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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Mamãe, mamãe, mamãe’
CINÉFILOS
22 out 2020 | Por Maria Luísa Bassan (marialuisaobassan@gmail.com)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

Amadurecer é um processo doloroso. Para uma mulher, é possível senti-lo fisicamente na primeira menstruação e nas mudanças do corpo. Porém, como lidar com aquelas pequenas situações para as quais não te preparam, mas que te transformam para sempre? Como expressar aquilo que se sente, porém sutil e inesperado demais para se dar um nome?

Mamãe, Mamãe, Mamãe (Mamá, Mamá, Mamá, 2020) traz o amadurecimento de Cleo (Agustina Milstein) após um acidente na família: sua irmãzinha Erín (Florencia González Rodríguez) se afogara na piscina de casa. Diante disso, sua tia (Vera Fogwill) e primas passam a morar na casa juntamente com Cleo e a mãe (Jennifer Moule), de forma a não deixá-las sozinhas com a dor da perda.

Cleo tem 12 anos e o mundo lhe parece grande demais. Sua rotina é colorida por brincadeiras, conversas sobre o mundo e a alegria dos pequenos detalhes. Com a perda da irmã, o que se tem são lembranças e a insegurança. Por que Erín teve que partir? Como alguém lida com a perda? Será que é possível continuar a ser criança depois de um evento transformador – e silencioso – como esse?

A memória é apresentada através de flashes e conversas gravadas entre as irmãs, materializadas na tela como se fossem filmes antigos, de película envelhecida amarela e azulada. Alternado às lembranças, está o presente fragmentado. Não se tem noção de quanto tempo se passa entre uma cena e outra. A delicadeza da montagem traduz o sentimento de não ter mais alguém querido ao seu lado – alguns dias são fáceis, já outros parecem se arrastar.

Enquanto a mãe é cuidada pela tia, Cleo tem a companhia de suas primas Nerina (Chloé Cherchyk), Manuela (Camila Zolezzi) e Leoncia (Matilde Creimer Chiabrando). Ao longo do filme, cada uma se aproxima de Cleo à sua maneira, seja com uma brincadeira, uma conversa ou um momento em silêncio. Nenhuma delas fala sobre Erín, mas juntas, tornam o peso do luto um pouco mais leve entre elas.

 

Em Cena de "Mamãe, Mamãe, Mamãe", que faz parte da 44ª Mostra de Cinema de SP, as meninas Cleo, Nerina, Leoncia e Manuela, respectivamente, em pé, observando pela janela. [Imagem: Rebeca Rossato Siqueira/Rita Cine & Bomba Cine]

As meninas Cleo, Nerina, Leoncia e Manuela, respectivamente [Imagem: Rebeca Rossato Siqueira/Rita Cine & Bomba Cine]

O ponto mais marcante do filme é a sua forma de mostrar a força e importância de uma rede de apoio entre meninas e mulheres. Enquanto a mãe lida com a culpa de não ter conseguido fazer algo para salvar a filha, Cleo tem suas dúvidas sobre momentos comuns do amadurecimento feminino, como o primeiro beijo e a primeira menstruação, e as compartilha com as primas. Tais momentos são apresentados de forma leve e natural. O foco é não definir Cleo por essas experiências, mas mostrar como elas são muito pequenas se comparadas ao que a garota está vivendo sozinha e com as primas.

Além disso, tal irmandade está presente atrás das câmeras. Para o desenvolvimento do filme, a diretora Sol Berruezo Pichon-Rivière teve uma equipe feita somente de mulheres. Esse cuidado transparece não só no resultado técnico da obra, mas também na relação entre as atrizes, que aparentam ser amigas desde sempre.

Mamãe, Mamãe, Mamãe mostra como o luto pode apresentar uma nova maneira de entender e celebrar a vida. Quando se é mulher e se tem uma rede de apoio feminina, nenhum fardo é tão grande que não possa ser superado, e nenhum sonho é tão pequeno que não possa ser realizado. Desde que tenhamos umas às outras, tudo ficará bem no final.

 

Assista ao trailer:

 

*Imagem de capa: Rebeca Rossato Siqueira/Rita Cine & Bomba Cine

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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