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45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo | ‘Brighton 4th’

Premiado no Festival de Cinema de Tribeca, o drama georgiano trata de paternidade, nostalgia e identidade nacional

CINÉFILOS
04 nov 2021 | Por Júlia Rodrigues (rodriguesjulia673@usp.br)

Quando Kakhi (Levan Tedaishvili) deixa sua casa na Geórgia e chega em Nova York, ele é só mais um em Little Odessa. O distrito, originalmente chamado Brighton Beach, ganhou esse apelido a partir da década de 1970, quando um número cada vez maior de imigrantes soviéticos, em especial russos, começou a se estabelecer naquela região da cidade. Kakhi é ex-lutador e campeão mundial, mas, já idoso e aposentado das competições, parte para os EUA para visitar seu filho, Soso (Giorgi Tabidze), que acumula uma considerável dívida com mafiosos do Leste Europeu. Em Brighton 4th (2021), do diretor georgiano Levan Koguashvili, assistimos aos sacrifícios desse pai para ajudar o filho a quitar o que deve.

Brighton 4th é sobretudo um filme sobre a jornada pessoal de Kakhi: suas conquistas como lutador, sua pequena família o irmão, a esposa e seu cachorro, que ficam na Geórgia enquanto ele vai em busca do filho , e a admiração que seu passado evoca nas pessoas com quem convive. Mesmo velho, de barba branca e movimentos menos ágeis, ele ainda é reconhecido como “O Campeão”, uma referência e o orgulho do país. A construção da personagem é o cerne do longa de Koguashvili, e Kakhi, na sua complexidade, lembra-nos o arquétipo do sábio aquela personagem que parece conter em si uma experiência de vida capaz de prepará-la para lidar com qualquer situação adversa. Ele é calmo, lógico, bem humorado e sua presença suaviza as passagens mais tensas do filme.

Na família, não somente Soso está endividado, como também seu tio, irmão de Kakhi. Ambos compartilham o vício em jogos e Kakhi ajuda-os em todas as recaídas sem esperar nada em troca. Talvez a maior qualidade da direção de Koguashvili seja conservar a essência e a profundidade de um protagonista que está constantemente a serviço dos outros. Uma vez em Nova York, Kakhi se hospeda com Soso, em uma pensão cheia de georgianos. Mesmo estabelecido há poucos dias, ele começa a buscar um emprego para juntar dinheiro e pagar a dívida do filho. Aqui, Koguashvili elabora uma das cenas mais tocantes do filme, e percebemos que, para Kakhi, não há humilhação ou dificuldade que o impeçam de fazer o que é certo. 

 

O protagonista de Brighton 4th aparece em uma loja com chapéus e outros itens à venda. Outro homem toca sua mão coberta por uma luva preta.

No filme, Kakhi é vivido por Levan Tedaishvili, lutador e campeão olímpico georgiano. Embora não seja ator, Tedaishvili apresenta uma ótima interpretação, fazendo quase “papel de si mesmo”. [Imagem: Divulgação/Tribeca Film Festival]

A bondade e o senso moral desse protagonista empatia é o que o espectador mais sentirá por ele permanecem par a par com outro fragmento sentimental do filme, a representação da identidade dos povos do Leste Europeu.  Afinal, Little Odessa abriga, além dos famosos restaurantes e festivais típicos, acomodações simples em comunidades georgianas como a de Soso. O russo é a língua base, mas na pensão a convivência é entre georgianos, cazaquistaneses, uzbequistaneses e outros. Longe de equiparar todas as culturas, Koguashvili faz uma ode aos imigrantes soviéticos e seus descendentes que criaram raízes em Nova York. Comida, bebida e canções entoadas espontaneamente, o que prova serem versos já consagrados na tradição, preenchem as confraternizações entre eles. Kakhi aparenta gostar desses encontros talvez eles tragam a nostalgia da juventude nos combates, da glória perante seu país , mas ele mal canta e, quieto, muitas vezes se retira.

Brighton 4th é uma obra melancólica, que reconta a história de um país a partir das lembranças de um herói nacional esquecido. A relação entre pai e filho, apesar de deixada de lado por alguns momentos do longa, ainda assim funciona como temática mais importante e de maior carga emotiva, pois Kakhi só é um bom pai porque foi e, de certa forma, ainda é lutador. 

Nota do Cinéfilo: 4,5 de 5. Ótimo!

 

Esse filme faz parte da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto. Confira o teaser: 

*Imagem da capa: Divulgação/Tribeca Film Festival

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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