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A escravidão constitucional na terra da liberdade escancarada por A 13ª Emenda
CINÉFILOS
23 fev 2017 | Por Jornalismo Júnior

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A 13ª emenda à Constituição dos Estados Unidos, incorporada ao documento no ano de 1865, declara que nenhum cidadão americano estará sujeito a escravidão ou trabalho forçado, ou seja, garante a liberdade para todos aqueles que estão sob a jurisdição do país. No entanto, há uma brecha na redação da emenda: todos estão protegidos contra trabalho escravo, com exceção daqueles que forem condenados por algum tipo de crime. É sobre essa brecha e seu inevitável recorte racial que trata o documentário A 13ª Emenda (13th, 2016), dirigido por Ava DuVernay e forte candidato a levar a estatueta de Melhor Documentário no Oscar de 2017.

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Em certo ponto do documentário, um dos entrevistados diz: “a maior parte da sociedade não entende como é estar atrás dessas grades”. Essa afirmação prova-se dolorosamente verdadeira através do trabalho realizado por DuVernay nesse projeto, que expõe a violência exercida pela máquina estatal e criminalização de comunidades negras que resultam da brecha na 13ª emenda. Gráficos, dados, entrevistas com especialistas e políticos, vídeos e imagens de televisão e até mesmo trechos do longa de 1915, O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation) são usados para traçar o histórico do racismo institucionalizado dos Estados Unidos, provando o ponto de que a escravidão, de fato, não foi abolida, mas simplesmente incorporada ao lucrativo sistema de encarceramento em massa.

Logo na primeira cena, estatísticas que assustam são apresentadas: ainda que os Estados Unidos abriguem apenas 5% da população mundial, a terra da liberdade é responsável por 25% dos presos do mundo, e dentre eles, um em cada três são homens negros. Esse tipo de estatística é empregada frequentemente e de maneira eficaz durante o filme, conferindo legitimidade ao que consta nas falas dos entrevistados – dentre os quais estão figuras históricas para o movimento negro como Angela Davis e estudiosos como Jelani Cobb e James Kilgore.

Iniciando-se com as motivações econômicas da escravidão, passando pela construção da mitologia da criminalidade negra, leis de segregação racial, movimentos dos direitos civis e medidas adotadas por presidentes estadunidenses ao longo do tempo, chegando até os discursos racistas e xenófobos de Donald Trump e o movimento Black Lives Matter, o documentário se desenvolve em um ritmo tão rápido e denso que se o espectador piscar, perderá uma boa quantidade de informações importantes. Ainda, pequenas intermissões com trechos de músicas de artistas como Nina Simone e Nas, que surgem quando um novo tópico será abordado, proporcionam um respiro diante do volume de dados. Ao mesmo tempo que essas intermissões não destoam ou quebram o ritmo acelerado do longa, elas também comovem por suas letras que retratam a vivência dos negros nos Estados Unidos.

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A 13ª Emenda acerta ao trazer entrevistas com pessoas de diferentes pontos de vista: políticos republicanos e democratas; ativistas e representantes de associações de lobistas; ex-presidiários e mães de vítimas da violência policial. Tais entrevistas, muitas vezes, são confrontadas, de forma a estabelecer um debate mesmo sem colocá-los frente a frente. Há também diversas cenas poderosas, que chocam, emocionam, provocam revolta. Em um dos trechos mais fortes de significado mostra-se um dos comícios de Donald Trump intercalado por filmagens de agressões nos protestos do movimento dos direitos civis e imagens de eleitores do magnata expulsando negros do recinto. Ao fundo, o presidente declara que “nos bons e velhos tempos, esse tipo de coisa não acontecia porque eles eram tratados de forma severa”. Ao comparar passado e presente, fica claro quem são os “eles” a quem Trump se refere e a forma como acredita que devem ser tratados.

O documentário apresenta o problema do encarceramento e do racismo nos Estados Unidos, mas não oferece soluções. Esse, no entanto, não é seu objetivo. Em seus minutos finais, fica claro que o propósito da produção é expor o contexto e as raízes de tais questões, para que elas não sejam mais ignoradas, esquecidas ou encaradas com indiferença. Considerando que é quase impossível terminar de assisti-lo sem estar profundamente comovido com o tema, pode-se dizer que A 13ª Emenda tem grande sucesso no que se propõe a alcançar.


O longa está disponível na Netfilix. Assista ao trailer:

por Mariana Rudzinski
marianarudzinski71@gmail.com

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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