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1 ano depois de Jorge Jesus: a busca por treinadores estrangeiros
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24 nov 2020 | Por Vinícius Byczkowski (viniciusbyczkowski@usp.br)

Os resultados do trabalho de Jorge Jesus no Flamengo em 2019 revolucionaram o mercado de treinadores do futebol no Brasil. Campeão do Campeonato Brasileiro e da Copa Libertadores da América, Jesus adotou no Flamengo um futebol muito mais ofensivo do que o apresentado pelos elencos de Corinthians e Palmeiras campeões nas quatro temporadas anteriores. Em apenas 29 jogos sob o comando do português no Brasileirão, o Rubro-Negro traçou um estilo de jogo com uma linha de marcação alta e muita criatividade no setor ofensivo, marcando 70 gols, mais do que os últimos três elencos campeões marcaram no campeonato inteiro.

Após a temporada de ouro do Flamengo, outros times brasileiros abriram seus olhos para o mercado internacional de treinadores. O Internacional contratou o argentino Eduardo Coudet, o Atlético Mineiro contou com o venezuelano Rafael Dudamel e hoje Jorge Sampaoli é o dono do cargo, o Santos começou a temporada sob o comando do português Jesualdo Ferreira e o próprio Flamengo buscou o espanhol Domènec Torrent,  após a ida de Jesus ao Benfica. No final do primeiro turno, mais dois portugueses se juntaram ao time de técnicos estrangeiros: Ricardo Sá Pinto assumiu o Vasco e Abel Ferreira foi anunciado pelo Palmeiras.


Nova onde de contratações é tendência em outras ligas

Os dados, à primeira vista, podem parecer preocupantes. Porém, essa onda de contratações de treinadores estrangeiros é uma nova fase pela qual o futebol brasileiro está passando e pela qual outras ligas importantes também passaram. O segundo turno do Brasileirão começou com 25% dos times comandados por técnicos estrangeiros, marca que a Premier League, da Inglaterra, alcançou já em 2004. Ainda na Europa, no começo de 2020, por exemplo, 7 dos 18 times do campeonato alemão eram comandados por treinadores de fora, e a Ligue 1, da França, contava com mais seis estrangeiros. 

A busca por profissionais de outros países parece, portanto, ser uma tendência comum entre várias ligas do mundo todo. É compreensível que as diretorias procurem por profissionais cada vez mais qualificados, mesmo que estes estejam fora do mercado brasileiro. Por outro lado, a desconfiança dos clubes no trabalho de técnicos daqui e a precarização da profissão de treinador no Brasil não pode ser ignorada.


Condições de trabalho

No futebol brasileiro é comum, por conta do grande volume de partidas e a pressão vinda da torcida, que um novo treinador tenha que apresentar bons resultados cedo. Segundo Felipe Schmidt, jornalista do Globo Esporte, a diferença entre o trabalho de um técnico estrangeiro e um técnico brasileiro é o tempo. Enquanto um treinador de fora recebe mais tempo para colocar em prática sua filosofia de jogo, um brasileiro precisa dos resultados imediatos para se manter no cargo: “Os brasileiros não têm respaldo (…), trabalham pressionados, abrem mão de convicções e passam a jogar pelo resultado. Isso funciona no curto, mas sempre será exposto no longo prazo”, aponta Schmidt.

E o tempo de trabalho parece, mesmo, ser determinante para o desempenho de um treinador. Logo no terceiro jogo de Jorge Jesus no comando, o Flamengo foi eliminado pelo Athletico Paranaense da Copa do Brasil, o que criou desconfiança por parte da torcida quanto ao trabalho do português. A decisão de proteger Jesus e dar a ele tempo de trabalho para colocar em prática sua estratégia de jogo foi crucial para as conquistas que fecharam a temporada. 

Enquanto isso, o Coritiba, por exemplo, que terminou o primeiro turno de 2020 na zona de rebaixamento, já foi comandado neste ano por três técnicos diferentes e outros dois interinos. Segundo o portal Rotatividade dos Técnicos, do Globo Esporte, o tempo médio de trabalho de um treinador no Brasil não chega a seis meses.


Mercado de técnicos brasileiros
 

A situação atual do mercado de treinadores brasileiros também tem se tornado motivo para a procura de profissionais fora do Brasil: faltam nomes de peso prontos para serem contratados. Muitos dos técnicos mais renomados têm seu cargo estabilizado, e técnicos vitoriosos dos últimos anos, como Jesus e Carille, deixaram o Brasil para trabalhar em outras ligas (portuguesa e saudita, respectivamente). 

O Corinthians, depois que dispensou Tiago Nunes, viveu uma sequência de sete jogos sob o comando do interino Dyego Coelho até finalmente contratar Vagner Mancini, que já estava empregado no Atlético Goianiense. Algo semelhante aconteceu no Palmeiras: após a saída de Luxemburgo, a diretoria palestrina passou a procurar por nomes fora do país, já que as ofertas em território nacional não agradavam. 

A procura por um novo técnico, portanto, tem se voltado para fora. Mesmo as torcidas, muitas vezes responsáveis por influenciar na derrubada de um treinador em má fase, têm levantado, ultimamente, nomes estrangeiros

Não tem nada de errado em procurar por profissionais cada vez mais qualificados. É enriquecedor para o futebol brasileiro que técnicos de outras ligas venham trabalhar aqui e coloquem em prática novos estilos de jogo, mais ofensivos do que os que se via nos anos anteriores. Jorge Jesus deixou um legado importante e avalizou a contratação de estrangeiros, mas, mesmo assim, não podemos esquecer da competência dos técnicos brasileiros da nova geração. 

Durante as últimas semanas, Internacional e Flamengo anunciaram o desligamento dos seus respectivos treinadores, apesar dos dois times apresentarem alto aproveitamento e estarem na disputa direta pelo título brasileiro. 

A contratação de Rogério Ceni para o Flamengo significou uma nova chance dada por um grande clube a um técnico brasileiro da nova geração. Cabe, agora, esperar e avaliar a postura da torcida e da diretoria quanto ao trabalho do treinador. Se ganhar tempo, Ceni, com as peças que tem à disposição, poderá repetir, na Gávea, o excelente sistema defensivo que aplicou no Fortaleza, a melhor defesa do campeonato até sua saída. Agora, se trabalhar com o cargo em jogo, pode ter que abrir mão de seu estilo de jogo e não atingir as expectativas dos flamenguistas.

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