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A ascensão da moda sustentável latino-americana
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26 ago 2020 | Por Aline Novakoski (alinenovakoski@usp.br) e Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br)

“O que acontece com a indústria [da moda] quando todos se cansam de venerar pessoas brancas ricas?”

Esse é um dos vários questionamentos que a jornalista estadunidense Amanda Mull apresenta em seu artigo para a revista cultural The Atlantic sobre as crescentes mudanças nas noções básicas de fashion. Para melhor compreender a questão, é importante discorrer um pouco sobre a história da moda.

A moda, na verdade, é decorrente de um processo de distinção social em virtude da sedentarização humana. As civilizações antigas, em sua maioria, possuíam códigos de vestimentas particulares a cada posição hierárquica e esse mecanismo permaneceu por toda a história.

Com a expansão do colonialismo europeu, os padrões estéticos e valores caucasianos foram inseridos no imaginário popular de outras regiões. Coincidentemente, a Revolução Industrial propulsionou uma produção têxtil massificada e indiferente aos impactos ambientais, condição dominante até a contemporaneidade.

De acordo com um estudo da fundação Ellen MacArthur, menos de 1% do material usado para produzir roupas é reciclado. Em razão disso, mais de 100 bilhões de dólares são perdidos em materiais todos os anos. Esse é um dos efeitos da cultura de desperdício difundida pelos padrões de consumo que criaram o conceito de Fast Fashion.

O Fast Fashion corresponde a um padrão de produção e consumo pautado na moda rápida, momentânea. Peças de roupa são compradas em temporadas para serem descartadas ou simplesmente preencherem armários. Um efeito desse modelo de produção industrial é o elevado potencial de poluição. Atualmente, as indústrias de tingimento de tecidos e finalização são das indústrias mais quimicamente intensivas do planeta, sendo responsável por valores em torno de 15 a 20% da poluição das águas

Em virtude de novas demandas de consumidores ecologicamente conscientes, tendências de mercado variantes e escassez de recursos, um novo movimento dentro da moda ganhou força nas últimas décadas: o Slow Fashion. Esse movimento é um contraponto ao padrão de consumo anterior e tem como princípios: prezar pela diversidade, pelo local em relação ao global; promover consciência socioambiental; contribuir para a confiança entre produtores e consumidores; adotar preços reais (com custos sociais e ecológicos incorporados) e manter sua produção em pequenas escalas.

Esse modo de produção é capaz de impactar positivamente países subdesenvolvidos ao apresentá-los uma forma de valorização da mão de obra local e características típicas regionais. A moda sustentável é, em sua essência, uma transgressão ao mercado eurocêntrico monopolista. 

Dessa forma, a América Latina é capaz de estabelecer com a moda sustentável uma relação de cooperação mútua. Ao enfatizar as técnicas de produção locais e as diversidades culturais presentes nas vestimentas, a região é privilegiada por essa nova tendência do mundo da moda, e é possível viabilizar um desenvolvimento sustentável e econômico para os países da região.

 

A moda limpa na América Latina    

Em setembro de 2015, líderes mundiais decidiram, na sede das Nações Unidas, um plano de ação para erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir que as pessoas alcancem a paz e a prosperidade. Esse plano foi denominado Agenda 2030. Dentre os 17 objetivos listados nesse planejamento, o 12º prioriza consumo e produção responsáveis, tendo em vista promover padrões de sustentabilidade em todo o mundo.

Na América Latina, há uma série de projetos da indústria da moda que se engajaram nessa meta. Um exemplo é o movimento internacional de moda sustentável na América Latina MOLA (Moda Latino-americana). Parte do programa Patrimônio em Movimento da fundação uruguaia Entre Soles y Lunas, ele é definido como um meio promotor de networking, desenvolvimento e reconhecimento de indivíduos e iniciativas ligadas à cadeia produtiva da indústria têxtil e de moda sustentável latino-americana. Com uma equipe composta por indivíduos de diversos países da região, entre suas atividades há a realização de eventos (palestras, workshops, conferências, entre outras atividades focadas em moda sustentável)  pela denominada Latam — termo utilizado para se referir a América Latina — e a manutenção de uma plataforma com produtores regionais a fim de dar-lhes maior visibilidade.

