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A exagerada simplicidade de Últimos dias no deserto
CINÉFILOS
09 set 2016 | Por Jornalismo Júnior

por Breno Deolindo
breno.deolindo.silva@gmail.com

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Abordar a religião de uma maneira que não soe como doutrinação ou crítica é uma tarefa de alta dificuldade. Últimos dias no deserto (Last Days in the Desert, 2015) de Rodrigo García narra, como seu próprio título denuncia, os dias finais de Jesus no deserto, onde se exilou para jejuar e orar. De maneira minimalista, o filme atinge públicos de todas as crenças, apesar de contar uma história cristã.

A simplicidade começa no elenco: apenas cinco atores são mostrados na tela, interpretando seis personagens e dispensando qualquer figurante. Ewan McGregor vive protagonista e antagonista simultaneamente: Jesus (ou Yeshua, como é citado) e o Demônio. As discussões travadas pelos dois são o pano de fundo para o encontro de Yeshua com uma família pobre, composta de pai, filho e uma mãe em estado terminal.

A Mulher Demoníaca, com apenas alguns segundos de participação, completa o grupo de atores e, no seu breve tempo de tela, anuncia silenciosamente que Cristo passará por provações na jornada. Tais dificuldades vêm pelo Demônio, que desafia seu inimigo a resolver os problemas daquela família, desgastada pelas inúmeras situações adversas passadas por eles – pai e filho se desentendem em qualquer tipo de assunto, e a doença da mãe agrava todo empecilho. A aposta dita o caminho seguido pelo roteiro, que aborda de maneira intimista alguns dilemas pessoais de Jesus.

Seguindo a tônica sutil, os figurinos utilizados por McGregor são praticamente iguais para as duas figuras vividas por ele. A diferença está na luxúria do anticristo, que utiliza anéis e correntes de aparência valiosa, levando o espectador a refletir sobre a proximidade de dois elementos teoricamente antitéticos. O pecado e a raiva em Yeshua são retratados da mesma maneira que a compaixão e os traços de humanidade no Demônio, distanciando o enredo de um maniqueísmo simplista e propondo novas visões a respeito do cristianismo.

Créditos: REUTERS

Além de McGregor, ator de muita expressão em Hollywood, existe um outro gigantesco nome nos créditos finais: Emmanuel Lubezki; o mexicano venceu três vezes consecutivas o Prêmio da Academia de Melhor Cinematografia e continua seu ótimo trabalho em Últimos dias no deserto. Lubezki se atém à humildade escolhida por García e não abusa dos planos-sequência extravagantes que o consagraram nas parcerias com Alejandro Gonzáles Iñárritu em Birdman (Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), 2014) e O Regresso (The Revenant, 2015), mas sua habilidade de tornar qualquer frame uma obra de arte permanece intocável.

A sobriedade em tantos aspectos, no entanto, sai pela culatra quando se fala da própria trama. Personagens não tão aprofundados e a similaridade que se dá entre quase todos os cenários atribuem um tom monótono que só é quebrado durante um rápido clímax nos 98 minutos de exibição. Últimos dias no deserto conta, com beleza visual inigualável, uma anedota que poderia durar muito menos, estendendo-se numa ambientação muito bem feita pela Direção de Arte e Figurino, enquanto uma complexidade maior na narrativa é deixada de lado.

Últimos dias no deserto estreia dia 8 de setembro nos cinemas. Confira o trailer!

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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