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A Libertadores com um pouco mais de América
ARQUIBANCADA
12 ago 2020 | Por Lucas Zacari (lucas.zacari@usp.br)

O México tem no futebol, assim como na maioria dos países sul-americanos, a principal atração esportiva. Segundo dados do instituto Consulta Mitofsky, cerca de 60% da população possui predileção por esse esporte, e isso faz com que seu campeonato, a Liga MX, tenha uma das maiores visibilidade da América Latina. Com isso, ela tornou-se uma das mais ricas do continente, favorecendo os clubes locais a alavancar a qualidade das equipes, com contratações e estruturas grandiosas. 

Tudo isso, aliado à tradição, gera uma desigualdade entre os clubes mexicanos e os demais times da competição continental por eles disputada, a Liga dos Campeões da CONCACAF. Tal campeonato busca a integração entre equipes da América do Norte, América Central, Caribe e de três nações da América do Sul (Guiana, Suriname e Guiana Francesa), apesar de poucos dos países participantes terem no futebol seu principal esporte. Por conta disso, os clubes mexicanos possuem uma tradição vitoriosa nesse torneio, com 35 títulos, contra seis de times da Costa Rica, a segunda maior campeã.

Buscando novos desafios contra equipes de maior paridade técnica e financeira, o México aceitou o convite de jogar a Copa Libertadores da América, parceria essa que durou 19 anos. Em meio a dificuldades, tanto por parte dos sul-americanos quanto dos norte-americanos, os mexicanos cravaram seu espaço na história da competição.


O início difícil na Libertadores 

Foi a partir da temporada de 1998 que, pela primeira vez, a competição sul-americana teria um patrocínio master, a fabricante de automóveis Toyota. A patrocinadora aumentou a premiação do campeonato, o que atraiu tanto os clubes da própria Conmebol quanto os de fora, que observaram ali uma oportunidade. O campeão do torneio, o Vasco da Gama, com o acumulado dos valores ganhos nas classificações anteriores, recebeu 825 mil dólares, quantia essa inimaginável anteriormente.

Logo da primeira edição patrocinada da competição

Logo da primeira edição patrocinada da competição [Imagem: Reprodução]

Eric Filardi, jornalista e idealizador do projeto Papo Azteca, aponta que esse foi um dos pontos fundamentais para a inserção dos clubes mexicanos. Ele apresenta, também, um segundo tópico que influenciou nessa decisão: “O desafio era bem maior porque o nível técnico dos times da América do Sul era, obviamente, muito maior do que da América do Norte”.

Próximo à virada do século, a Libertadores estava muito distante, na questão técnica, dos vizinhos. Além de grandes jogadores atuando na competição, a pressão e a tradição dos clubes eram diferenciais. Para efeito de comparação, no ano de 1998, sete times ex-campeões da competição estavam na disputa (Cruzeiro, Grêmio, River Plate, Colo-Colo, Olimpia, Nacional e Peñarol), maior número de clubes desse porte até então.

É nesse cenário que os clubes mexicanos são convidados e, percebendo um possível potencial tanto para melhorar seus clubes quanto uma vitrine para a venda de seus jogadores e de suas marcas, aceitam tal proposta – mesmo sabendo que, caso fossem campeões, não poderiam disputar o Mundial de Clubes. 

Decidiu-se que os escolhidos para a disputa da competição, com duas vagas para o México, seriam definidos a partir de um torneio entre eles. O chamado Seletivo Pré-Libertadores, mesmo que com algumas alterações, seria a forma de classificação até 2003. Disputariam os campeões dos torneios de Verão e de Inverno de 1997 (Chivas Guadalajara e Cruz Azul, respectivamente) e as duas equipes com maiores pontuações dos campeonatos juntos, com exceção dos campeões (América e Atlante). 

Porém, Cruz Azul e Atlante não quiseram participar da competição e, com isso, coube aos times com mais títulos nacionais representar o México no torneio. Antes de entrar definitivamente na Libertadores, eles precisavam passar por um quadrangular contra Caracas e Atlético Zulia, ambos da Venezuela. Os dois primeiros se classificavam para a competição em si, vagas essas que ficaram com os mexicanos.

