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A arte da Capoeira – e quase tudo que a envolve
ARQUIBANCADA
03 ago 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por Crisley Santana

A capoeira, como descrita no dossiê produzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), trata-se de uma manifestação cultural que se caracteriza por sua multidimensionalidade – é ao mesmo tempo dança, luta e jogo”. Diferencia-se de outras expressões culturais por diversos motivos. Um deles é que guarda em suas raízes muito da história afro-brasileira e, assim, apesar das modificações e demais elementos que ganhou ao longo do tempo, permanece carregando muitos aspectos do passado. Dessa forma, pode-se afirmar que, além de todas as outras denominações, a capoeira denomina-se também arte.

Origem e história

A origem da capoeira é incerta, a começar pelo próprio termo, que apresenta duas possíveis origens. Uma seria a alusão feita a um cesto que era utilizado para o transporte de aves domésticas, como galos e galinhas. A outra, é que o termo vem do tupi kapu’era. Significa “o que foi mata” (ka’a = mata e pûer = que foi). Remete à “mato ralo”, característica do terreno onde a agricultura indígena era feita, além de servir como rota de fuga para muitos escravizados.

Já a prática em si – mesmo sendo popularmente conhecida como “a luta trazida pelos escravizados africanos” –  possui, na verdade, mais complexidade em sua origem e mais de uma história possível para indicar de onde veio.

A primeira é que teria sido trazida, da África Central. Essa teoria porém, é de difícil comprovação, pois não há nenhum indício de que haja um tipo de capoeira puramente africana. Já a segunda, é que a origem da luta seria indígena, daí também o termo, mas também é outra teoria duvidosa, pois nunca nenhum grupo dos povos nativos reivindicou o reconhecimento desta história, além de não existirem documentos que provem isso. Assim, a última hipótese, e a mais aceita, é que a capoeira é uma expressão cultural afro-brasileira.

Nascida no Brasil, tendo elementos africanos incorporados, tal como movimentos de dança, a luta teria sido uma forma de proteção encontrada pelos escravizados, no período colonial, que eram submetidos a todo o tipo de violência. Dessa forma, usavam a capoeira para se proteger, mas também como uma maneira de preservar parte de sua cultura.

Mesmo após a abolição da escravidão, a capoeira permaneceu sendo praticada por algumas pessoas, mas era duramente reprimida, tendo seu termo utilizado como sinônimo de vandalismo e vadiagem, e passando a ser incluída no Código Penal de 1890, no governo do Marechal Deodoro da Fonseca. Só foi legalizada em 1937, quando o então presidente Getúlio Vargas tornou-a esporte nacional. Assim, sua prática foi permitida, porém, de forma vigiada. Isso significava que a capoeira só poderia ser praticada em locais fechados e com alvará da polícia.

Aos poucos, ela foi se popularizando e ganhando adeptos das classes altas e de pessoas brancas, já que antigamente a maioria dos praticantes eram negros e pobres. Também passou a ser objeto de estudo de muitos intelectuais e pesquisadores, o que contribuiu ainda mais para que pudesse ser vista e considerada como parte da cultura brasileira. Mas essa popularização não aconteceu ao acaso, tampouco o fato de a expressão ter se tornado esporte nacional. A capoeira tradicional foi adaptada, o que a tornou mais aceita na época. Essa nova modalidade, posteriormente, recebeu outros elementos, e atualmente existem três tipos de capoeira que são conhecidos por todo Brasil: Angola, Regional e Contemporânea.

Uma luta que envolve música, golpes únicos e muita história. (Imagem: Maria Eduarda Nogueira/Jornalismo Júnior)

Tipos de Capoeira

Capoeira Angola: Representa a tradição e a raíz da capoeira. É a expressão que mais se aproxima da forma como os negros escravizados jogavam. É descrita no site da Fundação Cultural Palmares como “uma das modalidades do esporte que alia o espírito lúdico à busca pela ancestralidade, com movimentos mais lentos”. Isso porque, a Capoeira Angola está muito ligada aos antigos rituais afro-brasileiros, caracterizados pelo Candomblé.Trata-se de um jogo que envolve mais a “malícia” do praticante, com poucos movimentos rápidos. Um dos mestres mais famosos, e responsáveis pela preservação desse tipo de capoeira e disseminação, é o Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha), responsável também pela criação do Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), em 1941.

