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A evolução das bolas da Copa do Mundo
ARQUIBANCADA
26 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por Pedro Smith

Objeto indispensável ao esporte mais popular do planeta, a bola de futebol desperta o interesse dos amantes das quatro linhas. Atualmente, essa paixão vem sendo fomentada pelo constante desenvolvimento tecnológico nas grandes empresas de material esportivo, capazes de criar novas e mais modernas pelotas em quantidade e velocidade inéditas. Somados a esse cenário favorável, quando o assunto é Copa do Mundo, o interesse transforma-se em paixão e tudo que a envolve atrai os holofotes de todo o planeta. Assim, as bolas oficiais do mundial de seleções são uma atração à parte: quem não lembra da Jabulani, a bola oficial da Copa do Mundo de 2010?

Entretanto, nem todas as bolas da competição possuíam chip, gomos unidos sem costura – por processo feito com alta temperatura – e estampas metálicas com efeito texturizado, como a Adidas Telstar, que está rolando nos campos russos. As primeiras eram feitas de couro, pesadas, sem fabricante oficial, com costuras externas e, caso chovesse, a água era absorvida – aumentando seu peso consideravelmente: eram as chamadas bolas de capotão.

Do couro ao poliuretano, confira as características, curiosidades e evoluções, de 1930 a 2018, daquelas que contam a história de um dos eventos esportivos mais popular do planeta.  

Bolas de Copa do Mundo: do primeiro modelo à icônica Jabulani. (Imagem: Maria Laura López/Jornalismo Júnior)

Copa de 1930 – Uruguai

Nas primeiras edições do torneio, a ausência de glamour e notabilidade desse equipamento era tanta que, na edição de 1930, os finalistas – Argentina e Uruguai – não chegaram a um consenso a respeito de qual modelo seria utilizado durante a partida decisiva: o produzido em solo argentino ou o uruguaio. A decisão tomada foi de um tempo para cada. Apesar das diferenças, seus nomes eram parecidos – a versão argentina era chamada de Tiento, já a Celeste aderiu ao modelo T. A típica bola de capotão tinha 68 a 70 cm, era de couro curtido e costura grosseira, a qual provocava dores de cabeça para quem ousasse cabeceá-la.

Copa de 1934 – Itália

Em 1934, a bola da vez era a italiana Federale 102:  também de couro, tinha na presença dos 12 gomos definidos sua principal novidade.

Nessa época, a qualidade e característica das pelotas ainda eram bastante variáveis, principalmente a alterações climáticas. O gol do italiano Orsi, por exemplo, que deu o título mundial à azzurra contra a Tchecoslováquia, foi fruto de uma batida com um efeito que chocou o mundo do futebol. No dia seguinte, entretanto, ele tentou repetir o lance, dessa vez, sem sucesso. Segundo os especialistas, a bola poderia ter ficado torta durante o jogo da final, favorecendo sua trajetória irregular.

Copa de 1938 – França

Na França, quem rolou foi a Allen. Muito semelhante à Federale 102, a única inovação residia no tipo de couro, sendo um material, mais bem tratado e resistente. Sua coloração mais escura era uma característica da produção local desse material, a qual fornecia a pele animal curtida habitualmente com essa coloração.

Copa de 1950 – Brasil

A primeira grande evolução ocorreu na Copa de 1950, no Brasil. O modelo tinha uma câmara inflada, dando fim às costuras externas, e seu bico era para dentro da bola. A Superball Duplo T tinha 12 gomos e bordas arredondadas (antes eram retas, levemente abauladas). Essas novidades, além de melhorar a qualidade do jogo, foram grandes ganhos para segurança dos jogadores, tendo em vista os perigos a que eram expostos os atletas, devido à costura e ao bico externos.

A Duplo T tornou-se famosa por ser a primeira bola sem costuras externas. (Imagem: Reprodução)

Copa de 1954 – Suíça

A Swiss WC Match Ball (“Bola da Copa do Mundo da Suíça”) apresentou algumas novidades em relação a revolucionária Superball Duplo T. Com 18 gomos e cor mais alaranjada, notabilizou-se por ser a primeira bola a ter o padrão “FIFA de qualidade”, que durou até 1966. Era mais leve, resistente à chuva e com tamanho mais próximo das bolas atuais.

