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45ª Mostra Internacional de Cinema de SP | ‘Luz Natural’

Apesar de propor uma abordagem narrativa mais pessoal e subjetiva, Luz Natural não inova em nada em relação às já conhecidas representações cinematográficas de guerra

CINÉFILOS
03 dez 2021 | Por Júlia Rodrigues (rodriguesjulia673@usp.br)

A Segunda Guerra Mundial já foi muito explorada no cinema, tanto nos circuitos comerciais quanto no meio mais underground. O filme de Denés Nagy, premiado no Festival de Berlim com a melhor direção, adequa-se ao segundo caso: Luz Natural (Természetes fény, 2021) não é o tipo de filme que será visto por um público extenso, e talvez por isso o diretor sentiu-se livre para contar uma narrativa num ritmo lento e particularizado. Na antiga União Soviética, István Semetka (Ferenc Szabó) é um fazendeiro húngaro que atua como subtenente em uma unidade de reconhecimento de partidários. Quando seu comandante morre em combate, ele precisa encarar seus medos e assumir a posição de liderança.

Como a sinopse anuncia, o longa nos é apresentado a partir da visão de Semetka. Essa personagem está inserida num contexto histórico mais vasto, do qual só temos conhecimento quando as inscrições na tela pré-filme anunciam que, de 1941 a 1944, 100 mil soldados húngaros foram mandados a trabalho para a União Soviética. A opção de Nagy é por mostrar a guerra de dentro para fora, longe dos acontecimentos mais conhecidos e, assim, provar que ela é inerentemente desumana e cruel. A paleta, como em muitos filmes do gênero, é escura, e os uniformes verde-musgo dos combatentes se camuflam com o ambiente e com a própria imagem do plano. 

 

Cena de Luz Natural, em que uma casa de madeira é incendiada e alguns soldados observam na penumbra.

Uma das características do filme é sua paleta composta por cores escuras. Na cena, uma construção de uma das vilas pega fogo e se destaca em meio aos soldados de trajes camuflados. [Imagem: Divulgação/45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

Essa falta de direcionamento temporal por vezes é quebrada por alguns elementos sutis: numa realidade quase feudal, em que aldeões vivem à base de pequenas plantações, sempre sujos e mal vestidos para o inverno, Semetka tem pendurada em seu uniforme uma câmera. Ele é responsável por registrar com eventuais fotografias as ações dos soldados. A câmera analógica, e seu uso pouco frequente, lembra o telespectador de que se trata de 1940 e que cidades como Moscou, Berlim e Paris à época já eram centros urbanos. 

Não há cenas explícitas de violência, pois a miséria dos camponeses e sua submissão às tropas húngaras parece bastar para os propósitos de Nagy. A impressão, na verdade, é de que não há nada, nem mesmo a construção gradual de uma possível tragédia futura — a ocorrência crucial do filme, a morte do comandante, acontece inesperadamente, mas com uma imprevisibilidade que não choca, que não arranca nenhum sentimento de quem a assiste. Todo o peso de Luz Natural está nas cores, na fotografia sombria, úmida, estática; e não é possível depositar todo o valor de uma obra cinematográfica na fotografia.

István Semetka, apelidado de “Pista” pelos colegas, igualmente não esboça nada, nenhuma expressão ou reação e, apesar de esta ser uma escolha deliberada — o fazendeiro teria se acostumado e, por isso, não mais se escandalizava com as atrocidades da guerra —, ela não cumpre seu êxito. A escassez de falas e de sentimentos perceptíveis atenua o recorte individual da construção da narrativa. Semetka vai de posição privilegiada de condução do enredo à uma personagem rasa, da qual não conseguimos depreender nenhuma informação. 

Luz Natural não é muito diferente de outros filmes da Segunda Guerra que chegam ao meio underground através dos festivais de cinema. O longa tampouco satisfaz os telespectadores interessados na perspectiva histórica, uma vez que não há tantas referências a esse aspecto. Sua maior qualidade — e uma das únicas —, como dito anteriormente, é a fotografia. 

Nota do Cinéfilo: 2,5 de 5. Mediano!

 

Esse filme faz parte da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto. Confira o trailer:

*Imagem da capa: Divulgação/45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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