Home Moldura A Biblioteca Brasiliana de José Mindlin e Guita
A Biblioteca Brasiliana de José Mindlin e Guita
Moldura
01 jun 2013 | Por Jornalismo Júnior

José Mindlin, quando chegou ao ambiente universitário e vislumbrou Guita, à época sua colega, cercada por rapazes e envolvida nas discussões sobre partidos e movimentações partidárias, resolveu aventurar-se “na roda” e arriscou: “Tudo isso é bobagem. Se você quiser um bom partido, estou aqui.” Anos mais tarde completou: “Ela me levou a sério e estamos juntos há 61 anos.”

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Foto: Francisco Emolo/Jornal da USP

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Foto: Francisco Emolo/Jornal da USP

O advogado, empresário e bibliófilo brasileiro, junto de sua Guita, possuía mais de 30 mil títulos, dos mais variados, posteriormente doados à Universidade de São Paulo, que designou o espaço da biblioteca chamada hoje de Brasiliana Guita e José Mindlin. O objetivo de Mindlin com essa doação generosa? “O vírus do amor ao livro é incurável, e eu procuro inocular esse vírus no maior número possível de pessoas”.

O curioso que adentrar o espaço da biblioteca Brasiliana será recebido com estas e inúmeras outras falas de José Mindlin. São vídeos da exposição permanente Não Faço Nada Sem Alegria, frase de Montaigne, que José costumava repetir e que se tornou ex libris – expressão latina que indica propriedade – da biblioteca. Nesses vídeos, o bibliófilo conta, de maneira leve e envolvente, eventos passados, pequenas preciosidades, sua trajetória, sua vida. E quem não se encantaria com um apaixonado por livros? Em outro momento dos vídeos, ouve-se de sua própria boca, a confirmação da importância das suas paixões. Em primeiro lugar, sua família, em segundo, os livros, em terceiro, os vinhos. O encantamento vem de detalhes: saber como se consolidou a amizade com Carlos Drummond de Andrade, descobrir as peripécias e dificuldades de ilustrar um livro de cartas inéditas de Mário de Andrade, descobrir em Guita outra apaixonada por livros, muito preocupada com a conservação das obras.

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O espaço também ilustra a evolução do livro, inclusive com um modelo real de tipos móveis, invenção do pai da imprensa, Gutenberg, recriando a página de rosto da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Os modernos tablets e e-readers também têm espaço na sessão, que foi nomeada A Cultura do Livro. Aliás, acompanhar o espaço da exposição podendo navegar em tablets individuais com informações extras, ler as informações dispostas nas paredes e assistir aos vídeos é, sem dúvida, mais uma maneira de cativar visitantes diversos, utilizando as multimídias, agregando conhecimento, tal qual um livro, apelando à curiosidade do público.

O acervo, formado ao longo de 80 anos, investiga as áreas de ciência, história, humanidades e atrai pesquisadores e estudiosos dos temas, desde que a biblioteca ainda era abrigada na casa de José e Guita. A coleção continuou crescendo, mesmo após a cessão total das obras de Mindlin, devido a novas doações que continuaram vindo e a autorização da biblioteca para mais verbas em aquisições. A biblioteca, por isso, é de criação do bibliófilo, porém não se restringindo a ele – e cresce um pouco mais a cada dia.

No momento da escolha do local da construção da biblioteca, projeto de Eduardo de Almeida e de Rodrigo Mindlin Loeb, foi programada uma pequena visita aos espaços possíveis de se construir a Brasiliana, porém, quando José Mindlin vislumbrou o local no qual ela se encontra atualmente, perguntou “Por que não aqui?” O espaço, dedicado inicialmente à Faculdade de Direito, estava vago desde o momento em que a Faculdade decidiu preservar-se no Largo São Francisco e não migrar para o Campus da Capital por motivos históricos e urbanísticos. O propósito do projeto seria, segundo o desejo de Guita e de José, preservar a coleção, evitando que o conjunto das obras sobre o Brasil se dispersasse. E, assim, a Brasiliana foi construída.

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O prédio, que à luz do dia assemelha-se a um imenso bloco hermético, foi projetado de modo a deixar a iluminação natural adentrar o ambiente, numa estrutura porosa, perceptível apenas àquele que ingressar no edifício. A grandiosidade da coleção fica por conta do imenso saguão, que permite a visão dos três andares de estantes de livros, separadas do visitante por paredes de vidro.

Em 25 de março de 2013, o espaço da biblioteca foi aberto pela primeira vez ao público geral, que pode conferir a exposição Não Faço Nada Sem Alegria. O acesso aos livros físicos, no entanto, passou a ser permitido a partir do dia 2 de abril do mesmo ano, inicialmente no horário reduzido de 13h às 17h.

Além disso, através do projeto de democratização do acesso à informação promovido pela direção da biblioteca, uma parte do acervo já está disponível para consulta pública no site da instituição. O projeto obteve apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo), da Petrobras e do BDNES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social).

por Ana Paula Lourenço e Juliana Pinheiro Prado
carvalho.ana37@gmail.com e julianapinheiroprado@gmail.com

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*