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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Não Há Mal Algum’
CINÉFILOS
21 dez 2020 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

Elegido pelo público como o melhor filme estrangeiro de ficção da 44° Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Não Há Mal Algum (There Is No Evil, 2020) discorre sobre o Estado que transforma homens em assassinos. Expondo quatro diferentes histórias, o longa repensa a aplicação da pena de morte no Irã a partir da ótica de quem pressiona o botão ou puxa a alavanca, que é nesse caso o gatilho.

Em seus mais de 150 minutos, prevalece no longa um desenvolvimento lento a fim de criar a ambientação do cotidiano e quebrá-la com a honestidade brutal do fenômeno. Desconfortável e enervante, é sobre dilemas éticos que envolvem o valor da vida, inclusive as que o Estado usa de mercenários. É preciso estômago forte para aturar o mal furtivo que se faz presente, que entrelaça 4 homens e todos próximos a eles ao trauma e ao irrevogável.

O cumprimento das leis implica na morte generalizada de desconhecidos. E tais desconhecidos possuem um rosto, uma história, uma vida. Essa percepção crítica sobre os aparatos de segurança do Estado tem ganhado força em movimentos ocidentais como o defund the police 𑁋 em favor da redução do orçamento da polícia 𑁋 em conjunto às manifestações antirracistas dos EUA.

O personagem Pouya (Kaveh Ahangar). [Imagem: Divulgação/Cosmopol Film]

Dirigido, escrito e produzido pelo diretor independente iraniano Mohammad Rasoulof, ele afirma que desejava questionar como governantes autocráticos metamorfoseiam cidadãos comuns em ferramentas autoritárias. Em 2010, Rasoulof foi preso e condenado a seis anos de prisão, dos quais cumpriu apenas um, devido a um movimento de censura contra um filme que produzia à época.

Recentemente, ele se deparou novamente com um de seus interrogadores e o viu seguir uma existência comum. Não encontrou maldade ou monstruosidade no homem que estava a sua frente. E isso permitiu uma abordagem realista, responsável pela veracidade imersiva do exibido que, em conjunto à fotografia admirável de Ashkan Ashkani, faz do longa uma experiência memorável. A criatividade que une os detalhes de cada narrativa também merece destaque no que há de melhor dessa produção expoente e favorita do público.

Ao explorar todos os desdobramentos possíveis que a execução de pessoas tem na sociedade, quatro histórias se tornam uma e, ao mesmo tempo, são completas por si só. O elenco realiza um trabalho excelente na construção do drama e das consequências dos contextos para as dimensões psicológicas das personagens.

[Imagem: Divulgação/Cosmopol Film]

Poético e poderoso, a produção é um drama que merece ser visto para conversar sobre desmilitarização e questões filosóficas de contrato social e moral individual. O que permanece é a pergunta de que realmente não há mal algum em seguir as leis, ainda que elas transformem o cotidiano em extermínio à vida de outras pessoas.

Confira o trailer:

*Capa: [Imagem: Divulgação/Cosmopol Film]

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