Capoeira Regional: Foi esse o tipo de capoeira apresentado à Getúlio Vargas. Criado por Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado) e consolidada na década de 30, a Capoeira Regional conta principalmente com golpes de artes marciais e de uma antiga luta, conhecida como Batuque. Diferencia-se da Capoeira Angola também por possuir maior número de golpes e por ser um jogo objetivo, com movimentos executados de forma rápida, além de possuir níveis, uniforme branco e cordas, com cores variadas, que o praticante pode vir a receber com o passar do tempo. A busca por legitimação e aceitação social é o principal contexto que envolve a criação desse estilo, e de fato foi a modalidade que fez com que a capoeira saísse da marginalidade. Junto a essa nova expressão, Mestre Bimba também criou a primeira academia de capoeira do Brasil, em 1932, cujo nome era Centro de Cultura Física e Capoeira Regional da Bahia.

Capoeira Contemporânea: Surgiu na década de 70 e é, provavelmente, o estilo mais conhecido e o mais difundido estilo da luta. Mistura os dois tipos mais antigos da capoeira (Angola e Regional), além de possuir muitos movimentos que transformam o jogo em uma espécie de show, com expressões corporais mais evidentes, e algumas “acrobacias”, como saltos. A Capoeira Contemporânea é consequência da folclorização da cultura negra, que fora transformada em espetáculo para que pudesse ser mostrada aos estrangeiros que visitavam o Brasil, em uma época que o turismo passou a ser crescente.

É importante salientar que apesar de possuir três estilos, a capoeira no geral envolve muitos aspectos em comum, como a roda, a música, os instrumentos, os golpes e o próprio jogo, mas o enfoque que será dado sempre irá depender muito do segmento, grupo e mestre praticantes.  

Movimentos e golpes

Roda: Apesar de não ser considerada como um golpe ou movimento, a roda de capoeira é um dos aspectos mais importantes e marcantes da luta. Pode-se dizer que é quase como o ritual do jogo. Muitos mestres aproveitam o momento da roda para passar lições, tornando a um espaço importante para a prática e para o aprendizado.

Ginga: A ginga é um dos movimentos mais conhecidos da capoeira, e talvez o mais importante, por ser o primeiro que o aluno aprende. É aquele “vai e vem”, em que o capoeirista dá passos para frente e para trás, e mexe para os lados, como se estivesse dançando. Quando coloca a mão direita na frente e o pé esquerdo para trás, depois a mão esquerda à frente e o pé direito para trás, e continua nessa dança até dar algum outro golpe.

Golpes de ataque: Um dos movimentos mais famosos da capoeira é o chamado Meia Lua. Esse golpe tem, na verdade, mais de uma maneira de ser executado, podendo ser Meia Lua de compasso (que na Capoeira Angola é chamado de rabo-de-arraia), Meia Lua de Frente e Meia Lua de Costa. São todos realizados com as pernas. A Chapa é outro golpe que tem mais de uma forma de ser executado (Chapa de frente e Chapa de costa) e trata-se também de outro golpe usando as pernas. Aú (pode ser conhecido como estrela ou estrelinha) possui variações e é utilizado no ataque, assim como a Bananeira (chamado para alguns de Parada-De-Mão), movimento em que o capoeirista fica de cabeça para baixo, apoiando as mãos no chão. A Cabeçada também compõe os golpes de ataque da capoeira. 

Golpes de defesa: Movimentos como a Negativa e a Virada de Jogo são golpes de defesa da capoeira, e muitos outros golpes variam desses dois. Assim como nos golpes de ataque, alguns dos golpes de defesa também são realizados “fora” do chão.

Os golpes e movimentos aqui listados são alguns dos mais comuns. A verdade é que a capoeira conta com uma porção enorme deles, sendo difícil, portanto, a nomeação de todos. Além disso, por ter outras lutas incorporadas em sua composição, a Capoeira Regional pode apresentar uma variedade maior de golpes que a Capoeira Angola, por exemplo, apesar de alguns serem comuns a ambos os estilos. A velocidade em que são executados também difere, já que a Capoeira Angola é mais “maleandreada” e mais lenta, enquanto a Regional possui maior caráter de luta.