Copa de 1958 – Suécia

Para a Copa da Suécia, a esfera começa tomar posto central, tanto para a promoção do evento quanto para os organizadores. Em busca daquela que melhor se adeque às necessidades do jogo, realizou-se um concurso internacional para a escolha da bola que seria usada, vencido por uma pequena companhia do país sede, a Sydsvenska Laderoch Remfabriken. O modelo Top Star contava com 24 gomos e foi a primeira a ser costurada sem aqueles cordões grossos (conhecidos à época como “costura invisível”). O material, porém, continuava sendo o couro. Ela foi a primeira a conhecer os pés de Pelé em mundiais e assistiu ao primeiro título brasileiro do torneio.

Copa de 1962 – Chile

A bola do segundo mundial brasileiro era a The Crack. O modelo estava longe de ser o melhor até aquele momento – na verdade, apresentava tecnologia consideravelmente menor se comparada a alguns que já rolavam em solo europeu. Apesar de ser desenvolvida pela empresa alemã Adidas (a primeira de muitas da marca), ela fugia dos padrões aplicados na Europa, sob a justificativa de ser feita para o clima da América do Sul. O resultado foi um material difícil de ser usado em dias de chuva, devido a baixíssima impermeabilidade do couro utilizado.

Entretanto, ela trazia uma importante inovação técnica: a válvula de inflação ou o pino de ar para encher a bola. Esse importante acessório de látex proporcionou a retenção do ar por mais tempo dentro da bola, evitando que ela murchasse facilmente durante a partida – o que era consideravelmente comum.

Copa de 1966 – Inglaterra

Na primeira Copa no país onde surgiu o futebol, quem deslizava pelos gramados era a Slazenger Challenge 4-Star. O modelo, de cor marrom avermelhado, possuía 24 gomos e foi produzida pelo fabricante inglês Slazenger, nascido em Dewsbury (cidade de aproximadamente 60 mil habitantes, a 260 quilômetros de Londres). O modelo apresentava consideravelmente mais qualidade se comparado à famigerada The Crack.

Copa de 1970 – México

Não foi só a Seleção Brasileira de 1970 que atraiu a atenção do mundo inteiro. A Telstar concretizou-se como um marco na história da evolução desse material esportivo. Ela foi a primeira a bola de futebol a apresentar a tradicional coloração branca, decorada com pentágonos pretos. Configurava-se em 32 painéis hexagonais e pentagonais costurados à mão, o que criava um equipamento perfeitamente redondo e mais estável.

Tendo em vista que a Copa do México foi a primeira a ser televisionada ao vivo, a Telstar – “Estrela da Televisão” – foi projetada a fim de tornar a bola muito mais visível para o aparelho: o contraste aparente entre preto e branco traziam muito mais nitidez se comparadas ao marrom, que muitas vezes se confundia com as chuteiras e o gramado durante as transmissões.

Sua superfície externa foi revestida por um plástico especial chamado de “Durlast”, sendo a primeira bola, em mundiais, a ter seu couro totalmente impermeável.

Foi o grande triunfo da Adidas, em sua primeira participação como patrocinadora oficial, consolidando a marca alemã em mundiais.

Copa de 1974 – Alemanha Ocidental

Tendo em vista o sucesso da Telstar, o exemplar foi utilizado ainda no início da Copa alemã. Nas fases seguintes quem rolou foi a Chile – inspirada no modelo da Copa de 1962. Os materiais, as técnicas utilizadas e quantidade de gomos eram idênticos aos de 1970, a nova bola era apenas mais resistente à água.

Copa de 1978 – Argentina

Levando o nome da dança típica do país sede, a Tango apenas se diferia no design do equipamento utilizado em 1974: cada um de seus 20 gomos eram decorados com “tríades” que criavam a impressão visual de 12 círculos idênticos. Trata-se de uns do modelos mais clássicos em Copas do Mundo. Seu desenho foi repetido nas 5 edições seguintes.

Bola que rolou em solos argentinos e viu os donos da casa levantarem a taça. (Imagem: Divulgação/Globo Esporte)

Copa de 1982 – Espanha

Apesar de possuir o mesmo nome do modelo anterior, a Tango utilizada na Espanha trazia algumas importantes novidades: suas costuras eram seladas para serem impermeáveis, reduzindo seu aumento de peso, caso molhadas.

