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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Murmúrio’
CINÉFILOS
16 dez 2020 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

Murmúrio (Murmur, 2020), título do primeiro longa-metragem escrito, dirigido e editado por Heather Young, é composto por uma única palavra polissêmica, ou seja, com vários sentidos agregados. Dentre seus significados, é possível destacar as noções de lamentação, continuidade e som baixo, diminuto. Em uma espécie de cinema-realidade, o longa tem um charme particular que não é para aqueles que desejam algo além de uma mensagem murmurada.

Donna (Shan MacDonalds) é uma mulher solitária. Após ser condenada por dirigir alcoolizada, a senhora precisa realizar trabalho voluntário em um abrigo de animais de seu município. No trabalho, ela descobre que um cão idoso denominado Charlie passará por eutanásia e decide adotá-lo. Porém, a atitude se transforma em uma compulsão: seu lar vazio de repente se enche de cachorros, gatos e até mesmo um hamster.

 

Na imagem, Donna (Shan MacDonalds) e o cãozinho Charlie. [Imagem: Divulgação/Houseplant Pictures]

Na imagem, Donna (Shan MacDonalds) e o cãozinho Charlie. [Imagem: Divulgação/Houseplant Films]

Para além dos aspectos tragicômicos do filme, seus quase 90 minutos de duração se desenrolam lenta e calmamente. Em sua representação sensível do cotidiano de uma mulher simples, pela qual a única conhecida mencionada é a própria filha que foge de seu contato, observa-se a compulsão alcoólica da protagonista ser substituída pelo ato de adotar animais. 

O que realmente impressiona na produção é tanto a sua fotografia quanto a sua abordagem. Juntas, elas constroem a experiência inovadora de Murmúrio.

Com uma experimentação significativa de ângulos de câmera, a produção possui um filtro acinzentado que faz com que todo o ambiente pareça um dia nublado sem fim. A construção do cotidiano, da rotina, se realiza por inventivas técnicas de expor detalhes, pequenos quadros de realização que passem a ideia de ação e tempo. Nisso, também se cria a melancolia, a monotonia, a solidão e a pequenez do dia a dia.

Tais técnicas da fotografia são fundamentais para construir a peculiar hibridez da abordagem, pela qual une o documentário à ficção. Essas estratégias, em conjunto à escalação de um elenco que nunca havia atuado antes, fazem com que a obra de ficção se assemelhe a um retrato documental íntimo sobre a vida de Donna.

 

Donna, personagem de Murmúrio, segurando um hamster no colo. [Imagem: Divulgação/Houseplant Pictures]

[Imagem: Divulgação/Houseplant Films]

Seu estilo único e admirável, entretanto, não é para todos. A maioria das pessoas provavelmente acreditaria ser maçante visualizar por uma hora e meia uma senhora realizar atividades cotidianas e adotar animais. Mas a experiência da melancolia e do vazio e sua decorrente auto identificação é muito mais extralinguística, evasiva e imperceptível à descrição. 

Também devem haver noções contextuais que fazem o filme ser melhor aproveitado. Ainda que ele tenha sido gravado e produzido em 2019, hoje, em isolamento devido à pandemia de COVID-19, é difícil não se identificar com a solidão de Donna e imaginar a felicidade de encher a própria casa de animaizinhos. E, ainda, testemunhar o quanto isso seria uma péssima ideia.

No lento compasso do cotidiano de Donna, em que até mesmo o caos se projeta de maneira calma em sua essência, o charme do longa deriva da humanidade da protagonista e a incompreensível sensação humana de solidão. O filme é, simultaneamente, um sopro de vida e um fim sussurrado.

Confira o trailer de Murmúrio

 

*Imagem de capa: Divulgação/Houseplant Films

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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