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“A ciência vale a pena”

Muito além da conversa de botequim, Ricardo Galvão defende Inpe e autonomia científica na USP Lecture

Horizonte de Eventos
19 ago 2019 | Por Amanda Mazzei (amandamazzei@usp.br)

“Vale a pena ser cientista. Só com inovação acionada pela ciência nosso país será de fato independente.” Esta foi a visão sustentada por Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ao longo das duas horas em que conversou com um auditório cheio no prédio da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP). O evento foi gratuito, começou às 14 horas desta sexta (16), e foi organizado pela Pró-Reitoria de Pesquisa da USP. 

Usp Lecture - Palestra do professor Ricardo Galvão - Autonomia e Liberdade Científica. Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

USP Lecture – Palestra do professor Ricardo Galvão – Autonomia e Liberdade Científica. Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

O Painel da Globo News do último dia 10 foi assunto frequente durante todo o evento. No programa de televisão o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que debatia com Galvão e Marcello Brito, diretor executivo da Agropalma, desqualificou o trabalho do Inpe e afirmou que as instituições científicas brasileiras estão todas “aparelhadas ideologicamente”. Quando questionado na USP Lectures sobre a fala do ministro, Ricardo Galvão negou que exista qualquer tentativa de instrumentalização política da ciência: “É uma acusação completamente vazia, de uma infantilidade enorme daqueles que não só não acreditam na ciência, mas querem frontalmente atacá-la. Em todas as instituições de pesquisa do país, os pesquisadores entram por concurso público, com grande concorrência. Não existe uma forma de colocar influência política nisso.”

Em coletiva de imprensa, Galvão afirmou que a ciência sempre sofreu pressão de poderosos. “Os resultados científicos muitas vezes incomodavam alguém. Quando os cientistas recuaram, não foi bom. Não foi bom para eles, não foi bom para humanidade. Existe um movimento anticientífico em todo o mundo. Nós cientistas temos que responder com firmeza, com contundência. Mostrar o bem que nós fazemos para a sociedade.”

De fato, o professor dedicou-se a mostrar esse bem. Galvão abriu a palestra “Autonomia e Liberdade Científica” contando a história de pesquisadores que desenvolveram o mundo, mas foram punidos ou desacreditados por colidirem com pressupostos sociopolíticos de suas épocas. 

Hipátia de Alexandria criou um  importante método de divisão matemática. Foi brutalmente assassinada. Ignaz Philipp Semmelweis, responsável por uma grande diminuição na quantidade de mortes por infecção hospitalar a partir de procedimentos de higiene, foi internado em um hospício por discordar categoricamente dos médicos tradicionais. Nikolái Vavílov, botânico, queria acabar com a fome, criou o maior banco de sementes de seu tempo, e estudava melhorias genéticas para os alimentos. Preso por Stálin, morreu de fome em um Gulag (campo de trabalho forçado para criminosos e opositores do governo soviético).  Galvão homenageou ainda cientistas brasileiros perseguidos pela Ditadura Militar, como José Leite Lopes, Elisa Frota Pessôa, Ernst e Amélia Hamburger, Juan José Giambiagi, e Jayme Tiomno.

O professor comentou a recente discussão com Bolsonaro que culminaria em sua exoneração, defendendo que é preciso se levantar: “quando se trata de questões científicas, não existe autoridade acima da soberania da ciência”.  Galvão negou as acusações de que o Inpe estaria divulgando dados mentirosos e partiu delas para contar a história do Instituto, seu funcionamento e contribuições para o Brasil e o mundo. 

O governo Jânio Quadros deu origem ao embrião do Inpe, no contexto da corrida espacial da Guerra Fria. Desde então, o Instituto desenvolveu tecnologias importantes com as próprias pernas, mas não deixou de participar de cooperações internacionais. Trabalhou com a União Europeia no projeto Copernicus, com a NASA na produção de nanosatélites e com a China — parceria que fez 30 anos em 2018 — tendo sido responsável por 50% da produção sino-brasileira.  Seus pesquisadores foram frequentemente premiados. 

O Inpe, que se retroalimenta formando mais cientistas, desenvolve pesquisas nas áreas de ciências espaciais e atmosféricas, ondas gravitacionais, estudos climáticos, engenharia e tecnologia espacial, observação da Terra, ciência terrestre e rastreio e controle de satélites. Isso tudo é devolvido para a sociedade em forma de serviços, como o monitoramento da Amazônia e demais biomas, telecomunicações, e a previsão do tempo. 