Copa de 1986 – México
A Azteca revolucionou a produção de bolas de futebol. A primeira totalmente feita em material sintético, tinha maior durabilidade e leveza, além de minimizar a absorção de água. Seu design também foi vanguardista: no meio dos desenhos de “tríades” característicos da Tango, havia grafismos astecas em homenagem ao povo que viveu no México entre os séculos XIV e XVI.

Copa de 1990 – Itália

Mesmo possuindo uma capa interna de espuma de poliuretano (o que evitava que a bola esvaziasse por mais tempo), não foi sua novidade tecnológica o que mais chamou atenção na Etrusco Unico. Em homenagem ao povo que viveu na Península Itálica durante toda a Idade do Bronze, cada uma das 20 tríades da Tango possuía três cabeças de leões etruscos.

Copa de 1994 – Estados Unidos

Chegou a vez dos polímeros! Novamente como 32 gomos, a Questra, foi produzida com alta tecnologia: ganhou revestimento e espuma de polietileno branca, além de câmara em látex. Isso fez da Questra mais sensível ao toque, mais controlável e de maior velocidade. Era o terror dos goleiros! O nome veio de um antigo termo da língua inglesa “the quest for the stars” (“a busca pelas estrelas”).

Mantendo a tendência de homenagear o anfitrião, a bola trazia design comemorativo aos 25 anos da chegada do homem (estadunidense) à lua: as “tríades” eram decoradas com planetas, estrelas e constelações.

Copa de 1998 – França

Novamente com 32 gomos e material sintético, era a primeira multicolorida e fabricada fora da Europa desde 1970. A sua tecnologia inovadora possuía espuma feita de micro balões cheios de gás, fechados individualmente, o que distribuía igualmente a energia quando a bola era chutada.

Outra inovação pode ser percebida na impressão: a técnica “under glass” (tecnologia utilizada na impressão das estampas e texturas), aumentava a longevidade e a visibilidade do design. Novamente, as tríades azuis traziam o animal (o galo) e as cores do país-sede – azul, branco e vermelho.

Copa de 2002 – Coréia do Sul/Japão  

A Copa de 2002 já começou com novidades. A  pintura preta de triângulos curvos, presente desde 1978, foi alterada. Baseado na cultura asiática, a lâmina (shurike) no centro e os detalhes de chamas vermelhas simbolizavam a energia sul coreana e japonesa para receber a Copa. Mas o maior impacto foi mesmo estrutural, a Fevernova tinha uma camada de espuma sintética que garantia maior performance. A bola era costurada em três camadas, permitindo mais precisão e previsibilidade de sua trajetória. Entretanto a crítica, principalmente os goleiros, não a via dessa forma – eles diziam que ela teria ficado leve demais, o que deixou seu movimento imprevisível.

Além disso, sua pouca espessura, mantinha a força do chute e a aceleração da bola quase intactos, dificultando ainda mais o seu trabalho. Foi a a primeira com a tecnologia de “balões ocos” – sua câmara de ar não era mais separada da superfície da bola. Essa estrutura de borracha butílica era colada à espuma, trazendo maior unidade e aerodinâmica ao material.

Copa de 2006 – Alemanha

Em 2006, os gomos passaram a ser soldados com calor – era o fim das costuras. A +Teamgeist, que significa “Espírito de Equipe” em alemão, foi a primeira bola a contar com uma edição especial na final, com maior predominância do dourado, denominada +Teamgeist Berlin.

Copa de 2010 – África do Sul

Apresentada como uma “jóia tecnológica”, a Jabulani foi, sem sombra de dúvidas, uma das bolas mais comentadas e famosas da história dos mundiais. Infelizmente, sua notoriedade não é das mais positivas. O processo térmico de junção dos gomos cria um espaço maior entre eles, o que torna sua trajetória, em contato com ar, mais imprevisível do que quando se costurava os painéis.

Responsável pelo momento de maior alegria em uma partida, seu nome não poderia significar outra coisa: “celebração” em Bantu, um dos dialetos do país-sede. Suas 11 cores remetiam ao número de jogadores de um time, ao total de idiomas oficiais da África do Sul e ao número de tribos que formaram a nação.

