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44ª Mostra Internacional de SP: ‘Um Crime Em Comum’
CINÉFILOS
14 dez 2020 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br)

Esse filme faz parte da 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

Um Crime em Comum (Un crimen común, 2020), produção argentina dirigida por Francisco Márquez, é centrado em Cecilia (Elisa Carricajo). Mãe solteira e professora de Sociologia que integra a classe média urbana argentina, ela e sua empregada, Nebe (Mecha Martínez), possuem uma boa relação. Em uma noite chuvosa, Kevin (Eliot Otazo), o filho de Nebe, bate em sua porta e a moça o ignora até o rapaz ir embora. No dia seguinte, ele é encontrado morto.

O acontecimento coloca a protagonista num ciclo vicioso de culpa e desordem emocional. Cecilia passa pelo cotidiano entorpecida e distante, de modo a esquecer datas e compromissos e agir de forma errática. Ainda mais, ela passa a ver e ouvir coisas que a fazem questionar a realidade. O suspense se constrói nos detalhes do cotidiano, das expressões de Ceci e do distanciamento de suas ações habituais.

A common crime, nome atribuído ao filme em inglês que é uma tradução mais literal do seu nome espanhol que seria “Um crime comum”, é, em sua grande maioria, minimalista. As atuações, os acontecimentos, os diálogos, tudo aponta para uma mesma sutileza que é sutil demais. É uma escolha estilística difícil de ser bem produzida e o longa é exemplo disso. Entretanto, em sua essência, ele é uma tentativa de denunciar a violência policial e a negligência do cidadão médio.

[Imagem: Divulgação/Pensar con las manos]

Kevin era querido pela comunidade em que vivia e a população local crê que os responsáveis pelo assassinato do garoto seja a polícia. Dias antes de sua morte, inclusive, Cecilia vê o jovem ser maltratado por indivíduos fardados e até tenta intervir sem sucesso. Há, nessa cena, uma construção de um importante aspecto a ser considerado da personagem: ela não é completamente omissa. Em companhia somente de seu filho pequeno Juan (Ciro Coien Pardo), a professora se amedrontou com a visão do rapaz à sua porta e isso sempre a ligará à sua morte.

Desamparados e oprimidos pela polícia, as classes baixas encontram portas fechadas quando buscam asilo em seus conhecidos da classe média. Em vários momentos, o longa menciona a tenebrosa ditadura militar argentina, em especial, por meio dos professores e intelectuais com quem Cecilia convive, como numa tentativa de criar um paralelo de que se eles eram os mortos pelo aparato de repressão do Estado daquela época, hoje são as classes mais baixas.

Ainda que apresente bela fotografia e um emblemático momento de plano-sequência, é a atuação de Carricajo um dos aspectos mais verdadeiramente admiráveis do longa. A maior parte da construção dos eventos se dá por ela, pela forma com que a atriz consegue expressar o claro sentimento de desconforto e, ao mesmo tempo, entorpecimento. Ceci está ciente de sua culpa, mas ao mesmo tempo ela não se engaja em qualquer luta pelo rapaz. Ela representa a covardia da branquitude da classe média, potencialmente progressista, que não se responsabiliza por suas omissões.

Na imagem, Nebe (Mecha Martínez) conversa com Cecilia (Elisa Carricajo). [Imagem: Divulgação/Pensar con las manos]

É devido a Carricajo que a cena final do filme é tão relevante. É nela que acontece a quebra da indiferença da protagonista e há uma humanização, uma expressão de sentimentos por parte dela. Não há um desfecho, mas sim uma visão da adrenalina, da catarse de um emocional há tanto deteriorado.

Em um ano pelo qual a violência policial tem sido debatida em todo o mundo, a produção argentina, suíça e brasileira, expõe relevantes aspectos sobre essa questão no contexto latinoamericano. Ela apresenta a desigualdade e a maternidade como conceitos atrelados. Há uma possível ambiguidade com o título, em que o crime comum pode ser tanto o assassinato da juventude periférica quanto a omissão da classe média.

Um Crime em Comum é assustadoramente comum. Não há muito mais a ser dito. Não é uma produção ambiciosa, não é especial, não é grande de qualquer forma. É contemplativa, é experimental e, com menos eufemismo, frustrante e vazia. Compreensível a tentativa de se criar essa atmosfera de tensão inibida e culpa que cerca a protagonista, mas isso a torna maçante. É um filme que cerceia o problema, finge que ele não existe, mas simultaneamente sempre parece prestes a explodir. Mas a explosão, ou qualquer outro desenvolvimento significativo, nunca acontece.

Confira o trailer:

 

*Capa: [Imagem: Divulgação/Pensar con las manos]

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