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500 dias com Bergman, Sob o Sol de Fellini e outras misturas mais
CINÉFILOS
12 jan 2014 | Por Jornalismo Júnior

por Stella Bonici e Victória Pimentel
stebonici@gmail.com e vic.pimentel.oliveira@gmail.com

Toda sexta-feira, dezenas de filmes são lançados no mundo todo. Produzir roteiros totalmente criativos e que ainda conquistem a atenção do público não é uma tarefa tão simples. Com as comédias românticas acontece o mesmo. Sobram clichês, mas como fazer um filme que seja diferente? É fato que, na maioria das vezes, os romances acabam se tornando histórias muito parecidas. No entanto, alguns roteiros lançam mão de uma alternativa interessante para trazer pelo menos um pouquinho de singularidade para sua história: as referências a filmes famosos. Mesmo que elas não sejam fundamentais ou ainda que nem interfiram no enredo, o filme fica mais rico e autêntico, diferenciando-o da maioria das histórias pré-prontas com as quais nos deparamos todos os dias.

Mensagem para Você
Na comédia romântica dos anos 90, Mensagem Para Você (You’ve Got Mail, 1998), Kathleen, personagem vivida por Meg Ryan, é dona de uma pequena loja de livros infantis em Nova York. Ameaçada pela concorrência de uma grande livraria, a Fox And Sons Books, Kathleen recorre a NY152, um amigo virtual com quem troca emails. NY152, que é na verdade, Joe Fox, interpretado por Tom Hanks, e nada mais nada menos do que o dono da famosa Fox And Sons Books, dá vários conselhos profissionais a Kathleen – claro, sem saber sua identidade. Para isso, ele utiliza uma série de falas retiradas de O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972) e chega até a descrever algumas cenas do consagrado longa.

Alguns dos conselhos que Joe dá a Kathleen são “Vá para a arena” – significa “ir à guerra”, ele explica – e ainda “Não é pessoal. São negócios”. Curiosa, Kathleen ainda pergunta o que tanto os homens veem em O Poderoso Chefão. Joe responde sem hesitar: “O Poderoso Chefão é o depósito de toda a sabedoria. É a resposta para qualquer pergunta”.

 Os protagonistas em uma das cenas em que Joe Fox faz referências ao Poderoso Chefão

Os protagonistas em uma das cenas em que Joe Fox faz referências ao Poderoso Chefão

 

500 Dias com Ela
500 Dias com Ela (500 Days of Summer, 2009) conta a história do amor platônico de Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) por Summer Finn (Zooey Deschanel). Em meio a um quase namoro, altos e baixos e uma trilha sonora impecável, o filme vai se desenrolando e mostrando a relação dos protagonistas, junto de algumas referências aos clássicos do cinema.

Há algumas alusões aos filmes de Ingmar Bergman em uma cena que Tom, arrasado com o término com Summer, vai ao cinema e começa a se ver dentro da tela. São feitas refilmagens de algumas cenas dos filmes do diretor sueco, substituindo os atores originais pelas personagens protagonistas.

A cena do Cavaleiro jogando xadrez com a Morte em O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, 1956), por exemplo, é parodiada por Tom jogando xadrez com um Anjo.

Na primeira foto, a cena original em O Sétimo Selo, e na segunda, a reprodução em 500 Dias com Ela

Na primeira foto, a cena original em O Sétimo Selo, e na segunda, a reprodução em 500 Dias com Ela

Em outro momento, há uma paródia de Quando Duas Mulheres Pecam (Persona, 1966), em que Summer e Tom fazem o papel de Elisabeth Vogler (Liv Ullmann) e Alma (Bibi Andersson), respectivamente.

