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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Limiar’
CINÉFILOS
23 out 2020 | Por Sarah Lídice (sarahlidice@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto. 

Limiar (Threshold, 2020), produção armênia dos diretores Rouzbeh Akhbari e Félix Kalmenson, começa e termina da mesma forma: uma imensidão enevoada ornamentada ao som de “Ave Maria”, representativa do contraste entre o passado secular e o presente. Essa é a aparente proposta poética do filme, mergulhar no território armênio em busca de uma “janela do universo” para retratar estas duas realidades contrastantes e coexistentes. Poderia ser interessante, mas ela se esvai rapidamente aos olhares do espectador.

A trama é um misto de experimentação documental —  em que é possível até ver o reflexo dos próprios realizadores em uma das cenas — com ficção. Apresenta-se, inclusive, como uma metalinguagem do próprio ato de fazer cinema. Os espectadores acompanham as andanças de um cineasta armênio, cujo nome não é apresentado, em busca de um local para suas próximas filmagens. 

Nessa procura, ele e sua mala vermelha rodam vários quilômetros nas estradas armênias. Talvez a obra se destaque pelos belos planos que mostram as ruínas e as estruturas arquiteturas milenares de um país marcado pelo cristianismo.

 

[Imagem: Divulgação/Pejvak]

[Imagem: Divulgação/Pejvak]

O problema é a repetição incessante dessa dinâmica. São muitas e muitas paisagens mostradas, que ultrapassam os limites da Armênia e vão também para Turquia, em um processo de reconstrução da história local em busca de inspirações. Só que o média-metragem — com duração de 64 minutos — parece se limitar a mostrar esses espaços. 

Para o espectador, o sentimento de incômodo e cansaço ao acompanhar a jornada solitária do cineasta em meio ao horizonte coberto pela neve ou pelas colinas rochosas e vazias — com músicas ecumênicas de fundo — lembra a experiência enclausurante de Melancolia (2001), do diretor dinamarquês Lars Von Trier. Talvez fosse justamente esse o sentimento almejado pelos diretores.

O personagem principal, apático, na maioria das vezes, e rabugento em outras, não é muito desenvolvido. Tampouco parece interessado em fazer seu filme rodar. Na única cena em que efetivamente aparenta estar filmando algo, ele simplesmente larga a câmera de maneira desinteressada e sai a procura de alguma coisa. Se ele não tem interesse em filmar, qual o sentido de tanta procura? 

 

Os planos bem articulados e variados são um dos poucos destaques de Limiar. [Imagem: Reprodução/Pejvak]

Os planos bem articulados e variados são um dos poucos destaques de Limiar. [Imagem: Reprodução/Pejvak]

As cenas mais interessantes da produção vem nos poucos diálogos representados. As vozes das pessoas aparecem em off e, aos poucos, vão tomando rostos. Elas mostram sutilmente alguns detalhes da complexidade geográfica do local e o não entendimento das culturas estrangeiras, como o namaz (tipo de oração) dos turcos.

Se o espectador pensa que seriam ali, nesses diálogos, o encontro da “janela da alma” que o cineasta tanto busca encontrar, ele se engana. De forma esparsa, isso vai se misturando a mais e mais paisagens e Limiar chega ao fim de maneira surpreendentemente incompreensível. De novo, com a atmosfera clara, enevoada, da maneira como começou. Sempre vago.

Confira o trailer: https://www.felixkalmenson.com/threshold


*Imagem de capa: Divulgação/Pejvak

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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