Ricardo Galvão explicou ainda como, apesar da complexidade de se fazer o monitoramento da Amazônia, o Inpe consegue obter resultados precisos. Ele lamentou os planos do Ministro do Meio Ambiente de contratar uma empresa privada para obter os dados de monitoramento. “Nós temos um percentual de erro de 5%. O sistema Planet, que é o que o Salles quer contratar sem ao menos ter feito uma licitação, tem 20% de erro.” Galvão acrescentou que é uma medida desnecessária que custaria muito aos cofres públicos. O sistema defendido por Salles trabalha em maior resolução, mas a área é menor. “Cada quadrado do Planet cobre apenas dois metros [contra 20 a 30 metros do Inpe]. A copa de uma única árvore na Amazônia pode ter mais de dez metros de diâmetro.” Isso faria necessário muito equipamento para que toda a área fosse monitorada. “Eu não preciso enxergar a porta para saber que uma casa está sendo derrubada. O ministro está caindo no canto da sereia dos vendedores.”

O ex-diretor do Inpe acredita que a ciência verdadeira ainda tem pouca penetração na mídia. Ele admitiu estar preocupado com a disseminação da pseudociência nas redes sociais: “é preocupante o alcance que influenciadores como Olavo de Carvalho têm sobre os jovens e o governo” — o youtuber tentou desmentir a Teoria da Relatividade de Einstein, o heliocentrismo e diz que cigarro não faz mal para a saúde. Galvão incentivou crianças e adolescentes a se tornarem cientistas para trabalhar em conjunto pelo país, sem esperar por soluções fáceis. “A primeira coisa que eu peço aos jovens é que não usem essa palavra, herói, mito. Não existe salvador da pátria.”

Ricardo Galvão assegurou que não estamos “retornando às trevas”. Aplaudido de pé longamente, ele finalizou: “A comunidade acadêmica e científica e o povo brasileiro não se calarão!”

 

Galvão, Inpe e Bolsonaro

Ricardo Magnus Osório Galvão tem 71 anos. Formou-se em Engenharia de Telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense (UFF), tem mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), doutorado em Física de Plasmas Aplicada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), Livre Docência em Física Experimental pela Universidade de São Paulo, foi professor da Unicamp e é hoje da USP. Foi membro do Conselho da Sociedade Europeia de Física e presidente da Sociedade Brasileira de Física. É membro da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e Brasileira, assim como membro do Instituto de Física do Reino Unido e Irlanda. Trabalha na área de fusão nuclear, é premiado pelo Centro Internacional de Física Teórica de Trieste, na Itália, ganhou a medalha Carneiro Felippe e foi admitido como comendador da Ordem Nacional de Mérito Científico. 

Galvão foi nomeado diretor do Inpe em 2016. Ele completaria sua gestão em 2020, mas foi exonerado após responder acusações de Bolsonaro. 

O Inpe havia mostrado que o mês de julho deste ano teve um aumento de 102% (pouco mais que o dobro) do desmatamento em relação ao ano passado, e também o valor mais alto de perda de área da floresta desde 2015. No dia 19 do mesmo mês, Bolsonaro se pronunciou negando as estatísticas.

Para o presidente, o Instituto estaria divulgando dados “mentirosos” sobre o crescimento do desmatamento na Amazônia. “Até mandei ver quem é o cara que está à frente do Inpe para vir se explicar aqui em Brasília, explicar esses dados aí que passaram na imprensa.” Bolsonaro disse que, em seu “sentimento”, as medidas do Inpe não “condizem com a realidade”.  O presidente ainda afirmou que Galvão “parece até estar a serviço de alguma ONG”, e ironizou as informações divulgadas pelo Instituto: “Se toda essa devastação de que vocês nos acusam de estar fazendo e ter feito no passado [fosse verdadeira], a Amazônia já teria sido extinta, seria um grande deserto.”

No dia seguinte, 20, Ricardo Galvão respondeu às acusações: “Jair Bolsonaro precisa entender que um presidente da República não pode falar para a imprensa como se estivesse em uma conversa de botequim. Ele fez comentários impróprios e sem nenhum embasamento. Fez ataques inaceitáveis não somente a mim, mas a pessoas que trabalham pela ciência desse país.” 12 dias depois, Galvão foi exonerado.

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