Outro caso recente é o MODA.DOC, projeto independente do modelo brasileiro Rodrigo Muller que tem como premissa básica “divulgar e promover as soluções reais já existentes para os problemas da indústria da moda”. Por meio de entrevistas com representantes de povos nativos, designers, elaboradores de políticas e celebridades, a base do projeto é a produção de um filme documentário acerca da riqueza cultural latino-americana em matéria de artesanato e moda.

Exemplo de tecido fotografado para o projeto MODA.DOC. [Imagem: Divulgação/Rodrigo Muller/MODA.DOC]

Exemplo de tecido fotografado para o projeto MODA.DOC. [Imagem: Divulgação/Rodrigo Muller/MODA.DOC]

Entrevistado pela equipe do Sala33, Muller reforça: “A América Latina não começou em 1500, ela já existia bem antes disso”. Valorizar os métodos próprios da região é uma forma de desenvolvimento sustentável. “A América Latina deve estar unida, porque a gente tem uma história muito parecida de um período imperial europeu e depois de um colonialismo cultural americano”.

Em um artigo para a Forbes sobre a edição do ano passado da Latin American Fashion Summit (LAFS), um evento que impulsiona o desenvolvimento profissional de designers de moda latino-americanos, a jornalista estadunidense de fashion e estilo de vida Rebecca Suhrawardi pontua como o eixo de moda Nova Iorque-Londres-Milão-Paris passa a ser contestado por novos mercados. China, Leste Europeu e África observam um significativo crescimento em sua influência nessa indústria, mas o caso latino-americano é singular.

A moda na América Latina, diferentemente de outros mercados, se estabelece com uma presença forte de circuitos que ajudam marcas a construírem sua reputação e espaço. Suhrawardi denota como a LAFS não foi pautada em passarelas e modelos, mas sim em discussões sobre apropriação cultural, análises do cenário global de varejo e, também, sustentabilidade.

 

Como funciona a moda sustentável?

A moda sustentável consiste no uso de técnicas, tecnologias e metodologias para a confecção de roupas que causem o menor dano possível ao meio ambiente. As vestimentas carregam os ideais eco-friendly — amigável ao meio ambiente — por todo o processo produtivo: as fábricas, por exemplo, exigem menos agrotóxicos na plantação, o mínimo de carbono possível na produção e há preocupação com a pegada de carbono do transporte até o consumidor. Outra preocupação constante é o uso de água em todo o processo.

Alguns exemplos de materiais usados nas confecções são o algodão orgânico, a garrafa PET, o bambu e uma planta chamada juta, encontrada na Amazônia. A utilização desses materiais causa um impacto mínimo nos ecossistemas, porém as empresas estão sempre tentando achar melhores tecnologias e produtos. 

Além dos materiais, existem também práticas comuns da moda sustentável, como o uso de corantes e tinturas naturais, colas menos tóxicas, produção de roupas com alta durabilidade, peças feitas com tecido reciclado e fibras orgânicas. A produção é majoritariamente vegana (sem testes em animais ou uso de produtos derivados dos mesmos) e também repensa o consumo quando incentiva o reuso, a troca e os concertos em detrimento do descarte das roupas — uma oposição ao Fast Fashion, que não tem essas pautas como prioridade.

A moda sustentável, apesar de sempre prezar pelo melhor do meio ambiente, não é plana: dentro de sua produção existem diversas escalas. Essas vão de confecções 100% ecológicas como a da marca Flavia Aranha até diversos outros que usam algum tipo de plástico, mesmo que mínimo, em sua produção. Independente do quão sustentável é, o discurso da moda ética tenta abranger todas as marcas que produzem localmente, respeitam a natureza e estão em constante evolução para o alcance da sustentabilidade.