Na primeira foto, a imitação da cena de Quando Duas Mulheres Pecam, e na segunda, cena do filme original

Na primeira foto, a imitação da cena de Quando Duas Mulheres Pecam, e na segunda, cena do filme original

O filme também tem referências de A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, 1967). Logo no começo, o narrador da história diz que Tom achava que não podia ser verdadeiramente feliz devido a “exposição precoce à triste música pop britânica e à má compreensão do filme A Primeira Noite de um Homem”. Além disso, mais para o fim do filme, quando Tom começa a repensar o que deu errado no seu relacionamento com Summer, há uma cena que mostra o casal no cinema, e Summer chora ao ver a cena de Benjamin (Dustin Hoffman) e Elaine (Katherine Ross), os protagonistas do filme da década de 60, fugindo após esta deixar seu futuro-ex-marido no altar.

As Vantagens de Ser Invisível
As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012) conta da saga de Charlie (Logan Lerman) no ensino médio, relevando as dificuldades desse período da adolescência ao mesmo tempo que mostra como a fase pode ser menos traumática com os amigos certos. Esse é outro filme que tem a trilha sonora impecável, e referências bem evidentes a outro filme.

Os amigos de Charlie participam de uma reencenação da peça de teatro que virou filme, The Rocky Horror Picture Show (The Rocky Horror Picture Show, 1975). Em um palco em que os adolescentes interpretam e dublam as músicas, há um telão que vai passando as cenas do filme conforme o acontecimento dos fatos. Patrick (Ezra Miller) faz o papel do Dr. Frank-N-Furter, um cientista maluco e transsexual, Sam (Emma Watson) faz o papel de Janet Weiss, e até mesmo Charlie participa da peça como substituto, fazendo o papel do parceiro de Janet na música Touch-a Touch-a Touch-me, que mostra a virada comportamental do jovem.

A Mentira
“O que aconteceu com a cortesia? Isso só existiu nos filmes dos anos 80?”, pergunta a personagem de Emma Stone, Olive Penderghast, na comédia A Mentira (Easy A, 2010). O filme conta a história de uma garota que, após contar uma mentira inofensiva para a amiga, vê tudo mudar. A partir de então, ela passa a ser uma das garotas mais conhecidas do colégio. Mas não pelas boas notas, ou pela popularidade e sim por, supostamente, ter ficado com muitos – muitos! – garotos de sua escola. Quando Olive vê a situação fugir totalmente de controle, ela resolve fazer uma live cam para a escola toda, colocando tudo em pratos limpos e explicando o que na verdade aconteceu. É nessa reflexão que Olive que pergunta onde foi parar a cortesia que víamos nos filmes da década de 80 e relembra uma série de cenas marcantes.

“Eu quero John Cusack segurando um som portátil perto da minha janela”, pede Olive se referindo à famosa cena de Digam o Que Quiserem (Say Anything…, 1989). “Eu quero andar numa máquina de cortar grama com Patrick Dempsey. Eu quero Jake, de Gatinhas e Gatões me esperando na porta da igreja”, diz a protagonista fazendo referências à Namorada de Aluguel (Can’t Buy Me Love, 1987) e a Gatinhas & Gatões (Sixteen Candles, 1984). “Eu quero Jude Nelson erguendo os braços para cima por saber que me ganhou”, lembra Olive da cena final de Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985), quando John Bender (Judd Nelson) comemora por ter conquistado a bela Claire, interpretada por Molly Ringwald. “Só uma vez eu quero que a minha vida seja como num filme dos anos 80. De preferência com um número musical sensacional, sem razão aparente. Mas não, o John Huges não dirigiu a minha vida”, comenta ela se lembrando de quando Ferris Bueller faz uma performance de Twist And Shout em uma parada em Nova York, em Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986) e citando o famoso diretor, responsável vários filmes da década.

John Cusack, na famosa cena de Digam O Que Quiserem

John Cusack, na famosa cena de Digam O Que Quiserem

ATENÇÃO! SPOILER! Para terminar, em uma das cenas finais, Todd (Penn Badgley), o garoto pelo qual Olive sempre foi apaixonada, ao ficar sabendo que a garota adora um gesto romântico à La comédia romântica dos anos 80, aparece em sua janela, montado em um cortador de grama segurando dois alto-falantes tocando Don’t You Forget About Me (Simple Minds), trilha de Clube dos Cinco.