Copa de 2014 – Brasil

A bola da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, também teve uma novidade: a primeira a ter uma eleição popular para definir seu nome. Com quase 80% dos votos, a Brazuca venceu dos outros concorrentes Bossa Nova e Carnavalesca. Os designers se inspiraram nas famosas fitinhas do Senhor do Bonfim para chegarem a coloração da bola – uma paleta incomum e nunca antes vista para bolas em tons de azul, verde e laranja

Outra inovação foi o número recorde de gomos da bola – apenas seis; além da correção dos problemas de aerodinâmica do modelo anterior.

Copa de 2018 – Rússia

A Telstar 18 é um clássico reinventado. Inspirada no modelo de 1970, traz os tradicionais gomos pretos e brancos atualizados em estampas metálicas e artes gráficas com efeito texturizados. É a primeira com chip NFC, dispositivo que permite interação com smartphones, permitindo acesso a conteúdos exclusivos. Vale ressaltar que essa tecnologia não é utilizada para determinar se a bola entrou ou não – essa decisão será tomada com base em uma rede de câmeras no estádio.

A Telstar 2018 será utilizada no mundial da Rússia e conta com algumas novidades, como o chip NFC. (Imagem: Divulgação Adidas)

A bola sob olhar de especialistas

Que a qualidade das bolas evoluíram é fato. Para o jornalista Erich Beting, autor da obra “O Livro das Bolas de Futebol”, “elas são mais macias, de melhor manuseabilidade, com melhor aerodinâmica. Isso tudo ajuda o jogador a dar mais potência e controle ao seu chute”. Mas alerta: “Não dá para dizer que ficou mais fácil fazer um gol”.

Entretanto, para Simon Choppin não é bem assim. Em entrevista ao Arquibancada, o doutor pesquisador sênior do Centro de Pesquisa de Engenharia do Esporte da Universidade de Sheffield Hallam na área de superfícies 3D, disse que “as bolas modernas são mais redondas, macias e apresentam rugosidades, tendo um comportamento aerodinâmico mais imprevisível”.

“Temos que tomar cuidado para as bolas que dão vantagem demais aos atacantes [ganharem efeito com qualquer chute] algumas bolas – como a Jabulani – eram muitos instáveis, mas isso já foi reparado”, afirmou. Ainda segundo ele, o principal avanço nesse material é “sua maior durabilidade e resistência à água e a climas adversos, mantendo sua forma constante e proporcionando mais controle, curva e força nos chutes”.

Outro ponto levantado pelo engenheiro diz respeito ao alto preço das bolas de futebol: o modelo oficial da Telstar 2018 custa 70% do salário mínimo brasileiro.

“As técnicas de fabricação e materiais utilizados na construção das bolas oficiais são muito avançados. No entanto, o prestígio da bola na Copa do Mundo é o que aumenta seu preço”, constatou.

Beting também traz outra perspectiva: “A bola oficial usada em jogo é um produto para profissionais. E, por isso, ela vai custar caro, já que envolve todas as tecnologias necessárias para ter um produto de maior qualidade. Se formos comparar, seria como se nós quiséssemos ter um carro com a mesma tecnologia empregada num carro de Fórmula 1”.

Ainda, o criador do site esportivo “Máquina do Esporte” vê como natural a “glamourização” e mercadificação desse objeto esportivo pelas promotoras do maior evento esportivo do mundo.

“Acho que é consequência natural do desenvolvimento do esporte como negócio. O mesmo se dá com as camisas de times. A bola é um objeto de desejo. E, por isso, precisa ser um objeto valioso dentro dessa cadeia”.

Para ele, a própria preocupação com o design em harmonia aos elementos culturais do país-sede inclui-se nesse contexto: “A Adidas tem feito o máximo possível de ações para tornar a bola mais próxima ainda das pessoas e do país-sede. Isso favorece nas vendas do produto e, claro, no lucro dela. O fato de ter um desenho específico e de representar um torneio tão visto e desejado ajudam a criar essa fama na bola da Copa”, completou.

Nesta Copa, além dos jogadores, treinadores e torcedores,o mundo estará de olho na bola vibrando e desejando, como o jornalista Ivan Lessa em uma de suas colunas para o portal BBC Brasil, “que siga os mais inesperados caminhos e trajetórias. Pois a viagem, sabemos, é o que realmente importa”.

Arquibancada
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