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A ambiguidade moral cativante de “Armas na Mesa”
CINÉFILOS
01 fev 2017 | Por Jornalismo Júnior

“Você já foi normal?”
“Acho que sou apenas uma peça rara.”

Apesar do que seu título em português possa indicar, Armas na Mesa (Miss Sloane, 2016) é um estudo de personagem antes até mesmo de sua temática central (essa sim, explícita na versão brasileira): o mundo do lobby e, em particular, uma das causas que move as maiores quantidades de dinheiro e incita debates acalorados em território estadunidense, o controle de armas. Quando a personagem em questão é tão workaholic, é justo dizer que essas duas coisas se tornam indistintas facilmente.

A primeira aparição de Jessica Chastain como a protagonista Elizabeth Sloane se dá pela quebra da quarta parede, um indicativo do poder que a atriz trará à personagem em toda a duração do longa: com os olhos fixos no espectador, ela define a natureza do lobby. “Fazer lobby é sobre previsão. Sobre antever os movimentos do seu oponente e de elaborar contra-medidas. É fazer questão de surpreendê-los, e assegurar-se de que eles não te surpreenderão.” O que filme trabalhará para mostrar, a partir daí, é que não existe pessoa melhor para essa função do que a senhorita Sloane, alternando entre cenas de seu projeto mais recente e imagens de uma audiência posterior a ele, dedicada a investigar seus métodos “não ortodoxos”.

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Dada a raridade de um thriller político centrado em uma mulher — especialmente quando ela habita a área cinza da moralidade — entramos no cinema preparados para os pontos narrativos clássicos: ela é infeliz pois abriu mão de uma vida tradicionalmente feminina em prol do trabalho (como Meryl Streep em O Diabo Veste Prada); todos os seus conflitos pessoais serão solucionados pelo advento de um relacionamento romântico com um homem; sua ambiguidade moral será obrigatoriamente “corrigida”, e não mantida como um traço essencial de sua personalidade (o contra-exemplo de Jordan Belfort em O Lobo de Wall Street vem à cabeça.)

Logo no início do filme, Elizabeth faz uma mudança crucial para o enredo, deixando sua firma de grande nome (e que o obteve por frequentemente jogar do lado dos “vilões”, apesar da protagonista em particular demonstrar uma preocupação moral mínima) e partindo para uma de “boutique” chamada Peterson-Wyatt, que batalha pelo êxito de pautas mais progressistas, como a regulamentação das armas, que viria por meio do projeto de lei chamado Heaton-Harris.

Armas na Mesa busca — e, na maior parte das vezes, consegue — um equilíbrio delicado entre usar dos estereótipos para construir a caracterização das personagens — a equipe da Peterson-Wyatt é empática, sentimental e não encara as regras do jogo com malícia; enquanto aquela da primeira firma possui um cinismo inabalável — e afrouxar os limites desses mesmos tropes. Elizabeth trabalha dezesseis horas por dia com o auxílio de psicoativos e realmente não possui tempo (ou interesse) de estruturar uma vida fora da sua corrida contra o tempo para atingir o seu objetivo mais cobiçado: ganhar a todo o custo — mas o que a faz questionar as suas atitudes não é seu envolvimento com um homem, e sim ter machucado uma colega de trabalho que ela respeitava profundamente. E por mais íntegra que seja a firma Peterson-Wyatt, ela não está imune a informantes.

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O retrato que o longa faz do  universo do lobbying é dinâmico e intrigante, com um desenrolar de trama que se assemelha (principalmente devido às semelhanças na própria protagonista) a um mistério de Sherlock Holmes, e o filme ecoa as obras de David Fincher tanto em seu roteiro inteligente como em seus tons amarelados. A frieza e “podridão”, nas palavras de Elizabeth, do jogo político estadunidense é mostrado de forma direta, como na visão que ambos os lados do debate sobre armas têm das “mães da nação” como uma demográfica mal-servida pela propaganda, e não como vítimas de uma política falha.

De acordo com a proposta biográfica do filme, Jessica Chastain é responsável por dar estrutura ao longa, trabalho que realiza com um magnetismo e complexidade incomparável: o olhar do espectador segue todos os seus movimentos na tela, e a atriz é capaz de expressar todas as camadas e nuances emocionais da personagem com naturalidade. A a ausência do seu nome na lista de indicados ao Oscar de melhor atriz se torna no mínimo esquisita para quem assiste a Armas na Mesa. Apesar disso, falta no roteiro um aprofundamento das batalhas pessoais de Elizabeth Sloane, que, quando retratadas, são abordadas com brevidade: por mais que a qualidade da atuação compense de certo modo, a personagem é tão cativante e forte que saímos do cinema desejando saber muito mais sobre sua trajetória.

Armas na Mesa estreia nos cinemas no dia 2 de fevereiro. Confira o trailer:

por Bárbara Reis
barbara.rrreis@gmail.com

 

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