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45ª Mostra Internacional de SP | ‘18 ½’

A ressurreição do Watergate pelo diretor indie Dan Mirvish

CINÉFILOS
11 nov 2021 | Por Valentina Moreira (mcandido.valentina@usp.br)

Em 1972, quando Carl Bernstein e Bob Woodward, repórteres do Washington Post, decidiram investigar a prisão de cinco pessoas que tentavam fotografar documentos e implementar escutas no escritório do Partido Democrata americano no Hotel Watergate, eles não poderiam prever que a reportagem em questão desencadearia na renúncia do então presidente dos Estado Unidos, Richard Nixon. Na época, a história parecia um tanto quanto aleatória. Bernstein estava prestes a ser demitido e ganhara a pauta como uma oportunidade de segunda chance de seu editor. Uma pauta que era ignorada pelos outros veículos e que já esfriava após a reeleição do candidato republicano. 

Dois anos depois do início das investigações, quando finalmente o caso Watergate estourou, o jornalismo aprendeu que tratando-se da apuração dos fatos, é praticamente impossível prever qual acontecimento ganhará o poder de mudar o curso da História. De uma forma ou outra, há um certo elemento do acaso que levou um esquema de espionagem tão estruturado, envolvendo uma complexa rede de corrupção, a ser revelado de uma maneira tão estúpida. Um acaso que, de tão trágico, chega a ser cômico. 

Por essa razão, para as gerações que não viveram o Watergate, sobretudo para quem não é estado-unidense, entender esse escândalo pode ser um tanto quanto desafiador. Afinal, se tivermos como ponto de partida a imagem de um Estados Unidos super organizado, que liderava os países capitalistas e, de uma forma ou de outra, derrotou a União Soviética no contexto da Guerra Fria, é estranho absorver a ideia de um fenômeno tão absurdo ter acontecido lá — ainda mais em plena década de 1970, quando o american way of life era despejado ao redor do mundo. 

Nesse sentido, 18 ½ (2021), o novo filme do veterano Dan Mirvish, é interessante. A obra propõe uma imersão na atmosfera insana própria do espírito daquele tempo, trazendo para o presente a oportunidade de especular sobre o que aconteceu para que os fatos tenham se sucedido da maneira que ficou marcada na História. 

Para tanto, Mirvish joga com a imaginação. A narrativa é centrada no mistério dos 18,5 minutos de áudio que foram ocultados das fitas entregues à Suprema Corte americana por Nixon em 1974. Na versão proposta, a gravação cai nas mãos da protagonista Connie (Willa Fitzgerald), que decide entregá-la à imprensa. Uma tarefa que vai se tornando cada vez mais difícil à medida que os outros personagens — inclusive o próprio jornalista Paul (John Magaro) — parecem estar a tal ponto hipnotizados com as revelações do Watergate que não conseguem agir naturalmente.

 

Imagem de uma secretária atendendo um telefone cercada por uma mesa cheia de papéis e equipamentos.

Na justificativa oficial apresentada pela equipe de Nixon para o desaparecimento dos 18,5 minutos das fitas de áudio entregues à Suprema Corte, foi dito que a gravação foi acidentalmente danificada pela secretária privada do ex-presidente, Rose Mary Woods. A foto acima foi usada como demonstração de como Woods teria se confundido e deletado o trecho de 18,5 minutos enquanto atendia ao telefone. [Imagem: Reprodução/U.S. National Archives and Records Administration]

É verdade que 18 ½ consegue simular o que foi estar nos Estados Unidos naquele momento. A ambientação é muito bem executada, destacando-se pela fotografia e figurinos que constroem com precisão a estética setentista. Por outro lado, o ritmo extensivamente lento da primeira parte transmite a sensação que o filme ficará só nisso: reconstruir o passado com um cenário bonito para contar uma história genérica. Uma decepção para quem ficou curioso com a sua premissa. 

Pouco a pouco, Mirvish até consegue voltar a instigar a curiosidade do espectador. Depois da metade, o plot finalmente ganha velocidade, dando indícios que algo de interessante vai acontecer. O problema é que, para quem está entediado desde o começo, a sensação de passagem do tempo está mais aguçada e, por mais que a promessa seja bem construída, é inevitável achar algumas cenas demoradas. Cenas que talvez em outros contextos poderiam até ser cativantes — quem assistiu ao filme vai concordar que o monólogo de Lena (Catherine Curtin) com certeza seria melhor apreciado se não tivéssemos que escutá-lo por longos minutos. 

 

Cena de 18 ½ em que os personagens vestem roupas sociais cinzentas e azuladas, com uma parede azul clara nos lados e um cômodo em cor creme, com uma brecha de luz solar no fundo.

John Magaro como Paul (esq.) e Willie Fitzgerald como Connie (dir.). [Imagem: Divulgação/Waterbag Eater fil, LLC.]

A parte boa é que no final o filme é mais que surpreendente. Com um desfecho absolutamente nonsense, 18 ½  vinga quase antes de acabar. Uma surpresa que é positiva a ponto de nos perguntarmos se o roteiro do restante da obra não foi estrategicamente planejado para chegarmos mais vulneráveis à conquista dos últimos minutos. Nesse raciocínio, até a cena de ação mal executada fica intrigante — será que não fazia parte do plano de deixar a atmosfera ainda mais aleatória? A mim, seria uma escolha mais que adequada, se contextualizada nas loucuras que realmente aconteciam na Guerra Fria. 

Nota do Cinéfilo: 2,5 de 5. Mediano.

 

Esse filme faz parte da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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