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‘A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas’: uma distopia cômica que nos comove

A recente animação da Netflix conta uma história já conhecida, porém de um modo especial

CINÉFILOS
29 jul 2021 | Por Rebeca Fonseca de Ávila (rebecafonsecadeavila@usp.br)

Famílias em crise, crianças desajustadas, cachorros excêntricos, apocalipse de máquinas, cores espalhafatosas, mistura de animações e referências à cultura pop. Bem-vindos ao filme A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (The Mitchells vs. the Machines, 2021), a animação mais popular da Netflix, com mais de 43 milhões de espectadores em apenas 28 dias, dirigida por Jeff Rowe e Michael Rianda.

O filme é narrado pela primogênita Katie (Abbi Jacobson), uma adolescente artística, extrovertida, apaixonada por cinema e, tipicamente, incompreendida pelo pai, Rick (Danny McBride). Os desentendimentos ocorrem pela diferença de gerações: seu genitor não entende seus vídeos e, pelo medo de que a filha sofra decepções, duvida da possibilidade de um futuro promissor no audiovisual.

Nos primeiros minutos de filme, o sonho de Katie ser aceita na Faculdade de Cinema em Los Angeles é concretizado e ela se empolga com a possibilidade de sair de casa e encontrar pessoas que compartilhem interesses com ela. Porém esse futuro torna-se ofuscado quando uma distopia emerge: robôs, criados por uma empresa de tecnologia para auxiliarem no dia-a-dia do homem, se rebelam contra seu criador e tentam extinguir a humanidade, abandonando-a na solidão do espaço sideral.

 

A personagem Katie, com cabelos castanhos e uma roupa vermelha, observa glóbulos verdes que transportam humanos flutuando pelo céu de fim de tarde, com um azul em degradê e nuvens rosas. A cidade embaixo é acinzentada e possui focos de incêndios.

Katie frustrada observando os humanos sendo capturados. [Imagem: Divulgação/Netflix]

O problema é que a salvação da Terra está nas mãos da única família que não foi capturada: os Mitchell, que claramente não são o exemplo de uma família perfeita: cada um de seus integrantes possui estranhas fixações e eles não parecem funcionar em harmonia. Então, o filme acompanha os planos mirabolantes e as dificuldades de ataques de eletrodomésticos a avalanches do brinquedo Furby — que essa excêntrica família enfrentará para derrotar os robôs.

Como ocorre em muitas animações, é difícil não se emocionar assistindo A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas. O tema já comovente por si e com o qual o público pode se identificar das sensíveis relações familiares, é aprofundado por retornos ao passado, tentativas frustradas de aproximação, doloridas palavras vazias e sacrifícios como gestos de amor, o que evocam lágrimas do início ao fim do filme.

O longa é bem-sucedido em utilizar a desesperança e o medo provocados pela, paradoxalmente, cômica guerra contra os robôs para se aproximar das fragilidades da família e construir um já esperado final. Porém, mesmo que esse seja um desenvolvimento já conhecido, bem como o tema futurístico da tecnologia se virar contra o homem, ele se desenrola de maneira diferente e mais interessante aqui.

A trama ordinária é compensada por características únicas da produção, como a mistura de animação 3D com desenhos 2D. Essa mescla garante uma visualidade singular e divertida, com a recorrente distorção das expressões faciais dos Mitchell e a inserção inesperada de grafismos e montagens, como ocorre com os filmes de Katie. A estética é tão minuciosa que é impossível capturar todos os seus detalhes assistindo às cenas apenas uma vez.

 

A Família Mitchell em seu carro amarelado com expressões de espanto. Ao fundo amarelo, desenhos de animais também espantados, com um letreiro na frente do carro escrito "The Rick Mitchell Special"

Exemplo de mistura de animações enquanto a família foge dos robôs. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Embora tenha a proposta de ser um filme infantil, A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas tem as doses certas de humor adulto, com piadas sobre tecnofobia, ganância de corporações e privacidade de dados. A inserção de memes e referências ao universo das redes sociais não é forçada e contribui para o humor do filme, assim como as vozes originais, que parecem verdadeiramente emanar das figuras animadas.

Além disso, o longa é exitoso na maneira como elabora a representação LGBTQIA+ em um filme para crianças, contribuindo para que algumas delas se enxerguem na trama e tenham suas sexualidades legitimadas desde a infância. Apenas nos minutos finais, um despretensioso pronunciamento nos revela que um dos Mitchell não é heterossexual. 

O encanto dessa representação reside no fato de que sua sexualidade não é causa para traumas ou enfrentamentos, como ocorre na maioria dos filmes com personagens queers, como se suas existências só pudessem ser retratadas pela dor. Pelo contrário, ela não causa tumultos na família e o filme não é sobre isso, afinal é tão normal quanto a fixação de Aaron (Michael Rianda), o caçula, por dinossauros ou a impossibilidade de Monchi, o pug da família, pegar objetos no ar.

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas, delicadamente, toca nas dificuldades do diálogo familiar e na aceitação de si, enquanto nos guia pela tortuosa luta dessa família contra a inteligência artificial e seus próprios problemas, e nos deixa não apenas a tradicional lição do amor e reconciliação familiar, mas também a de que distopias de ficção científica nem sempre precisam ser trágicas e pessimistas.

Nota do Cinéfilo: 5 de 5, Excelente!

 

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas está disponível para os assinantes da Netflix. Confira o trailer:

*Imagem da capa: Divulgação/Netflix

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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