escritório movimentados e elevadores em máxima capacidade, a claustrofobia do ambiente de trabalho nocivo é projetada. E, na vida a dois, o silêncio que denuncia a insatisfação e a desconfiança entre o engenheiro e sua esposa reforçam o distanciamento dele para qualquer outra figura relevante da trama. 

Exílio denota um importante fenômeno, por vezes invisível e impensado para espectadores brasileiros: o racismo intra-europeu. Residente em um dos países mais ricos do oeste europeu e de toda a Europa, Xhafer é ridicularizado até mesmo por seu próprio nome pelos seus conterrâneos. Ele reafirma verbalmente em uma colocação a sensação de menosprezo, excludência e condescendência com que a sociedade alemã o trata. A co-produção kosovar, alemã e belga possui uma relevante mensagem a ser veiculada sobre essa forma de racismo.

Todavia, essa mensagem não é simplista. Xhafer não é meramente uma vítima dos acontecimentos. A paranoia acentua progressivamente suas tendências ao egocentrismo, à crueldade, ao revanchismo. Sem sequer considerar um tratamento psicológico, ele permite que tais impulsos o guiem em um processo de aparentemente proteção individual que é, em verdade, autodestruição.   

 

Nora (Sandra Hüller), esposa de Xhafer. [Imagem: Divulgação/Komplizen Film]

Nora (Sandra Hüller), esposa de Xhafer. [Imagem: Divulgação/Komplizen Film]

Exílio é uma interessante e carregada produção que tem a solitária resistência de uma personalidade sobrevivente como centro. Xhafer é problemático e, em uma construção tanto de causa quanto consequência, os ambientes em que ele vive também o são. A obra se configura como um bom filme capaz de cumprir seus objetivos, ao não poupar a audiência de sua tensão aguda e mostrar até que patamar a xenofobia pode levar um indivíduo comum.    

 

Confira o trailer

 

*Imagem de capa: Divulgação/Komplizen Film

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