Foto de fábrica de linhas sustentáveis. [Imagem: Divulgação/Rodrigo Muller/MODA.DOC]

Foto de fábrica de linhas sustentáveis. [Imagem: Divulgação/Rodrigo Muller/MODA.DOC]

Luiza Tamashiro, designer de moda e publicitária, luta pela desconstrução do mundo da moda e por um mundo mais sustentável e plural, que olhe para a diversidade de corpos. Ela relata um contraponto importante para a discussão: “A moda sustentável acabou ficando na discussão sobre materiais, e eu sempre abordei muito a questão de que enquanto não estivermos incluindo todas as pessoas, não estamos discutindo sustentabilidade, pois ela é sobre pessoas, e não sobre materiais”. 

Luiza acrescenta que a moda sustentável não faz sentido sem a inclusão. Hoje os designers olham cada vez mais para o consumidor a fim de entendê-lo, e quando isso é discutido, o design universal, também chamado de design acessível, torna-se real Os padrões P, M e G são derrubados e os serviços começam a ser pensados no consumidor, sejam estes pessoas gordas, com deficiência, entre outras. Melhorar a vida dessas pessoas é sustentabilidade, e sem essa pluralidade (de raça, classe, gênero ou deficiência) a moda sustentável não funciona.

 

O aspecto cultural do consumo da moda sustentável

Antes de ser uma questão de materiais e reutilização, a moda sustentável é sobre conscientização e cultura de consumo. Concentrada em nichos sociais eco-conscientes e de poder aquisitivo mais elevado, a popularização da moda ética é dos maiores dilemas dessa nova indústria. Ela é considerada pouco acessível devido a seu preço mais elevado e difusão menor do que a Fast Fashion, porém há muito a se considerar nessa separação.

“Normalmente, se destina muita atenção ao campo social. O econômico acaba sendo esquecido, mas precisamos debater mais sobre precificação”, disserta Luiza Tamashiro. De acordo com ela, grande parte dos lucros são direcionados às sessões administrativas e de comunicação das empresas em detrimento dos trabalhadores manuais que, muitas vezes, não sabem o verdadeiro valor de suas peças enquanto produtores legítimos. “A gente ainda está na caminhada para a construção de uma indústria funcional. Os custos não beneficiam quem deveria ser beneficiado”. Agregar o valor real a tais produções seria permitir que se atingisse um público maior, de acordo com a designer.

Por sua vez, Rodrigo Muller argumenta: “Creio que os produtos da moda sustentável serão mais acessíveis com o tempo”. Técnicas e metodologias limpas e orgânicas devem se consolidar de forma progressiva, mas há principalmente a consideração sobre força de trabalho e valor real agregado. “Eu acho que a gente se acostumou com o barato que é desonesto. Produzir roupas em países que não têm leis trabalhistas nem ambientais é mais caro para o meio ambiente e o futuro global do que um produto sustentável”.

No Brasil, o projeto Moda Livre da ONG Repórter Brasil investiga a relação de marcas com o trabalho escravo em território nacional. No final de 2018, mais de 30 das marcas investigadas estavam envolvidas com trabalho escravo. Além do website, os dados podem ser visualizados pelo app disponível tanto na plataforma Google Play quanto na App Store. Todavia, a precarização do trabalho é um fenômeno global e marcas internacionais têm sido questionadas por suas abordagens exploratórias e predatórias.

Desde os anos 1990, período em que a Nike foi acusada de utilizar trabalho infantil em suas indústrias na Ásia, impera um discurso de desconfiança com a abordagem de tais empresas e suas cadeias produtivas, ainda que de forma branda. Boicotes ao Fast Fashion raramente possuem um impacto financeiro significativo, mas a insatisfação popular foi motor para algumas mudanças institucionais em favor de medidas de justiça social e proteção ao meio ambiente. 

