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A construção social da cor rosa na moda masculina
Guardarroupa
09 ago 2017 | Por Jornalismo Júnior

Imagem de capa: Juliana Santos

Você já se perguntou o porquê de algumas cores estarem tão relacionadas a identidade sexual de uma pessoa? E como temos a propensão para estabelecer um pré-julgamento ao ver alguém as usando? A geração Y, conhecida também como Millennial, está sendo responsável por quebrar alguns desses preceitos. Não é à toa que o famoso tom Millennial Pink foi batizado em sua homenagem, como sinal marcante de uma juventude disposta a romper as barreiras do preconceito sem medo. O seu uso subversivo conquistou as passarelas das principais marcas e grifes, sendo considerado uma das fortes tendências estéticas atuais do mercado. Vindo carregada de várias referências políticas que buscam desconstruir o referencial indumentário já concebido na moda, tem o objetivo de ressignificar o seu uso e desfazer seus antigos significados.

Ao longo da história, temos vários exemplos de símbolos e cores que já ganharam um significado imagético que acaba influenciando na nossa percepção visual de mundo. No entanto, para isso acontecer, é necessário que haja um complexo processo de assimilação. Uma cor somente se torna informação quando sua aplicação é responsável por organizar e hierarquizar referências capazes de nos levar à compreensão de determinados objetos. Facilmente podemos ver o vermelho e associá-lo ao desejo, sensualidade e amor. Ou o amarelo ao otimismo, à alegria e à riqueza. Analisando o espectro visível de cores, é interessante perceber como quase todas elas são interpretadas tendo como parâmetro os sentimentos, desejos e status social dos seres humanos. Entretanto, a partir da década de 1930, uma passou a se destoar bastante dessa categorização: a cor rosa.

Com a ascensão do Partido Nazista na Alemanha e a chegada de Adolf Hitler ao poder em 1933, práticas que visavam disseminar ideologias supremacistas se tornaram cada vez mais frequentes. Joseph Goebbels, cineasta e ministro da propaganda Nazi, foi responsável por criar campanhas publicitárias com alto teor de estigmatização de grupos que não se encaixavam no ideal de “raça puramente ariana”. Foi através desse sistema dinâmico de informação que se propagaram mundialmente as cores dos triângulos do Holocausto, e consequentemente, seus significados.

Para cada tipo de prisioneiro havia uma cor que os catalogava, justamente com o objetivo de diferenciá-los. Nos campos de concentração, estima-se que cerca de 15.000 gays foram aprisionados e mortos. Eles eram obrigados a utilizar uniformes listrados contendo um triângulo rosa invertido. Não se sabe ao certo o motivo principal dessa escolha, porém, como a homossexualidade está relacionada ao prazer carnal e o vermelho já era usado nas suásticas, optou-se pelo rosa, uma cor considerada variante dos tons de vermelho-claro. Além disso, havia também um booklist pink que continha um cadastro feito pela polícia alemã com o nome de todos os homens suspeitos de serem gays.

Homossexuais prisioneiros durante o Holocausto sendo identificados com o triangulo rosa invertido. Imagem: Reprodução

Na época, o regime nazista ganhou grande visibilidade por colocar em prática ações de teor fundamentalista. Ao redor do mundo, vários veículos de imprensa davam destaque às ações de Hitler, o que contribuiu fortemente para a popularização de muitas de suas condutas. Os horrores cometidos contra os judeus eram considerados errados, mas muitos acreditavam que os homossexuais mereciam ser tratados dessa forma, já que eram considerados pecadores. Essa dubiedade acabou selecionando e potencializando alguns estereótipos sociais. A partir daí, o rosa entrou no imaginário cultural como a cor dos homossexuais, e foi só questão de tempo para homens héteros deixarem de usá-la. O mercado, atento a esse novo entendimento, passou a aderir a essa tendência, direcionando gradualmente a produção para a distinção de gêneros de maneira mais nítida.

Curiosidades

Antes da Revolução Industrial, os tecidos eram bem simples e geralmente utilizados na sua cor crua, pois o processo de pigmentação só era viável para as famílias pertencentes à nobreza ou a membros do clero que possuíssem recursos financeiros para custeá-la. Não havia nenhuma determinação social ligada ao gênero a respeito das cores que você poderia usar. Meninos e meninas vestiam as mesmas roupas na infância por questões econômicas, já que era bem mais viável para os pais terem que comprar a peça somente um vez e reutilizá-la quando outro filho nascesse. Essa realidade parece absurda para hoje em dia, mas irmãos e irmãs compartilhavam o guardarroupa.

Meninos e meninas utilizando o mesmo tipo de roupa na infância

A divisão só começou a aumentar quando os processos têxteis se desenvolveram tecnologicamente e aa produção em massa se expandiu, barateando o custo das roupas e, consequentemente, aumentando o consumo. Isso obrigou os fabricantes a desenvolver produtos específicos para homens e para mulheres. Ainda assim, não havia uma restrição de cores designadas aos gêneros. É até curioso ressaltar que na época era mais comum ver meninas usando azul e meninos, rosa.  

No Museu do Café em Santos, há uma foto do início do século XX que retrata bem esse costume: nela, vemos um homem da alta sociedade vestindo um terno rosa-claro, mostrando toda sua elegância e jovialidade. Esse era o sentido atribuído até então: bom gosto.

Sexualidade e Mídia

Nos Estados Unidos da década de 1960, ocorreu uma grande onda de mobilizações de grupos que lutavam por uma sociedade igualitária. Na contramão dessa busca por direitos, diversos estados tentavam passar leis que tipificavam a “prática da sodomia” como crime. Bares e casas de shows viviam sendo invadidas por policiais com intuito de prender gays e lésbicas que fossem pegos em atos considerados libidinosos, crime passível até de prisão perpétua. Em resposta a esses acontecimentos, um bar em New York acabou resistindo a uma dessas batidas, e o fato ficou marcado como o início do movimento pelos direitos homossexuais em todo o mundo. A cor rosa, que era usada de forma pejorativa, passou a ser o símbolo da luta LGBT.

Eis que os meios de comunicação se apropriaram dessa marca, deturpando todo seu sentido. Isto se confirma quando o cinema e a TV passaram a retratar homossexuais de forma totalmente estereotipada, sempre com vestimentas rosas. Algo que era símbolo de vitória transformou-se em motivo de chacota.

Personagem interpretado por Jô Soares no programa humorístico Viva o Gordo exibido pela Rede Globo na década de 80

No começo dos anos 80 surge o que alguns estudiosos da moda consideram como a grande consolidação da cor rosa no universo feminino: a invenção do exame pré-natal, no qual a mãe poderia identificar o sexo do seu bebê e já ir preparando todo o enxoval. Foi assim, finalmente, que a frase “rosa é cor de menina” se popularizou.

O universo da moda está sempre trabalhando com tendências. Algo que cai no gosto das pessoas hoje, pode ser considerado totalmente ultrapassado no dia seguinte. E vamos combinar que essa tendência de preconceito não pertence mais ao mundo em que vivemos. Homens são livres para usar qualquer tipo de cor, uma vez que não é um simples pigmento que define a sua orientação sexual. Com a fluidez do conceito de masculinidade, há um movimento para ressignificar o rosa que tem ganhado bastante força. Vários artistas, atletas e personalidades da mídia estão contribuindo para o fim desse paradigma.  Lembre-se que o Millennial Pink veio para ficar, e óbvio, ninguém vai querer ficar de fora dessa.

Por Wender Starlles
wenderstarlles@usp.br

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