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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Isso Não É um Enterro, É uma Ressurreição’
CINÉFILOS
23 nov 2020 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

“Em Nasaretha, dizem: se colocar o ouvido no chão, ainda consegue-se ouvir os gritos e sussurros dos que morreram na enchente”.

Mantoa (Mary Twala Mhlongo) é uma mulher idosa habitante da vila de Nasaretha, em Lesoto. Viúva, sem netos, seu único familiar é um filho que trabalha nas minas sul-africanas e retorna a casa em Dezembro, na época do Natal. Nesse período, enquanto anseia pelo seu retorno, Mantoa descobre que seu filho faleceu. Desolada e sem qualquer perspectiva de vida, a senhora começa a planejar seu próprio fim.

Um ritual funerário à seu filho é organizado, com elementos sincréticos entre a religiosidade local e o catolicismo. Mantoa, em visita ao cemitério, descobre que as autoridades regionais planejam construir uma barragem e inundar a região de sua vila e realocar seus habitantes. Os mortos também poderão ser desenterrados e realocados, conforme a vontade de seus familiares. Indignada, a senhora cria um ato de resistência ao autoproclamado “progresso” em favor de manter seu direito sobre a terra intacto.

Lemohang Jeremiah Mosese, diretor e roteirista da obra, é lesotiano e atualmente reside em Berlim. Para ele, o filme é uma obra sobre resiliência e coragem. Tanto a protagonista Mantoa quanto Mary Twala, a atriz octogenária que a interpreta e infelizmente faleceu em julho deste ano, são exemplos de encorajamento para contextos globais tão complexos e desafiadores da atualidade.

Acima, a atriz sul-africana Mary Twala Mhlongo, falecida em 9 de julho deste ano, interpreta Mantoa. [Imagem: Reprodução/Memento Films]

Lesoto, antiga Basutolândia, é um país do sul do continente africano. Próximo a metade do século 19, Eugène Casalis e Thomas Arbousset, missionários católicos franceses, realizaram as missões protestantes de catequização do povo Sotho, também chamados de Basutos. Eles representam uma maioria étnica expressiva da nação até os dias atuais, um total de 99,7% dos habitantes.

País montanhês, todo o território é localizado acima dos mil metros de altitude e, durante o inverno, há ocorrência de neve em várias regiões. O Estado também é completamente cercado pela África do Sul, país de muita relevância econômica para Lesoto, uma vez que uma grande parcela de sua população vive da extração de minérios em minas sul-africanas.

A terra é um bem sagrado. É geracional, é identitário, é parte constituinte de um povo. E essa é a defesa de Mantoa. Sem familiares vivos, tudo que sobrou a ela é a terra em que seus pais, seu marido, seus filhos e seus netos se encontram.

[Imagem: Reprodução/Memento Films]

O longa chama atenção em sua fotografia, feita por Pierre De Villiers, tanto pela qualidade e beleza dos cenários quanto por seu modelo incomum baseado em uma exibição 3×4. A sonoplastia define a ambientação do filme e se utiliza de longos momentos de silêncio quebrado muitas vezes por sonoridades tradicionais como cantigas e instrumentos próprios da região. Ambas passam, por diversas vezes, uma lentidão e a sensação de estarem compassadas, mas criam um retrato fiel da manifestação cultural do povo Sotho.

Isso Não É um Enterro, É uma Ressurreição (This Is Not a Burial, It’s a Resurrection, 2019) é uma marcante viagem pela cultura de Lesoto e os impactos da colonização e das progressivas transformações modernas. Uma perda de suas próprias características se achega lentamente à comunidade de forma estável. Com cenas capazes de arrepiar o espectador, em especial quando toda a comunidade se expressa em uníssono, é único testemunhar a lenda, a luta de Mantoa por manter a tradição e o espaço do que sobrou em sua vida.

Um dos momentos mais emblemáticos e simbólicos do longa é um monólogo proferido pelo padre da comunidade. Nele, ele conta a história da criação da igreja presente na vila, e como o povo deu aos ferreiros o ferro de suas lanças para que se forjasse um sino para a construção. A paradoxal Gênesis construtiva e destrutiva de um novo modelo de sociedade para a época, que se repete no presente. “Cada badalada do sino abria caminho para o novo: um novo Deus, um modo de vida novo. A cada badalada do sino, algo antigo era logo esquecido”.

Confira o trailer, com legendas em inglês:

*Capa: [Imagem: Divulgação/Memento Films]

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