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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Nova Ordem’
CINÉFILOS
26 out 2020 | Por Jaqueline Silva (jack_cristina12@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

O verde na bandeira do México já simbolizou a Independência do país, outrora colônia da Espanha. Posteriormente, com a secularização mexicana liderada pelo estadista Benito Juárez, a cor ganhou a competência de representar a esperança de tempos renovadores. O cineasta Michel Franco opta por uma quase junção dos dois significados quando usa o verde como uma marcação nos cenários, mas dessa vez o tom carrega também o teor de uma revolução.

Nova Ordem (Nuevo Orden, 2020) abriu a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na quarta-feira (21) e transparece o porquê de ter sido o vencedor do Grande Prêmio do Júri do 77º Festival de Veneza. O longa aborda um tema polêmico e delicado tanto no passado como no presente de quase todos os países latino-americanos (e alguns outros de primeiro mundo) que sofreram e sofrem com o fascismo em (re)ascensão.

O cineasta Michel Franco é contemporâneo de Alfonso Cuáron, Alejandro Gonzáles Iñarrítu e de Guillermo Del Toro, a tríade dos diretores mexicanos já oscarizados. Porém, diferentemente de seus conterrâneos, o seu modo de fazer cinema é mais cru e suas produções revelam as mazelas das relações humanas que, por vezes, são tapas inesperados que se prolongam como reflexões para além do filme.

Já intrínseca em Franco, a provocação dá as caras nos primeiros frames da história quando vislumbramos pequenas cenas da vida da protagonista Marianne (Naian Gonzales Norvind), uma noiva da elite mexicana que não parece ouvir os estrondosos barulhos das incidências de protestos do outro lado da janela em que experimenta o vestido branco.

Como essa, outras sutilezas se sobrepõem ao longo da trama, como se a parte rica da cidade não notasse ou preferisse fingir não notar as insurgências feitas pela classe baixa que reivindicava mais direitos. Em contrapartida, é escancarada a intenção do diretor de demonstrar a diferença entre a elite mexicana, completamente formada por brancos e, de outro lado, os empregados e manifestantes, que carregam feições indígenas.

Evidenciado pelos presentes de casamento recebidos, como dotes e gordas quantias de dinheiro originadas da propina trocada entre o pai da noiva, os sócios, grandes empresários e os requintados convidados, a produção confirma ser um “filme-catástrofe mexicano”.

A protagonista Marianne, segundos antes de manifestantes lançarem tinta verde na janela às suas costas. [Imagem: Divulgação/Videocine]

Similar ao desconforto do choque entre classes sociais divergentes, Nova Ordem reflete Parasita (Parasite, 2019), drama sul-coreano ganhador do Oscar de Melhor Filme de 2020. No entanto, a produção mexicana é mais barata do que a de Bong Joon-ho e sua fotografia ágil, feita por câmeras de mão, captura cenas quase fotojornalísticas de flagrantes ao mostrar os protestos e atritos entre civis e militares que rapidamente tomam a cidade inteira e invadem a cerimônia de casamento de Marianne.

Pelo semblante do povo, cansados e sem esperanças, a pele e o sangue derramado daqueles que contribuem para sua pobreza valem ouro; mas é nesse momento que o velho lobo do fascismo ataca. A frase “Morte aos ricos” é pichada em verde sobre uma obra de arte suntuosa que decora a imensa sala da mansão, antecipando o terror e morte que, posteriormente, ricos e pobres passam a enfrentar diariamente.

Militares, que em um primeiro momento se mostram apáticos às revoluções, agora instauram um regime autoritário que não poupa nem os personagens nem os espectadores: cenas de torturas físicas e psicológicas, estupros e violações coletivas, execuções e corrupção apoiada em um sistema de chantagens são exibidas sem cortes. Como uma lei marcial, todos os habitantes vivem sob as ordens de um Estado pior que o anterior, mas que ainda é mantido por conchavos das elites que sobreviveram aos ataques.

O cineasta perde um pouco a mão quando não equilibra a trama principal à mesma constância que a do plano geral, destinando a protagonista e a todos os que tentam ajudá-la a um destino fantasmagórico repleto de violência e interrogações. Nova Ordem pode se lançar para o Oscar, pois leva créditos ao tentar retratar algumas realidades próximas e outras previsões dos rumos que conflitos mundiais atuais podem tomar.

A ficção especulativa de Franco encaminha Marianne, os empregados da casa, os moradores dos bairros simples – e até parte da própria elite – a se tornarem vítimas do fascismo, assim como aqueles que na vida real pediram e ainda pedem à volta de ditaduras militares.

Confira o trailer:

*Capa: [Imagem: Divulgação/Videocine]

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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