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44ª Mostra Internacional de SP: Jantar na América
CINÉFILOS
20 dez 2020 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

Ah, os clichês adolescentes…

Jantar na América (Dinner In America, 2020) é a história de um casal composto por um punk encrenqueiro e uma esquisita ingênua. Enquanto se esconde da polícia, Simon (Kyle Gallner) esbarra em Patty (Emily Skeggs) que o ajuda e o refugia em sua casa. O que a jovem não sabe é que ele é o vocalista misterioso da PSYOPS, sua banda favorita.

Ambientado no meio-oeste dos Estados Unidos, existe uma prevalência do típico e decadente cenário suburbano do país, com casas grandes e altas cercadas por jardins verdes. Esse cenário é excelentemente construído pela fotografia acinzentada e, somado à grande atuação tanto dos protagonistas quanto de coadjuvantes, permite a construção da realidade de modo profundo e significativo.

O longa possui uma narrativa clássica e, portanto, seria simples esperar dele uma repetição inautêntica de romances generalizados. E, com essa inferência, errar bruscamente.

Na imagem, Patty e Simon . [Imagem: Divulgação/Red Hour Films]

Em meio a suas críticas à sociedade estadunidense, famílias tradicionais mal estruturadas e hipocrisias generalizadas, há na obra uma autenticidade latente que permite uma identificação ou, ao menos, uma admiração da honestidade presente em seu conteúdo. Escrito, dirigido e editado por Adam Carter Rehmeier, essa comédia romântica de humor ácido com um aspecto de coming of age é um prato cheio para qualquer misfit, ou seja, desajustado social.

Mesmo não tendo representatividades raciais ou LGBTQ+, uma excentricidade negativa para um longa sobre jovens adultos na contemporaneidade, e sendo extremamente imerso no modelo social estadunidense, ele ainda é sensível e perspicaz o suficiente em abordagem para desempenhar uma função social clara enquanto crítica desse modelo 𑁋 para além do “Foda-se os EUA” proferido por Simon.

Foda-se talvez seja a palavra mais dita em todo o longa. O ódio exacerbado do protagonista é peça essencial dentro da asquerosidade underground do longa. Conforme se aproximam, a menosprezada e apática Patty passa a desenvolver mais suas características, enquanto Simon se torna mais emotivo e romântico.

[Imagem: Divulgação/Red Hour Films]

O exagerado, over the top, se faz presente em vários momentos, mas o filme poderia ser mais punk. Porém, ainda é o suficiente para seguir sua pretensão inicial e cativar a audiência. Entre incêndios culposos, humilhações e venda de drogas, também se tem primeiros encontros, músicas românticas autorais e uma lealdade indiscutível de um casal contra o mundo.

No contexto em que a proteção advinda da instituição família não protege, mas apenas serve como manutenção do status quo, a frustração tece a sinceridade de personagens tão caucasianas e tão privilegiadas. E é do punk rock da banda de Simon que a conexão entre ele e Patty se dá e, assim, a música é relevante para a trama como um todo.

Jantar na América é um filme que incute, que impele uma vontade de apaixonar-se perdidamente e cuspir em todo o resto do mundo. Arranjar uma única pessoa de confiança e, juntos, serem muito punks contra um tradicionalismo tão sombriamente indiferente e excludente.

E é a energia do “fodam-se os outros, fodam-se todos, menos a gente” que demonstra tão claramente como o romântico e o punk são inerentemente interligados.

*Capa: [Imagem: Divulgação/Red Hour Films]

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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