Na época, os grupos da Libertadores eram divididos por países e os mexicanos tiveram a dura missão de enfrentar o Vasco e o Grêmio, que ficaram com as duas primeiras colocações. Na época, contudo, classificavam-se três clubes por chave, permitindo ao América seguir na competição, já que empatou os dois jogos contra o cruzmaltino e venceu os compatriotas. Nas oitavas de final, a disputa com os argentinos do River Plate acabou encerrando essa participação, mesmo com os mexicanos  conseguindo um empate no jogo de ida e perdendo pelo placar mínimo na volta.

Apesar da participação honrosa do América, via-se que os clubes estavam um pouco distantes das melhores colocações. Gustavo Hofman, comentarista dos canais ESPN, argumenta que a tradição na Libertadores é essencial para as campanhas grandiosas: “Uma participação constante sempre foi fundamental. Então, apesar da grande qualidade que os times de mexicanos sempre apresentaram, é preciso entender o que é o torneio, conhecer bem os adversários”.

A afirmação do jornalista seria corroborada no ano seguinte. Necaxa e Monterrey se classificaram para o quadrangular contra os venezuelanos. Dessa vez, apenas o Monterrey conquistou a vaga para a fase de grupos, mas não foi longe, sendo último colocado entre as equipes uruguaias Nacional e Bella Vista, além do venezuelano Estudiantes de Mérida, classificado no quadrangular anterior.


A virada do século rumo ao protagonismo

A partir do ano 2000, a história dos clubes mexicanos começou a mudar. Em sua segunda participação no torneio, o América alcançou as semifinais. Já no modelo tradicional das competições, com sorteio para a fase de grupos, foi segundo colocado no grupo do Corinthians, eliminou América de Cali e Bolívar até enfrentar o grandioso Boca Juniors, ficando a um gol da final. Esse time teve um dos ataques mais decisivos dos mexicanos na Libertadores, formado pelo mexicano Cuauhtémoc Blanco, vice-artilheiro da competição com 13 gols, e pelo argentino Calderón, marcando nove gols.

Calderón, inclusive, demonstrou a tendência que os clubes do México começaram a adotar massivamente: a compra de jogadores estrangeiros. Hofman aponta que essas transações ocorriam e ainda ocorrem pelos investimentos nos clubes: “Os principais times do México têm grandes empresas por trás, também tem uma altíssima capacidade de investimento, pagam grandes salários e levam jogadores importantes”. 

Já no ano seguinte, a tão sonhada final foi alcançada, dessa vez pelo estreante Cruz Azul. Após passar por um grupo não tão forte, com a presença do vice-campeão brasileiro São Caetano, as pedreiras eram aguardadas nas eliminatórias. Passou por Cerro Porteño, vencendo por 4 a 3 no agregado, e pelos argentinos River Plate e Rosário Central, vencendo o jogo em casa e segurando o empate no exterior. A receita parecia a mesma, com o paraguaio Cardozo e o mexicano Palencia liderando a equipe. E, novamente, o adversário seria o Boca Juniors.

“Fazia um baita jogo em casa e fora não tinha a mesma força, perdiam, mas como tinham vencido um jogo em casa, acabavam passando”, Filardi aponta o grande trunfo não só do Cruz Azul, mas das equipes mexicanas como um todo. 

Sabendo disso, os argentinos armaram um sólido sistema defensivo no primeiro jogo, minando as ações dos Cementeros, como o Cruz Azul é conhecido. Com um pênalti não marcado para os mexicanos pelo brasileiro Márcio Rezende de Freitas, o Boca encaixou um contra-ataque e fez o único gol da partida. Com o 1 a 0 fora de casa, parecia que o título estava definido. Porém, em La Bombonera, os mexicanos vieram para cima e, inesperadamente, marcaram ainda no primeiro tempo, com Palenca, dando esperança para a conquista do título, junto de duas bolas na trave nos minutos finais. No entanto, a camisa azul y oro pesou e, nos pênaltis, os mexicanos deixaram a Libertadores escapar.

