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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Pari’
CINÉFILOS
04 nov 2020 | Por Rebeca Alencar (rebs.alencar@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

O amor de mãe é popularmente conhecido por sua falta de limites. Muitos dizem que só a maternidade proporciona o amor verdadeiro, e que por isso, não existem respostas quando se pergunta até onde uma mãe iria por seu filho. O amor de Pari (2020), por exemplo, chegou à 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo no último sábado, dia 24.

Dirigido e escrito por Siamak Etemadi, o longa conta a história de Pari (Melika Foroutan), mãe de Babak e mulher de Farrokh (Shahbaz Noshir). Ela viaja com o marido para Atenas no intuito de visitar seu filho único que estava estudando fora. No entanto, ao chegar, descobre que ele está desaparecido e inicia uma jornada em busca por informações sobre o seu paradeiro, mas também por si mesma.

A escolha pela cultura iraniana em meio ao cenário grego não é aleatória. Etemadi tem delicadeza na reprodução dos detalhes justamente por ser algo familiar. Assim como Babak, o diretor também nasceu no Irã e estudou na Grécia, o que lhe proporciona uma visão privilegiada do local, que vai muito além da beleza turística conhecida mundialmente.

O filme não demora a entrar no mistério principal. Já nos minutos iniciais a dúvida é instaurada, o que contribui para que o telespectador seja cativado logo de cara pela trama e se sinta instigado em solucionar o mistério. Por outro lado, cada detalhe e pista que surgem sobre a localização de Babak são entregues de forma sutil e pontual.

A evolução lenta pode causar dois efeitos diferentes do outro lado da tela: frustração e angústia. O primeiro é resultado da velocidade do enredo que tende a tornar a experiência desinteressante; já o segundo é atribuído ao sentimento de empatia com a protagonista.  Devido à adoção de seu ponto de vista para guiar a história somado ao questionamento que dá início ao longa, cada avanço no objetivo de encontrar Babak cria expectativas não só para Pari, mas também para quem assiste. Sendo assim, a quebra dessas e outras expectativas que vão sendo criadas também é sentida duas vezes.


Pari e seu marido, Farrokh, em uma das tentativas de encontrar seu filho [Imagem: Divulgação/Heretic Outreach]

Por exemplo, em um certo momento do desenrolar da trama, ela recebe a informação de que que a aparência de Babak já não é mais a mesma da foto que ela mostrava para os atenienses. O desespero que atinge Pari é sentido não só por ela, mas também por quem assiste, uma vez que o espectador ainda sequer sabe qual é a feição do garoto.

É importante ressaltar que a proposta de solucionar o mistério sobre o que aconteceu com o filho desaparecido é o que conduz a obra, mas não se deve esquecer que a personagem principal ainda é a iraniana. Em vista disso, cabe o destaque para a sua evolução ao decorrer da película e isso se deve à boa interpretação feita por Malika. Mesmo que a nacionalidade e cultura entre ela e seu papel sejam comuns – e, portanto, não categoriza um desafio – Pari também é mãe, esposa e turista em um país desconhecido.

A atriz não deixa nada a desejar ao aglutinar e representar várias personalidades, porém, todo esse feito é resultado de um trabalho coletivo ao lado de Shahbaz Noshir e Sofia Kokkali. Na atuação de Farrokh, marido de Pari, e Zoe, estudante grega que a ajuda em sua procura, os atores realizam a movimentação da trama, impedindo que o longa se torne maçante. No entanto,  o principal papel deles é entregar a situação ideal para que Pari, a partir dessas movimentações, realize sua autodescoberta.

Apesar dessa função, Noshir e Kokkali não devem ser vistos como meros coadjuvantes, uma vez que seus papéis não se equivalem a uma assistência, mas sim, à composição de novos contextos primordiais para a história.

Quem está a procura de uma experiência cinematográfica tradicional, não encontrará em Pari. A mistura de simbologias, conflitos internos, drama familiar, conhecimento de novas culturas e territórios inibe qualquer sombra de tradicionalidade nessa obra. O caminho é totalmente aberto para a autenticidade artística e reflexões individuais, motivadas pela ousadia em ir na contramão da produção estritamente comercial que rodeia a sétima arte.

Confira o trailer:

*Capa: [Imagem: Divulgação/Heretic Outreach]

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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