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45ª Mostra Internacional de SP | ‘A Colheita do Trigo’

Nada como um filme ruim para nos tornar mais feministas

CINÉFILOS
18 nov 2021 | Por Valentina Moreira (mcandido.valentina@usp.br)

A Colheita do Trigo (Maizishule, 2021) é um filme com vários potenciais: tem uma boa premissa, um cenário muito bonito e atuações relativamente boas. Apesar disso, é surpreendente como o filme não consegue entregar quase nada. E a razão está, principalmente, no roteiro, que, de tão machista e clichê, torna difícil tirar qualidades da obra. 

A narrativa é baseada na história de uma jovem que se envolve em um romance extraconjugal com seu vizinho após se mudar para a região rural da China. De plano de fundo, há a ideia das  “mulheres abandonadas”, esposas deixadas no campo pelos maridos, que partiram para as cidades em busca de emprego. Um tema que facilmente poderia ter encaminhado para discutir o papel feminino na sociedade chinesa.

Mas o filme passa longe disso. Primeiro, porque a protagonista Xiǎomài (que literalmente significa “trigo”), interpretada por Hai Peng Xu, é construída sob os estereótipos de gênero mais superficiais possíveis. É uma pessoa bonita e rica, sem seu marido por perto e, portanto, supostamente sem nenhuma função senão a de perturbar a vida do vilarejo. Seus sonhos estão todos centrados em fantasias sexuais com seu vizinho. Uma relação que se estabelece do nada, meio que na lógica “mulher bonita não pode ficar solta”. Inclusive, se de um lado temos acesso a todos os sonhos eróticos da adúltera, por outro, dá para contar nos dedos as vezes em que ela fala uma frase ao longo do filme. Na maior parte do tempo, só vemos caras de sofrimento ou gemidos sim, a personagem principal passa a maior parte do tempo gemendo.  

 Ah! Esqueci de um detalhe fundamental. Nos primeiros minutos, o diretor Tang Yu-qiang joga a informação que a personagem de Hai não consegue engravidar do seu marido. Eu me pergunto: isso foi uma tentativa de justificar as frustrações da personagem que a levam ao adultério? Espero profundamente que não. 

 

Imagem do diretor e roteirista de A Colheita do Trigo. Ele usa um boné preto, uma camiseta verde-água com letras amarelas e fala num radiotransmissor preto.

Tang Yu-qiang (acima) trabalha como roteirista e diretor, e realizou curtas-metragens antes de dirigir A Colheita do Trigo, seu primeiro longa-metragem. [Imagem: Reprodução/45ª Mostra Internacional de Cinema de SP]

Passada a tragédia da protagonista, em segundo lugar temos o infeliz desdobramento narrativo de A Colheita do Trigo. Além de Xiǎomài, conhecemos outras três personagens: a esposa do vizinho, a irmã da esposa do vizinho e uma amiga da protagonista. De formas diferentes, todas essas três mulheres sofrem com a sociedade patriarcal em que vivem. Só que a única opção que o filme dá para que elas consigam sair desse sistema é a mudança de atitude pessoal. Em nenhum momento é levantado o papel dos homens. E, no caso de Xiǎomài, mesmo quando ela consegue agir de forma diferente, é para se opor à esposa de seu amante. Ou seja, como se toda a violência de gênero sofrida se resumisse ou ao excesso de passividade ou a um problema com uma outra mulher. 

Com um roteiro tão absurdo, falta fôlego para valorizar a estética do filme. Há sim um esforço na cinematografia, que explora a iluminação natural e o jogo de cores embora não faça nada muito excepcional.  A ambientação também chama atenção. É possível conhecer com certa qualidade o interior da China, um cenário que ainda é pouco visto pelo Ocidente. Mas como sabemos, no fim do dia, poucas coisas são tão indignantes quanto assistir 96 minutos de um filme ruim. E a mensagem que A Colheita do Trigo deixou para mim foi que se alguém ainda tem coragem de fazer uma obra assim em pleno 2021, ainda há muito caminho de luta pela frente.

Nota do Cinéfilo: 0,5 de 5. Horrível.
Esse filme faz parte da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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