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44ª Mostra Internacional de SP: ‘O Século 20’
CINÉFILOS
26 nov 2020 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

1899. Penúltimo ano do século 19 𑁋 uma vez que séculos começam em anos terminados em 1 e não em 0. Mackenzie King (Daniel Beirne), habitante de Toronto, crê que nasceu para ser o premiê que irá liderar o Canadá neste novo século que se aproxima. Para tanto, o jovem terá de passar por uma série de provações em sua (des)jornada do herói e descobrirá verdades desconfortáveis sobre o mundo político, relações humanas e si mesmo.

O Século 20 (The Twentieth Century, 2019) é uma comédia inconsequente e um tanto juvenil contextualizada no Canadá de 1899, ano de início da Segunda Guerra dos Bôeres 𑁋 evento de extrema relevância para a trama. Bôeres é o nome atribuído aos descendentes de europeus protestantes que, nos séculos 17 e 18, disputaram a colonização da África do Sul com os ingleses. Os canadenses ingleses entraram na guerra em favor da metrópole, mas o povo canadense que tem o francês como língua principal resistiu à guerra.

E é assim que se constroem as duas figuras dos inimigos da nação. Primeiro, o bárbaro e boêmio Bôer a ser dizimado pela Fúria canadense 𑁋 nome relacionado ao belicismo do governo do período. E, simultaneamente, o líder Jay Isräel Tarte (Annie St-Pierre) a frente da revolução pacífica de Quebec. Ainda que em favor da paz e da ternura, observa-se a personagem passar por um processo de vilanização, considerado traidor da pátria, semelhante à Goldenstein da obra 1984.

Mas, mesmo com tamanho conteúdo temático exterior, o filme impressiona mesmo é por seu cunho fetichista homoerótico falocêntrico. Em sua mescla de símbolos satíricos, a masculinidade parece ser o tema de maior relevância, ao ponto da obra fracassar disparadamente no teste de Bechdel. As quatro únicas personagens femininas do filme são sua mãe, interpretada por um homem (Louis Negin), e três interesses amorosos 𑁋 uma delas também sendo um ator.

Além disso, a homossexualidade ou a homoafetividade por si não integram o filme de qualquer maneira, apenas um grande jogo de relações masculinas em que homens interpretam personagens mulheres enquanto atrizes interpretam homens secundários. O longa também apresenta alguns momentos inesperados de gorefest e, talvez, o conteúdo mais incomum de todos: o interesse incontrolável de King por boot worship 𑁋 adoração sexual de botas femininas.

Imagem da personagem William Lyon Mackenzie King explorando seu fetiche. [Imagem: Reprodução/Voyelles Films]

Cotado para uma das figuras políticas mais importantes do país, o protagonista é acometido por grande instabilidade devido ao que passa a se tornar um vício. Devido a esse aspecto, ele tem contato com outras cidades canadenses, pelas quais são estereotipadas com características aumentadas ao absurdo. Inclusive, essa é uma excelente palavra para se ater a todo o conjunto: absurdo.

O Século 20 é… excêntrico. E isso é extremamente positivo, pois o atribui grande carga enquanto entretenimento. Porém, é possível afirmar que ele talvez se esforce demais para ser diferente. Sua história não é para qualquer um, de um jeito nada positivo. Cheio de camadas, é expoente de grandes acertos e grandes erros, muito potencialmente divisório. Mas sua construção de cenários e seu estilo cinematográfico é definitivamente singular e um de seus pontos máximos.

Ao utilizar a técnica de formato cinematográfico em 16mm colorido, a obra é um grande show de cores e cenários vanguardistas que fundem formas e perspectivas. A direção de arte de Dany Boivin, somada à fotografia de Vincent Biron, são um festival a ser admirado a parte da própria narrativa. Com sua influência teatral, a representação estética da Belle Époque futurista é realizada com codependente primazia e originalidade.

[Imagem: Reprodução/Voyelles Films]

O Século 20, tanto longa quanto escala de tempo, é grotesco, é repugnante, é patético. A vida política é decepcionante e a vida em sociedade, injusta. A obra consegue enviar essa mensagem, mas desperdiça extremo potencial ao pesar demais em um humor à lá South Park que, em vários momentos, a fazem parecer da década passada. Ainda que seu ponto máximo seja a excentricidade estilística, existe espaço hoje para se aclamar humor estereotípico, controverso e ofensivo?

Confira o trailer, em inglês, sem legendas:

*Capa: [Imagem: Reprodução/Voyelles Films]

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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