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A fenda temporal de Dark e sua veracidade
SCI-FI
07 maio 2018 | Por Jornalismo Júnior
Por Carolina Fioratti (carolinafioratti@usp.br)

A série alemã Dark, criada por Baran bo Odar e Jantje Friese, traz à tona uma narrativa que vai além do suspense e do drama interpessoal. Encontra-se na série uma abordagem sobre fendas temporais, viagem no tempo e os paradoxos causados pela interferência humana em diferentes épocas.

O enredo mostra a vida de quatro famílias que vivem em Winden e são amplamente afetadas quando a região começa a sofrer com o  desaparecimento de crianças. Mais tarde, é notado por Jonas Kahnwald (Louis Hofmann) a relação entre os sumiços e a caverna da floresta, a qual se encontra abaixo de uma usina nuclear, responsável por, no passado, ter ocasionado um grande acidente.

Devido ao desastre, a caverna de Winden teria se tornado um tipo de abertura no espaço-tempo. O Laboratório resolveu investigar a possibilidade desse evento e outros desdobramentos sobre viagem no tempo.

 

As fendas temporais

 

De acordo com o astrofísico e professor do Instituto de Astronomia, Geofísica, e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) Rodrigo Nemmen, o termo “fenda temporal” é algo ainda ligado apenas à ficção científica. Na física,  o termo utilizado seria closed timelike curve (curva fechada do tipo luz, na tradução literal). Essa é uma expressão originada pela Teoria da Relatividade de Einstein e se refere ao ato de voltar ao ponto de partida de algum evento.

Segundo o professor, um evento como o descrito na série seria impossível de acontecer. Para haver esse fenômeno, seriam necessárias condições muito exóticas de energia, e um desastre nuclear, do ponto de vista cósmico, não é nada.

Tradução: “Imaginem um acrobata sobre uma corda bamba. A corda bamba é nossa dimensão, e nossa dimensão tem regras…” “Ao lado do acrobata, tem uma pulga. Ela consegue ir pra frente e pra trás assim como o acrobata.” “Precisaria criar uma grande quantidade de energia para abrir uma abertura no tempo e espaço… e então…” “Você cria uma entrada.” Cena da série Stranger Things.

 

O que seria essa energia

 

A quantidade de energia numa certa região no espaço é chamada de densidade de energia. Quanto maior essa densidade, maior as consequências físicas ao redor do evento. Tal energia se encontra na forma de matéria concentrada e radiação eletromagnética, entre outras formas. Para classificar o quão  violentos são os eventos cósmicos, caracteriza-se a densidade.

Não é simples obter uma fenda temporal. Seria necessário grandes concentrações de energia. Além disso, depois de criada, é preciso mais dessa concentração para mantê-la aberta.

A essa altura, é possível comentar sobre os famosos “buracos de minhoca” (wormhole, do inglês). O buraco de minhoca é um portal no espaço-tempo que conecta duas regiões distintas no universo. Com ele, talvez fosse possível realizar viagens para o passado. A dificuldade está no fato dele ser uma curvatura no espaço muito particular e de não haver indícios de como realizar isso. Também, para mantê-lo, seria necessário preencher a garganta do buraco com quantidades de energia que tem uma pressão negativa, atividade inviável na Terra.

Para exemplificar a situação, Nemmen calculou a energia resultante (tirar a energia dos átomos e converter a massa em luz e calor) de um celular. O valor apresentado foi 2 megatons, o que ele disse ser o suficiente pra destruir a cidade de São Paulo inteira. “A energia do buraco de minhoca é pegar a energia resultante e concentrar em uma região pequena algo que é muitos milhões de vezes a massa de um celular. Seria preciso criar um buraco negro, e para isso, nessa sala, é necessário pegar todo o planeta Terra e compactá-lo para caber aqui. A densidade de energia ficaria tão absurda que criaria um buraco negro, são essas as quantidades de energia para criar essas fendas temporais”, exemplifica ele.

 

Conjectura da proteção cronológica

 

Há estudos científicos sobre as condições físicas para tentar abrir um portal no tempo. Entre os autores, encontra-se Stephen Hawking (1942-2018), físico teórico e cosmólogo britânico. Eles fizeram as contas do que aconteceria se você tentasse abrir um portal para viajar no tempo e verificaram que a densidade de energia começaria a se amplificar de tal forma que rapidamente a fenda e todo o equipamento utilizado para criá-la seriam destruidos. Concluíram então que a natureza e o universo tentam se proteger de fendas temporais, qualquer tentativa causaria a morte instantânea. Esse fenômeno foi nomeado “Conjectura da proteção cronológica”.

 

A viagem no tempo

 

A viagem no tempo existe, não da forma que a ficção mostra, mas todos podem realizá-la. É possível acelerar e chegar mais rápido para o futuro. Para tal, o indivíduo deve mover-se rapidamente, assim, o tempo passa mais rápido para ele em relação a outra pessoa. Outra forma de viajar para o futuro é manter-se perto de um objeto compacto, que seria um buraco negro. Caso a pessoa não seja sugada por ele, 20 minutos que passaram para ela poderiam ser semanas para alguém que estava longe.

A viagem para o passado ainda é um grande mistério. Ela traria uma série de problemas e paradoxos. O professor de física do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) Luiz Vitor de Souza Filho traz como exemplo o fato de você voltar no passado e matar sua avó. Isso implicaria na sua não existência. Um dos fundamentos básicos da compreensão física é o efeito de causalidade. Tudo é descrito com uma relação de causa-efeito (ocorre a causa e depois o efeito dela). Se a viagem no tempo fosse possível, invalidaria essa relação e seria preciso rever a compreensão da natureza para os fundamentos. “O tempo é uma dimensão que tem uma seta única que é sempre para frente”, diz ele.

Cena do filme 2001 – Uma odisséia no espaço. Essa nave proposta pelo filme seria capaz de criar uma gravidade artificial em seu interior.

Filmes fiéis à ciência

   Dark traz uma visão interessante sobre os paradoxos, no entanto, exagera na parte científica. Por outro lado, outros filmes são fidedignos à física atual. Os professores, quando questionados sobre quais filmes eram mais próximos da realidade, tiveram decisões unânimes: “2001 – Uma odisséia no espaço”, dirigido por Stanley Kubrick e que completa 50 anos em 2018; e também “Interestelar”, obra de Christopher Nolan. Sobre Interestelar são apontadas algumas falhas, mas o clássico 2001, apesar da idade, continua sendo admirado pelo seu enredo e efeitos visuais.

 

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