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A incessante busca pelo recorde das alturas
ARQUIBANCADA
05 fev 2021 | Por Matheus Nascimento

Em 1993 ocorria um dos maiores acontecimentos do atletismo mundial: a prova do salto em altura masculino tinha seu recorde mundial batido pelo saltador cubano Javier Sotomayor. O Arquibancada te convida para conhecer a história de um atleta que leva em seu nome uma marca, e para se surpreender com um retrospecto atual dos competidores do salto em altura. 

Antes mesmo dos 2,45m, Sotomayor já saltara inacreditáveis 2,43 metros de altura no Grande Prêmio e Disputa de Salamanca, na Espanha, estabelecendo seu primeiro recorde. O último recorde mundial – de junho do ano anterior, conquistado em Estocolmo pelo atleta sueco Patrik Sjorbej, com 2,42 metros –, era superado por esse esportista da ilha caribenha, e passou a ser a maior conquista da prova e do atleta, que, atualmente, pode ser considerado o maior nome da modalidade no fim do século 20.

sotomayor e o recorde

Sotomayor pisa no icônico estádio Helmántico de Salamanca: a casa de sua maior pontuação no salto em altura [Reprodução/Tribuna Salamanca].

Três algarismos que revolucionaram uma prova

A prova do salto em altura pode ser caracterizada como uma das mais esquecidas nas transmissões esportivas de atletismo, uma vez que normalmente, no atletismo, as provas mais esperadas são as de velocidade. O saltador tem um objetivo simples, porém muito desafiador. Uma barra fixa, conhecida como sarrafo, é apoiada nas traves e ajustada conforme se estabelecem metas em altura no decorrer de competições. A prova sempre premia o saltador que obtiver a melhor marca com o menor número de tentativas. Para efeito comparativo, o salto nas marcações de Sotomayor, e de outros grandes atletas atuais, alcança a altura da trave de um gol em campos oficiais de futebol.

O jovem atleta impressionou pela sua rápida ascensão em suas conquistas nas provas. O seu período entre o ingresso em competições juniores e a disputa da sua primeira final olímpica na prova é de aproximadamente dez anos – de 1981 a 1992 –, mas este aspecto acabou, na verdade, se tornando um complicador na sua carreira. Estar em grandes competições o levou a enfrentar difíceis adversários, e que também saltavam marcas muito boas.

O especialista na modalidade e um dos destaques brasileiro nas provas de salto em altura Talles Frederico Silva já participou das provas em diversas competições, inclusive na disputa olímpica dos Jogos do Rio, em 2016. Ele acrescenta sua visão sobre o foco que os atletas devem manter quando chegam a esse nível de disputas: “A experiência olímpica é sempre realizadora, mas no meu caso enfrentei problemas. Acabei adquirindo uma micro lesão um mês antes – foi uma situação que atrapalhou bastante o ritmo que eu vinha saltando. Já havia competido com vários dos grandes nomes atuais do salto no Pan-Americano de 2015 e também no Mundial de Atletismo daquele mesmo ano. Entrei em 2016 com a consciência de que poderia alcançar um bom resultado – mesmo que não estando nas melhores colocações – por ter adquirido todas essas experiências anteriores”.

 Talles Frederico Sousa Silva saltando o seu recorde pessoal e brasileiro

O atleta Talles Frederico Sousa Silva saltando o seu recorde pessoal e brasileiro de 2,26 metros, em São Caetano do Sul – São Paulo [Reprodução/Esporte Clube Pinheiros – Ricardo Bufolin]

O lado esquecido do atletismo

A cada geração, a cultura esportiva brasileira sempre esteve presente no atletismo com grandes nomes. Apesar de ser uma prova de pouco sucesso entre atletas de nosso país, o salto em altura foi bem representado em um grande período por um brasileiro chamado José Telles da Conceição. O atleta carioca competiu em diversas provas, mas se destacou em 1952 – nas Olimpíadas de Helsinque, na Finlândia – quando conquistou a medalha de bronze na prova citada. Saltando exatos 1,98 metros, José se tornou o primeiro brasileiro a conquistar medalha olímpica em provas de atletismo.

Os primeiros praticantes da prova – organizados em encontros amadores promovidos por grandes universidades na Europa e nos Estados Unidos – são precursores de um período muito “apático” e realmente muito inicial do atletismo. É visível que por conta de falta de uma organização esportiva para as práticas inerentes ao atletismo houve pouca evolução dos atletas na prova. Essa evolução só aconteceu no século seguinte com Fosbury e tantos outros grandes nomes que se consagraram junto de suas marcas. O primeiro salto considerado recorde pela Federação Internacional de Atletismo (IAAF) em competições oficiais marcou os dois metros de altura, e eles foram alcançados pelo saltador americano George Horine em 1912. As marcações seguintes foram alcançadas por uma sucessão de atletas americanos e soviéticos até a chegada do surpreendente atleta cubano. Sotomayor acabou subindo a sua própria marca de 2,43 metros em dois centímetros em surpreendentes cinco anos, no período de 1988 a 1993.


Uma carreira que o elevou ao posto de príncipe das alturas

 comemoração da lenda cubana, Sotomayor, no mundial de Tóquio

A comemoração da lenda cubana no mundial de Tóquio – em 1991 – no qual conquistou a sua primeira medalha na competição [Alexandros Morellas – © Pinterest]


Anteriormente a seus saltos recordes, Sotomayor já havia participado de grandes competições nas Américas, como é o caso dos Jogos Pan-Americanos. Em 1987, na cidade de Indianápolis, nos Estados Unidos, o atleta conquistou sua primeira medalha de ouro panamericana na prova. Na época, o ocorrido colaborou para que os atletas americanos e todos aqueles que mediam conquistas esportivas através da polarização mundial – socialistas e capitalistas – enxergassem essa primeira conquista relevante do atleta como uma afronta, já que via-se potencial de evolução no atleta.