Entretanto, recentemente, uma polêmica atingiu a marca H&M devido ao uso de rótulos “conscientes” em uma parcela de suas mercadorias. A categorização foi considerada equivocada, mas não mentirosa, pois abarcava uma série de diferentes medidas sustentáveis em uma única categoria sem explicação exata. A medida é questionável pois, por exemplo, roupas de algodão orgânico e poliéster reciclado estavam sob a mesma etiqueta, sendo que o primeiro se decompõe e o segundo nunca será biodegradado.

“Não há nada mais sustentável do que aquela roupa que já existe”, reforça Luiza Tamashiro. Preferir uma roupa já existente possui um impacto ambiental menor do que contribuir para a criação de uma outra peça. Consequentemente, brechós, atividades de clothing swap 𑁋 “troca de roupa” em tradução literal 𑁋 e transformação de peças de roupa se firmam como técnicas contrárias ao desperdício. 

Não apenas na esfera ambiental, mas também na justiça social, são testemunhadas uma série de medidas duvidosas. Marcas têm se demonstrado abertas a dar um passo em direção à representatividade e introduzir modelos com maior diversidade étnica em suas campanhas. Contudo, pouco ou nenhum espaço existe para mudanças internas. Cargos administrativos e técnicos são predominantemente caucasianos, o que gera uma noção expositiva de inclusão que não compactua com a realidade.

“As opressões são interligadas”, afirma Luiza Tamashiro. “A opressão que atinge pessoas pretas, LGBTQI+, deficientes ou gordas possui a mesma raiz estrutural”. Para ela, é essencial que esses movimentos se aproximem para combater tais condições, até mesmo porque existem indivíduos que integram mais de uma dessas minorias. “A quem beneficia que essa desconstrução seja fragmentada?”.

Desfile organizado pelo Brasil Eco Fashion Week da primeira grife de moda índigena, We'e'ena Tikuna. [Fonte: Reprodução/Instagram]

Desfile organizado pelo Brasil Eco Fashion Week da primeira grife de moda índigena, We’e’ena Tikuna. [Fonte: Reprodução/Instagram]


O valor da América Latina para a moda

Hoje, o Fast Fashion e a moda de luxo 𑁋 influência primordial para as tendências de consumo da moda de varejo 𑁋 se mascaram de marcas sustentáveis a fim de manterem sua popularidade e seguirem a tendência geral de eco-consciência. Com alterações superficiais, tais empresas ainda representam hierarquias e aristocracias antigas e abrem pouco espaço para um verdadeiro desenvolvimento de outras regiões.

A competição, consequentemente, é desigual e o mecanismo do modelo de consumo se fortalece. Grandes empresas detentoras de capital exploram trabalhadores e conseguem vender produtos mais baratos e acessíveis do que iniciativas locais que necessitam uma maior taxação para seu desenvolvimento. É paradoxal, pois não se pode esperar que indivíduos com baixo poder aquisitivo – dos quais um dos seus prazeres cotidianos é a compra de alguma nova peça de roupa – tenham desenvolvimento local e sustentável como prioridade de suas vidas. Mais ainda, é controverso convencê-los de que peças alternativas, pouco conhecidas e mais caras, que além de tudo fogem do imaginário eurocêntrico consagrado há tanto, são moralmente melhores.

De qualquer forma, a moda sustentável tem conquistado cada vez mais espaço e significância para essa indústria. Suas premissas básicas introduzem uma nova noção de mundo para um conceito que, desde sua primeira aparição, sempre foi tão assimilado à dominação. 

Caso o planeta primasse pela moda ética e pela diminuição da dominação caucasiana na moda, como Mull afirma em sua matéria, “seria um mundo em que mais pessoas compartilham poder, e em que esse poder não está atrelado ao monopólio de riquezas e recursos”. 

A questão é se as mesmas figuras brancas e ricas, que agora se escondem por trás de representatividades vazias e sustentabilidades meramente instrumentalizadas, continuarão sendo imperceptivelmente cultuadas, ou se a sociedade abrirá os olhos para uma nova realidade.

 

Imagem de capa: [Imagens para a colagem: Instagram @brasilecofashionweek]

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