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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Miss Marx’
CINÉFILOS
27 out 2020 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

Tussy, apelido dado a Eleanor Marx (Romola Garai), é a filha caçula do pensador socialista que desenvolveu a teoria marxista. No filme Miss Marx (2020), vemos a sua trajetória desde 1883, com a morte de seu pai, até 1898, com sua própria morte. 

Sua figura vai muito além de uma mera extensão de seu pai. Claro, assim como Karl, Eleanor também era uma socialista marxista, mas utilizava sua ideologia para causas sociais, como a luta por melhores condições de trabalho em fábricas e pelos direitos das mulheres.

O que chama atenção logo no início, ao apresentar os créditos, é a trilha sonora: algo que lembra um punk rock da década de 80, dando a impressão de que se tratará de uma comédia romântica adolescente. Há outras cenas com músicas assim. Embora sejam anacrônicas, funcionam bem ao tornar o longa mais dinâmico e próximo da nossa realidade. Também é possível escutar obras de Paganini e Chopin, que se encaixam melhor não só ao contexto histórico, mas às cenas.

Já na abertura do filme, que retrata o enterro de Karl Marx (Philip Gröning), é possível ver o predomínio de figuras masculinas, sendo Eleanor uma das poucas mulheres. Por pertencer ao partido socialista, predominado por homens, o círculo social da protagonista é, de fato, escasso de mulheres, o que talvez seja um dos motivos para que ela percebesse a importância da luta pelos direitos femininos.

No enterro de seu pai, Eleanor conhece Edward Aveling (Patrick Kennedy), que se torna seu parceiro durante 15 anos. O início da relação parece um sonho para a protagonista. Com o passar dos anos, o relacionamento se torna  (cada vez mais) abusivo, mas, presa moral e emocionalmente ao amante, a protagonista não consegue se desvincular. Apesar de ter sido a ruína de Eleanor, Edward, como socialista, esteve ao seu lado em suas lutas.

Ao lutar pelos direitos das minorias, Eleanor conversa com trabalhadores para entender suas condições e demandas. Em uma dessas visitas ocorre a “quebra da quarta parede”: a ativista olha diretamente para quem está assistindo ao longa para explicar o motivo da injustiça e o que deve ser feito para combatê-la. Esse momento traz grande intimidade com o público, que se prende mais ao resto da narrativa.

 

Momento de quebra da quarta parede em Miss Marx. Eleanor olha direto para a câmera. [Imagem: Divulgação/Vivo Film]

Momento de quebra da quarta parede. [Imagem: Divulgação/Vivo Film]

Miss Marx apresenta uma fotografia interessante, com bom enquadramento e boa iluminação, paisagens bonitas e locais adequados para encenar as ações. Mas o que mais chama a atenção é como a equipe de fotografia consegue captar o rosto de Eleanor, com close em suas expressões de felicidade, angústia e frustração, principalmente nos momentos de “quebra da quarta parede”.

Em referência à peça Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, que descreve uma relação de dominação entre marido e mulher, Eleanor começa a se dar conta da subordinação que sofre com seu parceiro, e se descobre como, de fato, feminista, pois enxerga a necessidade de ser independente da dominação masculina. 

Ela compreende como a opressão feminina é muito semelhante à opressão de trabalhadores e, por isso, o socialismo deve lutar a favor de ambos, como seu próprio pai dizia ao defender a não distinção entre os sexos no sistema socialista. Elanor discursa para pregar essa ideia e explica que um dos motivos dessa dominação é a mulher ser vista como propriedade, uma consequência da cultura capitalista.

A narrativa é linear e mostra o passar dos anos na tela – é possível ver, de maneira mais explícita, o amadurecimento da personagem. Existem alguns flashbacks da infância de Eleanor que são essenciais para compreender a personagem atual e sua luta: nas cenas da infância, torna-se clara a influência que o pai exerceu na vida da jovem revolucionária.

Embora a narrativa cinematográfica tenha seguido um modelo mais padrão, e talvez até clichê, cumpriu bem a sua função de apresentar a personalidade histórica feminina, ainda pouco conhecida. Eleanor, muito além de filha de Karl Marx, foi uma revolucionária com ideias próprias. É importante para as atuais lutas femininista e trabalhista que o seu nome seja mais conhecido.

 

Miss Marx mostra Eleanor e Edward, um romance que se tornou um relacionamento abusivo. Na imagem, o casal se abraça. [Imagem: Divulgação/Vivo Film]

Eleanor e Edward, um romance que se tornou um relacionamento abusivo. [Imagem: Divulgação/Vivo Film]

Miss Marx também conseguiu mostrar bem o desenvolvimento de um relacionamento abusivo. O fim da personagem é trágico e poderia ter sido evitado se ela conseguisse ajuda para sair dessa prisão. Infelizmente, ela não é a única, e não foi a última.

Karl Marx dizia que a história se repete: na primeira vez como tragédia, na segunda como farsa. A história dos relacionamentos abusivos constantemente se repete. Nesse caso, sempre é uma tragédia que resultou de uma farsa, a farsa do amante que se apresenta como o parceiro ideal, mas se mostra como abusivo.

Confira o trailer

 

*Imagem de capa: Divulgação/Vivo Film

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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