O travessão impediu o título mexicano

O travessão impediu o título mexicano [Reprodução/El Trece]

Não só contra argentinos, mas também contra brasileiros os mexicanos marcariam grandes duelos. Em 2002, após ser primeiro lugar invicto em um grupo com o River Plate, novamente o América parou nas semifinais, dessa vez contra o São Caetano, que fez uma campanha inesperada e alcançou o vice-campeonato. Esse jogo, inclusive, é marcado por uma briga generalizada que aconteceu após o atacante Fabrício Carvalho imitar uma águia, animal símbolo da equipe.

A partir de 2005, a Conmebol aumentou para três as vagas destinadas aos mexicanos, sendo que duas equipes iriam direto para a fase de grupos e uma jogaria a fase preliminar. A forma de classificá-los também mudou: com o campeão do Apertura e o campeão e vice do Interliga, campeonato entre os oito melhores times mexicanos, exceto os que jogavam a Liga dos Campeões da CONCACAF. 

A partir de então, vale destacar as campanhas semifinalistas do Chivas, contra o Athletico em 2005, aplicando um sonoro 4 a 0 no algoz mexicano Boca Juniors na fase anterior; contra São Paulo, em 2006; e também a campanha de 2008 do América, que apresentou o carrasco paraguaio Salvador Cabañas. Ele marcou dois em pleno Maracanã, eliminando o Flamengo nas oitavas, além de, na fase seguinte, eliminar o Santos. Não chegou à final pelo gol fora de casa contra a LDU, de Quito.

O terceiro gol do América, segundo de Cabañas, acabou com o sonho flamenguista de reconquistar a América

O terceiro gol do América, segundo de Cabañas, acabou com o sonho flamenguista de reconquistar a América [Imagem: Reprodução/SporTV]

 

A H1N1 e o fim da relação

O cenário parecia caminhar bem entre os clubes mexicanos e os signatários da Conmebol. Porém, há 11 anos atrás, uma pandemia viral também afetou e muito o futebol, apesar de ter sido de forma muito mais branda se comparada ao novo coronavírus. A H1N1, mais conhecida como gripe suína, estava começando a se alastrar em meados de 2009, e o México, local do primeiro epicentro da doença, foi extremamente afetado.

Além de dúvidas acerca da possibilidade ou não dos jogos no país, uma simulação dos sintomas tomou as notícias e quase virou caso de polícia. Aconteceu no jogo entre Chivas e Everton, do Chile, em que o zagueiro mexicano Héctor Reynoso foi suspenso após cuspir, tossir e assoar o nariz em direção ao adversário

Foi nas oitavas de final, no entanto, que o grande entrevero entre as duas partes aconteceu. Chivas e San Luis deveriam enfrentar, respectivamente, São Paulo e Nacional-URU, em meio às primeiras mortes causadas pela doença. Com medo de contrair o vírus, os departamentos das equipes sul-americanas manifestaram-se contra jogar no México, o que foi acatado pela confederação. Existiram ainda tentativas dos times mexicanos mandarem seus jogos em outros países, como Colômbia e Chile, mas esses também recusaram-se, com a mesma justificativa.

Ofício enviado pelo São Paulo para não jogar no México, devido à pandemia da H1N1

Ofício enviado pelo São Paulo para não jogar no México, devido à pandemia da H1N1 [Imagem: Reprodução/São Paulo Futebol Clube]

Houve uma última tentativa de os dois jogos serem disputados na casa dos rivais, mas foi a vez dos clubes mexicanos se manifestarem, expressando que isso seria uma desvantagem esportiva muito grande. Com isso, saíram da competição continental daquele ano, classificando seus rivais diretamente para as quartas de final. 

Mesmo com a entrada direta dos desclassificados na fase das oitavas de final, além das outras três vagas para os clubes mexicanos já delimitadas, a relação foi debilitada. “Por mais que o cenário fosse bom, ninguém quer ver o seu time ser desmerecido, e aí causou um racha que aos poucos foi minando até a saída em definitivo”, aponta Filardi.