Um ano antes, Javier já havia impressionado – ainda em uma competição juvenil – com o seu salto na marca dos 2,36 metros. Ele alcança os recordes de Salamanca no ano de 1988 e no Centro-Americano de Atletismo de 1989 – quando chega aos 2,44 metros. O  Pan-americano de 1991 foi disputado em seu país, na capital Havana, e, como já esperado, conquista novamente o ouro e ainda surpreende com o tricampeonato pan-americano em Mar del Plata, na Argentina, em 1995. 

As medalhas de ouro dos campeonatos mundiais de Stuttgart e Atenas, e também a de ouro nas Olimpíadas de Barcelona, representaram o ápice da carreira do atleta. A queda de rendimento se deu a partir do desempenho ruim nas Olimpíadas de Atlanta, mais especificamente nas competições do ano de 1998 – em que baixou sua marca a níveis irreconhecíveis, surpreendendo quem acompanhava a sua brilhante carreira. Porém, o atleta ainda conseguiu a conquista da prata olímpica, em Sidney, no ano de 2000 – quando alcançou uma marca de 2,32 metros, uma pontuação que proporcionou o ouro ao saltador russo Sergey Klyugina.

Na videorreportagem Lenda cubana do salto em altura foi treinada por psicólogos – da série Arriba Cuba disponível na plataforma Olympic Channel –, o psicólogo de Javier relata que após a morte de seu treinador, José Godoy, o atleta estabeleceu para si a meta ambiciosa de saltar 2,46 metros: um antigo sonho que o treinador tinha para a sua carreira.

As impressionantes marcas fizeram do atleta o grande rival da década para todos os outros saltadores. A população cubana demonstrava orgulho de seus competidores e um apoio incondicional ao esporte pela grande afeição com as pistas. Especialmente, havia o empenho em construir uma nação convicta de que o esporte seria a melhor forma de causar impacto mundial e alcançar a relevância sobre qualquer nome ou causa que remetesse às sociedades capitalistas.

“A marca de Sotomayor e todos os seus saltos acima de 2,40 metros são espetaculares. Ele elevou a prova a um nível alto e inaugurou essa grande barreira para saltadores das próximas gerações”, comenta Talles. A cada nova marca, Javier se fortalecia ainda mais e condicionava sua carreira a um nível lendário em seu país.


A marca com grandes chances de ser igualada

O brasileiro é um atleta vencedor nas provas de salto em altura masculino, um fato que não é especificamente característico a ele, pois também é comum aos outros esportistas do atletismo brasileiro nos últimos anos. Para Talles, os saltadores que iniciam sua trajetória no país devem saber que a sua evolução dependerá de diversos motivos. Segundo ele, alguns sofrem pela falta de estrutura ou de apoio financeiro – fato variante de acordo com o clube ou o país em que o atleta se instala – visto que em outros lugares do mundo, esses e outros complementos são oferecidos com maior facilidade.

O atleta também comenta o porquê de o recorde ainda permanecer intacto há mais de duas décadas quando afirma: “Existe uma grande dificuldade de os saltadores conseguirem alcançar a casa dos 2,40 metros, mas muitos atletas já chegaram perto. Com certeza uma nova marca irá superar a de Sotomayor, levando em conta que, atualmente, existem atletas muito fortes na prova, desde campeonatos continentais até os mundiais, e que para mim surgem como grandes adversários, dando por exemplo neste caso o catari Mutaz Barshim, além dos russos Danil lysenko e Ivanyuk IIya”.

Mutaz Essa Barshim

Mutaz Essa Barshim durante a disputa do mundial de atletismo outdoor [Imagem: Wikimedia Commons]

“Soto”, nome com o qual foi apelidado em seu país, sabia que um bom salto estava na precisão da velocidade da corrida, da força no impulso, no movimento de caída e principalmente da concentração na execução de todos esses procedimentos. Por toda sua experiência nos últimos anos, Talles acaba citando enfaticamente que a união desses e muitos outros motivos é que transformam os saltos de Sotomayor nos mais emblemáticos da história mais recente da prova.

“O fator que traz a maior dificuldade no momento de um salto – praticando-a em outdoor – é a interferência do ar, porque o vento a favor ou contra pode problematizar a direção do salto, causando perda de equilíbrio e de impulso no atleta”, observa o mineiro que já competiu em torneios outdoor e também indoor, que são provas em estádios abertos e cobertos, assim como o cubano recordista nos dois estilos.

Saltadores de alguns países já alcançaram muitas vezes boas marcas, mas, por sua vez, o atletismo cubano segue em uma via de contramão, tendo em vista que não se classifica mais entre as grandes superpotências do esporte. Quem se aproxima mais do recorde é o já citado catari Mutaz Barshim, por ter alcançado a marca pessoal dos 2,43 metros. As oportunidades e a ousadia – por parte do atleta e de seus técnicos – com certeza vão se intensificar, para que quem sabe as tentativas com o sarrafo acima dos 2,45 metros fiquem cada vez mais frequentes em competições de todos os níveis.

“Para um atleta alcançar bons resultados em provas de salto em altura é necessário a adequação de ritmo e sequência nas competições. O próprio Mutaz se recuperou de uma grave lesão e, agora, depois de um bom tempo, vem conseguindo saltar próximo a marca de Sotomayor. Por Isso acredito que o recorde está, desde alguns anos, sendo ameaçado e muito provavelmente será quebrado em próximas oportunidades”, finaliza o recordista brasileiro sobre um dos mais duradouros recordes esportivos da história.

 

Arquibancada
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