Instrumentos e música

Um dos aspectos que mais diferencia a capoeira de qualquer outra luta é o fato de esta ter, como parte fundamental, utilização de música e instrumentos em sua essência. O teor das músicas envolvem muitos temas como a religiosidade e a ancestralidade, por exemplo. Além de contar muitas histórias sobre a capoeira, servem para homenagear grandes mestres e determinarem o ritmo do jogo. É usada também como forma de dar algum recado, ou lição para os alunos.

Existem, basicamente, três estilos de música na capoeira, são eles: ladainha, chula e corrido, cada qual cantado em determinada parte do jogo. A ladainha, por exemplo, se dá antes de iniciar a partida, na Capoeira Angola. Os cantos da chula são respondidos em coro e apenas com os cantos corridos se inicia o jogo.

Já os instrumentos utilizados, podem variar de acordo com a vertente da capoeira, apesar de serem conhecidos por todos. Berimbau existem três: Gunga, que possui tom grave; berimbau Médio, que de fato, possui tom médio entre o grave e o fino; e o chamado Viola, que apresenta tom agudo. O que faz com que o berimbau altere seu tom, é a cabaça. Quanto maior a cabaça mais grave é o tom.  

Outros instrumentos usados na roda de capoeira são: pandeiro, atabaque, agogô e reco-reco. A modalidade que mais preservou a questão musical foi a Capoeira Angola, que inclusive utiliza os três tipos de berimbau. Quando foi criada a Capoeira Regional, nela foram usados somente dois pandeiros e o berimbau médio, mas atualmente alguns grupos de Regional usam também os outros instrumentos, além dos preservados por Mestre Bimba.

Atualmente

Depois de criada a primeira academia de capoeira, elas se espalharam e hoje existem inúmeras por todo o Brasil. Além de muito conhecida em todas as regiões do nosso país, sabe-se que mais de 100 países possuem conhecimento acerca dessa arte.

Porém, ainda existe muito preconceito para com os praticantes de capoeira, e um reconhecimento que é deveras superficial e contraditório, já que em 2008 a luta foi reconhecida como bem cultural da humanidade, pelo IPHAN.

Ainda, em 2014 obteve a roda de capoeira o título de patrimônio cultural imaterial da humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Em conversa com o Arquibancada,  a Professora Andressa Marques (conhecida como Dedê), que ministra aulas de Capoeira Angola no Centro Cultural do Butantã (CCB), falou sobre a capoeira e sua expressão, e deixou evidente o quanto falta para que a luta chegue a ser legitimada de fato.

”Quando você vê o título de patrimônio cultural imaterial da humanidade parece que é muito ‘status’, mas a verdade é que a capoeira ainda sofre muito preconceito, principalmente no Brasil. A valorização que é dada em outros países é muito maior. O grupo que eu faço parte tem núcleos em outros países e eu já tive a experiência de dar aulas na Suécia e lá é outra história. Você consegue viver bem de capoeira porque existe uma valorização pelo conhecimento de cultura que você tem”, afirmou.

A professora disse ainda que a maioria dos mestres, no Brasil, não são capazes de viver dignamente somente com o dinheiro que recebem por dar aulas de capoeira: “se matam para cobrar uma mensalidade que só dá para pagar o aluguel da academia e comer. Só. Aqui não tem valor. Se as pessoas vão fazer uma aula de yoga, não ligam de pagar 200, 300 reais por mês para fazer duas ou três aulas por semana, mas se você cobrar o mesmo valor para alguém fazer duas aulas de capoeira por semana as pessoas acham um absurdo”.

Dedê contou também parte da história do Mestre João Grande, um dos mais conhecidos na Capoeira Angola: “atualmente ele mora em Nova York e não volta para cá e nem vai voltar. Lá ele mora no centro, ganha um bom salário e ainda recebeu o título de Doutor Honoris Causa (título dado por universidades à pessoas que, geralmente, não tem graduação, mas se destacam na área em que atuam). Aqui ele trabalhava como frentista e passava fome mesmo”.

Perguntada sobre os motivos que levam ao permanente preconceito contra capoeira Dedê disse acreditar que é por causa da história que a luta carrega.“história de negro, de escravos, de afro-brasileiros. O Brasil ainda tem preconceito, ainda tem racismo e tudo que vem da cultura popular não tem valor”.

Apesar dos pesares, a capoeira vem crescendo e é inegável que faz parte da cultura e origem do brasileiro. A modalidade é muito rica em toda sua história e demais características, e é quase impossível reunir tudo o que esta é e representa.

Arquibancada
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