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A Chegada: Quando chegadas doem mais do que partidas
CINÉFILOS
12 dez 2016 | Por Jornalismo Júnior

Isso não é um começo. Como se sabe quando uma história começa? Ou termina? Narrativas, em suas formas puras, não admitem arestas definidas. Causa e efeito são meras convenções. Pense nas suas memórias. Elas são voláteis, na primeira vez elas são uma, na segunda, são outra. A ordem que lhes damos é a ordem que lhes damos. Essa linearidade deve muito a nossa linguagem. Nós a moldamos, sim, mas esquecemos o quanto ela nos molda. Sujeito, verbo, predicado. Escrevemos assim, pensamos assim, agimos assim.

Imagine, agora, uma linguagem diferente. Uma igual a nossas lembranças, sem começo, nem meio, nem fim. Isso implica uma percepção completamente distinta da realidade. A Chegada (Arrival, 2016) nos apresenta um vislumbre dessa percepção.

Louise Banks é uma linguista renomada. Numa manhã, na universidade, sua aula é interrompida pela notícia de 12 OVNIs imensos estacionados pela Terra. Não demora muito até o exército americano procurá-la. Eles apresentam-lhe uma gravação de grunhidos, o primeiro contato de Louise com a língua extraterrestre. Ela aceita, relutante, ir ao local de uma das naves, tentar descobrir o propósito dos visitantes. Com o auxílio do físico Ian Donnelly, a linguista precisa estabelecer comunicação com os alienígenas, antes que a temeridade de seu governo leve à violência.
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Cedo, Banks percebe que a melhor maneira de entender a língua extraterrestre é pela escrita. Os seres misteriosos mostram seus símbolos circulares. Ela começa a estudá-los e a entender que, diferente de nós, os alienígenas se comunicam de maneira não-linear. A leitura dos círculos independe de ordem, sua compreensão requer uma abordagem holística.

Durante a pesquisa, à medida que Louise se envolve nos meandros do idioma, sua mente se abre para uma apreensão elevada do tempo. A montagem entrecorta cenas de Louise com sua filha em diferentes momentos, conferindo o peso dramático de se experienciar, em uma fração de segundos, os picos de alegria e os abismo do luto. O espectador é inundado pela carga emocional, pois acompanha o progresso de Louise pelos olhos dela. A habilidade de Denis Villeneuve em articular perspectivas de terceira, segunda e primeira pessoa, notável em seus outros filmes, é presente de maneira muito perspicaz em A Chegada.

O diretor apresenta uma ficção científica que figura ao lado do clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey). A forma das naves, imponentes, de um material rochoso preto, inevitavelmente remete ao monolito de Kubrick. O ritmo pausado, com planos contemplativos emocionantes, embalados pela imersiva trilha sonora de Jóhann Jóhannsson mantêm o público em um misto de angústia e curiosidade. Os movimentos de câmera têm seu significado próprio para a trama, reiterando o efeito que a obra transmite. A interação entre Amy Adams, como Louise, com Jeremy Renner, no papel de Ian, é um eixo essencial, porém implícito na narrativa. Mostra o envolvimento de duas perspectivas da realidade, a ciência exata de Ian com a ciência da linguagem de Louise. Os dois atores exercem um trabalho delicado, doando a humanidade que o filme demanda. Adams, em especial, demonstra ser uma das melhores atrizes da atualidade.
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O roteiro, baseado no conto Story of Your Life, de Ted Chiang, escrito por Eric Heisserer traz à tona reflexões filosóficas que reverberam para além da sala de cinema. Em uma primeira camada, a narrativa mostra como a humanidade está fragmentada. Entre tantas nacionalidades, culturas e interesses particulares não vemos mais uns aos outros. Aquilo que nos é comum, em termos antropológicos, a linguagem, há muito é tomado mais como um motivo de desavença que de conexão. Guerras, da mesma forma que deflagram-se por palavras, podem ser evitadas por elas.

Mais a fundo, o tempo é o fator fundamental da narrativa. Nossa relação com ele é ambígua. Somos tão presos a ele, mas também o tratamos com tanta negligência. A verdade é que a maioria de nós não sabe como tratá-lo, o que ele leva, e o que traz. Por isso a catarse do filme é tão poderosa. Somos forçados a encará-lo, em toda sua magnitude e incompreensão.

Na correnteza desta ideia, vemo-nos impotentes. Se você dobrasse o seu futuro no presente, soubesse de cada queda e cada ferida insuportável que a vida te dará, ainda assim, viveria toda a angústia? Sabendo também de todo segundo de felicidade, que de segundo só se vê no relógio, porque no espírito, e mesmo na carne, sente-se como se fosse a eternidade, você escolheria continuar? Se a resposta não te satisfez, pergunte-se, então, como sua história começa? Como termina? Isso não é um final.

Trailer: 

por Daniel Miyazato
danielmiyazato@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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