Judd Nelson, em Clube dos Cinco, comemorando por ter conquistado Claire

Judd Nelson, em Clube dos Cinco, comemorando por ter conquistado Claire

Sob o Sol da Toscana
Em Sob o Sol da Toscana (Under The Tuscan Sun, 2003), Diane Lane interpreta Frances, uma escritora divorciada que abandona a vida que tinha em São Francisco para comprar uma casa em uma pequena cidade da Toscana, na Itália. Em sua aventura, Frances faz amizade com uma série de pessoas, entre elas a excêntrica e emocionante Katherine, vivida por Lindsay Duncan. Atriz, Katherine teria sido descoberta pelo famoso diretor italiano Federico Fellini. Já se pode perceber que todas as referências são de obras suas como Noites de Cabíria (Le Notti di Cabiria, 1957) e principalmente, A Doce Vida (La Dolce Vita, 1960).

Em uma das cenas, Katherine, bêbada, resolve interpretar Sylvia (Anita Ekberg), de A Doce Vida, na icônica cena em que a personagem entra na Fontava di Trevi. Assim como na obra de Fellini, Martini (Vincent Riotta), amigo de Frances, faz o papel de Marcello (Marcello Mastroianni), tira os sapatos e entra na fonte para buscar a moça. Além disso, o visual de Katherine lembra muito o de Sylvia, e suas falas sempre remetem ao diretor, como “Não importa o que aconteça, sempre mantenha sua inocência infantil. É o mais importante”.

Katherine, interpretando Sylvia, de A Doce Vida

Katherine, interpretando Sylvia, de A Doce Vida

Amor à Distância
O nome do filme já diz tudo: em Amor à Distância (Going The Distance, 2010), Erin (Drew Barrymore) mora em São Francisco e Garrett (Justin Long) em Nova Iorque, mas, apesar da distância, eles mantêm um relacionamento. Os dois se conhecem em um bar de nova iorquino enquanto Erin ainda estagiava em um jornal local. Depois da noite divertida que passaram, Erin vai para a casa de Garrett, e lá, ela vê que ele tem um pôster de Top Gun (Top Gun, 1986) pendurado na parede do rapaz.

A referência ao clássico começa aí, uma vez que Garrett se diz fãs de “filmes de pilotos de caça homoeróticos”, sendo Top Gun seu preferido. Em seguida há referência a outro filme, Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994), porque Erin diz ser esse seu filme favorito, e, em seguida, Garrett reproduz uma fala do longa: “Espero conseguir atravessar a fronteira. Espero encontrar meu amigo e apertar a sua mão. Espero que o Pacífico seja tão azul quanto em meus sonhos. Eu espero”.

Em seguida, e agora voltando a referência a Top Gun, os protagonistas vão à casa de Garrett e se beijam. Nesse momento a música que faz praticamente toda a trilha sonora do longa da década de 80, Take my Breath Away (Berlin), começa a tocar misteriosamente. O enigma é logo solucionado: Dan (Charlie Day), amigo de Garrett que divide o apartamento com ele, conseguiu ouvir tudo que estava acontecendo através das paredes e colocou a música para dar criar um clima para os dois.

No dia seguinte, e em um outro momento com um quê de clima no ar, Dan coloca a música Time of my Life (Bill Medley ft. Jennifer Warnes) para tocar, fazendo referência, aqui, a Dirty Dancing (Dirty Dancing, 1987).

Esses foram apenas alguns exemplos de filmes que têm referências de outros filmes, mas ainda existe muita coisa para ser explorada pelo mundo cinematográfico a fora. Então, fica a missão para você, cinéfilo, de descobrir as velhas novidades que os filmes podem nos trazer. Dessa vez, fazendo referência ao escritor Marcel Proust, “a verdadeira viagem da descoberta consiste, não em buscar novas paisagens, mas em ter olhos novos”.

Basta ver além.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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