O próprio Chivas, em 2010, chegou à final contra o Internacional, tendo novamente o fator casa primordial nos duelos, vencendo Vélez e Libertad. No entanto, contra os brasileiros, mesmo abrindo o placar nas duas partidas, levou a virada em ambos (2 a 1 na ida e 3 a 2 na volta) e o título não foi para a América do Norte novamente.

Depois disso, apesar de algumas campanhas de destaque, como o Tijuana, em 2013, que venceu Corinthians na fase de grupos, eliminou o Palmeiras e só não passou pelo Atlético Mineiro graças ao pé salvador do goleiro Victor, e o Tigres, que chegou também à final do torneio e perdeu na final para o River Plate (final essa que foi muito reclamada pelos mexicanos, pois, mesmo tendo uma melhor campanha, a Conmebol não permitiu que o jogo fosse decidido no México, favorecendo os argentinos), o ímpeto de disputar a competição diminuiu.

Um dos pontos principais para esse desinteresse foi a equiparação entre as competições, seja na questão técnica, seja na econômica. “Os mexicanos jogavam junto com a MLS os jogos da Concacaf e, como o mercado americano estava crescendo, o mexicano crescia junto, então o poder monetário deles acabava se equiparando ao futebol sul-americano”, demonstra Eric Filardi. 

Gustavo Hofman apresenta também que os times voltaram seus esforços para a Concachampions, ao invés da Libertadores, justamente por uma maior visibilidade para seus jogadores e marcas: “A Concachampions é o torneio que leva os mexicanos para o Mundial de Clubes; se o mexicano ganha a Libertadores, não vai para o Mundial pela competição sul-americana”.

A separação em definitivo aconteceu no ano de 2016, quando a Conmebol decidiu alterar o modelo de disputa da Libertadores para o ano seguinte, tornando o campeonato anual, e não mais somente no primeiro semestre como antes. Com isso, a Federação Mexicana decidiu deixar de participar da competição, visto a incapacidade de conciliar a participação em suas competições, como os campeonatos nacionais e a Concachampions, e a disputa sul-americana.


A (im)possível volta
 

Desde 2017, quando os times mexicanos retiraram-se da Libertadores, há tentativas de restabelecer essa relação. Há também, a ideia de se fazer uma espécie de Super Libertadores da América, com a presença também de times da MLS, campeonato estadunidense de futebol que teve, recentemente, a presença de craques como Kaká, Ibrahimovic e Beckham.

Filardi aponta que, caso acontecesse, além de aumentar o nível técnico, poderia ser um atrativo maior ainda para investimentos exteriores: “Em mídia, os americanos sabem sim vender um show. A gente teria um mercado muito atrativo, a Europa olharia com mais olhos também. Viriam mais patrocinadores para a América do Sul inteira, mais visibilidade para a América do Norte também, a gente poderia ter um intercâmbio maior”. 

Apesar de ser um atrativo muito grande, e até mesmo uma vontade de dirigentes dos clubes e federações mexicanas, tal ação ainda está longe de acontecer. Além do calendário da competição se estender por quase o ano inteiro – no ano de 2019, as fases preliminares iniciaram no fim de janeiro e a final ocorreu em novembro –, as distâncias geográficas são também um empecilho para a união das Américas. “A gente tem um continente muito vasto, onde as ligações não são tão simples assim”, explica Hofman.

O que realmente impede essa aproximação é a disputa política entre as entidades continentais de futebol. Conmebol e CONCACAF possuem uma série de atritos, sobretudo na questão de torneios de seleções. Tenta-se construir uma Copa América continental, mas a batalha de ego entre os dois lados para quem vai comandá-la impede tal realização. E enquanto as confederações não se decidem em relação às seleções, os clubes parecem cada vez mais distantes de promoverem tal reencontro.

 

Especial América Latina Jornalismo Júnior Roberto Clemente

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