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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Nossa Senhora do Nilo’
CINÉFILOS
16 dez 2020 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

Nossa Senhora do Nilo (Notre-Dame du Nil, 2019) é um Coming of age dirigido por Atiq Rahimi e baseado na obra homônima da escritora tutsi Scholastique Mukasonga. Nele, acompanha-se um grupo de alunas ruandesas de um colégio para a elite do país, o qual é localizado no topo das montanhas em que se encontram as bacias do rio Congo e o rio Nilo, dois dos maiores rios do mundo. 

Próximo à nascente do Nilo, entre os anos 60 e o início dos anos 70, o instituto  reflete as complexas relações etnoculturais da época. Com uma maioria esmagadora hutu, o local possui uma cota para as estudantes tutsis, mal vistas por algumas de suas colegas. Dividido em três seções, o longa denota as transformações decorridas entre os hutus e tutsis em todo o país.

Com personagens apaixonantes, linda fotografia por Thierry Arbogast e uma incrível imersão no cotidiano católico da instituição belga em que estudam as protagonistas, o filme introduz o espectador a um complexo e sensível início dessas relações. Garotas adolescentes conversam sobre amores, viagens e sonhos. Entretanto, um mal-estar cresce, se enraíza ao ponto de que uma das jovens, Gloriosa (Albina Kirenga), apelida as tutsis de “baratas”.

 

Em cena de Nossa Senhora do Nilo, as jovens ruandesas fazem uma guerra de travesseiro. [Imagem: Divulgação/Les Films du Tambour]

[Imagem: Divulgação/Les Films du Tambour]

Na inocência de suas idades, o filme explora as tendências eurocêntricas das jovens. “A África é geografia, a Europa é história”, demonstra como a história é escrita pelos vencedores. A produção, no entanto, é um ode aos vencidos. Ou, melhor, à humanidade. Os eventos do longa são o início de um pretexto que, 20 anos depois, levaria ao genocídio na região que causou quase um milhão de mortes.

No entanto, o longa talvez se demonstre um pouco confuso para os que são pouco informados sobre as questões históricas da região. O colonialismo rarefez as relações de classe e étnicas na região. É reconhecido pela protagonista tutsi, Virginia (Amanda Mugabezaki), que a associação aos homens brancos tirou de sua etnia a credibilidade e fez com que o ódio e ressentimento fossem sentimentos passados por gerações. A agradável superfície dos eventos se torna cada vez mais complexa e tensa enquanto as alunas têm a primeira menstruação, limpam estátuas, arrumam arquivos e até mesmo engravidam.   

Com destaque à atuação de Kirenga, o elenco realiza um trabalho impressionante e admirável no longa. Todas as personalidades e histórias narradas são atraentes, identificáveis e amáveis. Gloriosa, por sua vez, é a estrela definitiva da obra. Suas ações manipuladoras e  nefastas tomam cada vez proporções maiores e, de repente, são a pólvora para uma explosão iminente.    

 

Gloriosa interpretada por Albina Sydney Kirenga [Imagem: Divulgação/Les Films du Tambour]

Gloriosa interpretada por Albina Sydney Kirenga [Imagem: Divulgação/Les Films du Tambour]

Os corações ingênuos e cheios de vida de repente são submetidos a uma Ruanda que se torna a terra do sangue. As tensões crescem, o ódio se torna a regra e, subsequentemente, o massacre se instala. A produção é uma projeção mínima da assustadora realidade que batia à porta. Mas, por algum momento, a cativante adolescência era o que existia. E sua imagem no longa se sobressai à tragédia. Confira o trailer de Nossa Senhora do Nilo:

 

*Imagem de capa: Divulgação/Les Films du Tambour

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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